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Archive for outubro, 2013

18
out

O valor de um retrato no cárcere

Retrato de Clara Vannucci

São muitos os possíveis assuntos a serem escolhidos por um fotógrafo. Em especial um jovem estreante, com um infinito de possibilidades diante das lentes. A italiana Clara Vannucci atua profissionalmente na fotografia publicitária, mas já ganhou um estágio na Magnum pelo assunto que escolheu abordar como projeto pessoal – e pela forma que o fez. Seu interesse é o cárcere, ou melhor, a vida dos detentos nos lugares em que o Estado mantém seus criminosos separados da sociedade. Em Crime and Redemption, ela retratou a importância do teatro para a regeneração de prisioneiros. Em Riker Island, Battered Women Section, tema deste post, registrou a cotidiano na ala feminina do maior presídio dos Estados Unidos.

Foto: Clara Vannucci

Foto: Clara Vannucci

Nascida em Florença, na Itália, em 1985, Clara começou a fotografar prisões em 2007, quando estudava Design Gráfico na University of Architecture of Florence. Em 2009, conheceu a fotojornalista Donna Ferrato, que se apaixonou por seu projeto em cadeias da Toscana e a deu um ano de estágio na Magnum, além da chance de continuar seu projeto em Nova Iorque.

Foto: Clara Vannucci

Foto: Clara Vannucci

Clara teve acesso a Rikers Island através de um programa chamado Alternatives to Incarceration (ATI), “alternativas ao encarceramento”, uma organização que visa acabar com a violência doméstica. De acordo com as estatísticas, mais de 90% das detentas do sexo feminino sofreram abusos físicos ou sexuais em suas vidas. Há 25 anos, a ATI atende as vítimas desse tipo de trauma que cometeram crimes relacionados a ele, atuando em presídios e oferecendo apoio.

Foto: Clara Vannucci

Foto: Clara Vannucci

Conhecido apenas como Rikers, o complexo prisional foi construído entre Bronx e Queens, e possui 18 diferentes prédios com centenas de detentos. Aqueles considerados mais perigosos são encarcerados em um barco localizado no rio que separa os dois distritos. Vannucci visitou a ala das mulheres pela primeira vez em 2009 e rapidamente aprendeu que as prisioneiras não podem ter espelhos, considerados armas. Muitas delas não veem o próprio rosto há anos e, de fato, a maioria nem se reconheceu quando Clara mostrou suas fotos. Foi nesse momento que a fotógrafa deu um novo significado a sua experiência: “o aspecto mais bonito desse projeto foi, para mim, oferecer a elas um espelho”. Pelo fato das prisioneiras também não poderem ter fotos de si mesmas, sob a suspeita de que criem documentos falsos de identidade, Clara deixou as imagens com suas famílias. A cada entrega, lembrava do quão precioso um retrato pode ser.

Foto: Clara Vannucci

Foto: Clara Vannucci

O trabalho rendeu à fotógrafa um ano de residência na Fabrica, o grupo de pesquisa da Benetton, em Treviso. Ela também é representada pela agência DB Daria Bonera Agency.

Foto: Clara Vannucci

Foto: Clara Vannucci

16
out

O diário íntimo de um emagrecimento, por Jen Davis

Ao observador que desconhece o contexto, a fotógrafa Jen Davis definitivamente não parece a própria modelo do ensaio presente neste post. Em autorretratos, há uma cumplicidade entre assunto e câmera que não é evidente no ensaio em questão: na maioria das fotos, Davis parece desconfortável, tímida – um reflexo de como se sentia consigo mesma. Com o título autoexplicativo de Self Portraits (2013), ele consiste não apenas em um retrato honesto da intimidade dos que sofrem com a obesidade, mas em um diário do emagrecimento da fotógrafa ao longo de uma década. E se nas primeiras fotos seu semblante é triste, ela se torna nitidamente mais à vontade nos retratos mais recentes, em que está mais magra.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Foi justamente o primeiro dos autorretratos, feito em 2002 e posteriormente intitulado de “Pressure Point”, que motivou o trabalho em questão – e o início de sua luta para perder peso. Surpreendida com a própria imagem, refletiu sobre o tipo de vida análogo a essa condição e decidiu começar a se fotografar, menos como uma motivação para emagrecer e mais para descobrir “seu lugar no mundo sendo uma pessoa com sobrepeso”, luta que enfrenta desde a infância.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Em 2011, com o projeto já em andamento, apavorou-se com a perspectiva de chegar aos 40 anos ainda obesa e se submeteu a uma cirurgia de redução do estômago, comprometida em alterar seu estilo de vida e engajar-se em dieta e exercícios. Tão logo começou a emagrecer, sentiu algo que definiu como “libertação”: “coisas como sentar em um banco, andar de avião, todas as preocupações desse tipo foram removidas”.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Hoje com 35 anos e baseada no Brooklyn, em Nova Iorque, Davis começou a se fotografar ainda como estudante na Universidade de Columbia, em Chicago, e continuou durante o mestrado em Belas Artes na Universidade de Yale. Além de servirem como estímulo, as imagens a ajudaram a lidar com suas emoções e inseguranças. Se na primeira ela está totalmente vestida em uma praia, rodeada de amigos em trajes de banho, nas últimas ela aparece posando, de lingerie, enrolada na cama e sentada sozinha em um sofá. O último namorado presente nas imagens, Aldo, é real, mas diversos dos romances que clicou ao longo do trabalho foram encenados com amigos. Tratava-se de uma tentativa de entender e retratar “como era se sentir desejada”.

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Autorretrato de Jen Davis

Desde que o trabalho se tornou popular na internet, Davis conta que recebe um apoio inesperado da mídia e de pessoas que lutam contra a imagem que tem de si mesmas. Agora, confiante com o novo corpo, sente-se menos inclinada a sacar a câmera que a ajudou a emagrecer: “Eu não quero mais fotografar isso, eu quero viver isso”.

12
out

Mestres da Fotografia: Ansel Adams

Retrato de Ansel Adams

Ansel Adams: America foi uma das últimas obras de Dave Brubeck, lenda do jazz falecida em 2012. Composta por Dave em parceria com seu filho, Chris, trata-se de uma homenagem sinfônica àquele que é considerado um dos artistas mais importantes da história dos Estados Unidos. Para Brubeck, o fato pouco conhecido de que Ansel Adams (1902 – 1984) havia treinado para se tornar um músico clássico (pianista, como ele), influenciou fundamentalmente a obra do fotógrafo. Os dois artistas têm ainda muito em comum: ambos são de São Francisco, Califórnia, e visitaram o vale do Yosemite aos 14 anos, em 1916. Foi nesta viagem, aliás, que Ansel tirou suas primeiras fotografias com uma Kodak nº1 Box Brownie que ganhou de seus pais. Seus registros desse parque, para o qual voltou todos os anos até o final de sua vida, tornaram-se suas imagens mais conhecidas.

Foto: Ansel Adams

O título da homenagem de Brubeck, America, remete ao fato de que a obra do fotógrafo sempre girou em torno da beleza e da vulnerabilidade das terras norte-americanas, bem como dos laços entre homem e natureza. Poucos artistas conquistaram tanta plateia e popularidade em vida quanto ele, considerado um poeta da fotografia de paisagens em preto e branco. Ligado ao desenvolvimento de técnicas revolucionárias para o ofício, como a criação do filme Polaroid em 1947, trabalhou com câmeras e filmes de grande formato durante toda a sua carreira. Entre as dezenas de livros que possuí, três são sobre técnica, ainda que nas entrelinhas vão muito além disso. O Negativo, A Câmera e A Cópia mantém-se até hoje como fundamental nas escolas de comunicação e fotografia.

Não fazemos uma foto apenas com uma câmera;
ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos,
os filmes que vimos, a música que ouvimos,
as pessoas que amamos.
Ansel Adams

Nascido em 1902 e extremamente dedicado ao piano durante a adolescência e boa parte da vida adulta, Ansel tem em seu amor pela natureza a principal razão de seu envolvimento com a fotografia. Em 1919, associou-se ao Sierra Club, a primeira ONG americana dedicada à preservação do meio ambiente. Foi no clube que publicou imagens de sua autoria pela primeira vez, em 1922, e realizou sua primeira mostra individual, em 1928. A cada verão, o Sierra Club promovia viagens para Serra Nevada e os registros que Ansel fazia dessas expedições permitia que ganhasse o bastante para sobreviver. Um deles, “Monolith, a Face of Half Dome” (1926), feito no parque Yosemite, constitui uma espécie de marco de seu reconhecimento como fotógrafo. Em 1934, foi eleito diretor do clube, reconhecido como o “artista de Serra Nevada e defensor de Yosemite”.

Foto: Ansel Adams

Foto: Ansel Adams

Na época, Ansel teve duas grandes influências. A primeira foi um rico mecenas de São Francisco, Albert M. Bender, que não apenas o encorajou como garantiu segurança financeira para uma drástica mudança de vida. Com seu patrocínio, publicou um primeiro portfólio, Parmelian Prints of the High Sierras. A segunda foi Paul Strand, um dos responsáveis por definir o cânone do modernismo americano na fotografia. O ano era 1927 e Ansel flertava com o Pictorialismo: publicara um álbum de fotografias em que procurava imitar pinturas impressionistas suprimindo detalhes para criar efeitos suaves, algo feito, em parte, em laboratório. Ao conhecer o trabalho de Strand, mudou de direção: decidiu se desvincular das artes plásticas e buscar uma fotografia pura, que enfatizava como seu melhor atributo justamente a capacidade de retratar o mundo com inédita nitidez.

Foto: Ansel Adams

Foto: Ansel Adams

Decidido a sedimentar esse caminho, fundou, em 1932, o f/64, coletivo que contava com os fotógrafos Imogen Cunningham, John Paul Edwards, Preston Holder, Consuelo Kanaga, Alma Lavenson, Sonya Noskowiak, Henry Swift, Willard Van Dyke, Brett Weston e Edward Weston. A ideia havia surgido alguns meses antes em uma festa na galeria de Weston, a 683, onde discutiram o desenvolvimento de um novo rumo na fotografia que rompesse definitivamente com os laços pictóricos. Em uma referência à menor abertura de diafragma possível nas câmeras de grande formato, o nome sinalizava a mútua convicção de que a fotografia deveria celebrar e não disfarçar sua capacidade inigualável de mostrar as coisas nos seus mínimos detalhes. Mas a relevância das texturas e da nitidez abria caminhos, também, para um tipo de ênfase ao abstrato ainda pouco explorada na fotografia.

Foto: Ansel Adams

Foto: Ansel Adams

Para Ansel, não existe um processo fixo ou ideal para a fotografia: todos os elementos são ou controláveis, ou variáveis. Defendia que se fugisse de qualquer tipo de automação, conceito que se enquadra não apenas nos mecanismos automáticos, mas também na aceitação passiva de regras, bulas, normas, papéis e filmes. Devoto da técnica, via nela um caminho para se chegar na arte, um instrumento flexibilizador do olhar e capaz de dotar o fotógrafo de certa magia. Ao valorizá-la como um fermento para a realização do potencial individual, Ansel afirma: “Existe gente demais fazendo somente o que lhes disseram para fazer [...]. Tire proveito de tudo: não se deixe dominar por nada, a não ser por suas próprias convicções. Jamais perca de vista a importância essencial do ofício. Qualquer esforço humano que valha a pena depende de muita concentração e grande domínio dos instrumentos básicos.”

Foto: Ansel Adams

Foto: Ansel Adams

Entre suas contribuições está, ainda, o auxílio na fundação do primeiro acervo museológico de fotografias no mundo, o do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA); a criação do sistema zonal, método para predeterminar com precisão o tom de cada parte da cena fotografada na cópia final; e o desenvolvimento do primeiro curso universitário de fotografia, na Escola de Belas-Artes de São Francisco. Muitos de seus livros são apelos em favor da proteção ambiental, como Making a Photograph (1935), My Camera in the National Parks (1950), This Is the American Earth (1960) e Photographs of the Southwest (1976).