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Archive for outubro, 2013

28
out

Madagascar em cores, por Pierrot Men

Retrato de Pierrot Men

O fotógrafo africano Pierrot Men é celebrado por seu trabalho documental em preto e branco. Em 2011, publicou Chroniques malgaches, um monógrafo cuidadosamente editado com um compilado de seus 35 anos de carreira – totalmente dedicados a registrar o que define como a essência de sua terra, a ilha africana de Madagascar. Neste post, entretanto, escolhemos imagens recentes, fruto de suas aventuras em cores. Men conta que seu primeiro laboratório era péssimo, e foi por essa razão que optou por utilizar filmes monocromáticos.  Suas fotos acabavam coloridas artificialmente ao se transformarem em pinturas, primeira forma de expressão artística testada pelo fotógrafo. A experiência com cores é, também, uma forma de se reinventar – algo típico dos veteranos inquietos.

Foto: Pierrot Men

Foto: Pierrot Men

“Eu sou muito sortudo, meu olhar ainda não se cansou. Ainda tenho a mesma visão sobre o meu povo, e possuo muito prazer em olhar para os meus arquivos. Eu não apenas olho para eles, seja no meu antigo laboratório em preto e branco ou na tela do computador. Gosto de redescobrir certas imagens, ou mesmo trazê-las a vida quando, não raro, descubro uma velha foto que ainda não tinha reparado”. 
Pierrot Men

Foto: Pierrot Men

Foto: Pierrot Men

Seu primeiro amor foi a pintura, mais especificamente fazer óleos sobre tela a partir de suas fotos. Começou a praticar em 1972 e, dois anos depois, uma amiga descobriu ambos, fotos e quadros, e o encorajou a se dedicar de forma séria à fotografia. Men conta que, mesmo que não fosse bom na pintura, aprendeu muito sobre enquadramento, composição e iluminação. “Mas acima de tudo, agradeço a isso por ter me ajudado a descobrir a fotografia. Foi a partir da necessidade de encontrar assuntos para minhas pinturas que comecei a ir para a rua e conhecer pessoas”, conta.

Foto: Pierrot Men

Foto: Pierrot Men

Na época em que recebeu o elogio, Pierrot acabara de abrir um pequeno estúdio em um bairro muito pobre de Fianarantsoa, sua cidade natal, ao sul de Madagascar, onde sua família fazia retratos e fotos para documentos. Ele viajava fotografando casamentos, aniversários, funerais, jogos de futebol, o que acabou não apenas garantindo seu sustento, mas o aproximando da câmera. Foi em 1989, na capital Antananarivo, que Men realizou sua primeira exposição, a convite de um amigo. Com o entusiasmo da audiência diante das dez fotos que exibiu, Pierrot ganhou o incentivo que precisava. Desde então, exibe anualmente por lá, no mesmo lugar em que sua carreira começou.

Foto: Pierrot Men

Foto: Pierrot Men

Madagascar e seus habitantes sempre foram o cerne de seu trabalho e, anos depois, Men ainda não cansou de explorá-lo. “Eu perdi muito tempo. Minhas melhores fotos são aquelas que vieram para mim naturalmente, mas agora eu estou procurando por elas. É uma nova etapa, uma nova abordagem”, conta. Assim, dentro da mesma ilha, Men está buscando outros assuntos. “Fotografia tem tomado tudo que tenho: o tempo para minha família e amigos, minha juventude, minha força, mas também me ofereceu o mais belo dos presentes: Madagascar e sua intimidade, o amor de meu povo, o que eu sempre tentei transmitir”.

Foto: Pierrot Men

Foto: Pierrot Men

Men permanece se definindo como uma “testemunha do dia-a-dia”. Cada uma de suas fotos é um pouco de crônica e de história, um encontro, um instantâneo. “Cada imagem é a expressão visceral do que vejo”.

Foto: Pierrot Men

Foto: Pierrot Men

25
out

Jimmy Nelson: etnofotografia antes que seja tarde

Retrato de Jimmy Nelson

Em português, não há um eufemismo para a palavra “morte” tão eficiente quanto no inglês, “pass away” – algo como ir embora para sempre, deixar o mundo. Ainda que atenuado pelo termo em questão, o projeto Before They Pass Away (algo como “antes que eles se vão”), é literal em seu objetivo: eternizar em imagens tribos do mundo inteiro que, ameaçadas pelo progresso padronizador do homem ocidental, estão condenadas a desaparecerem. Com seus últimos membros, morreriam, também, suas histórias, suas culturas, seus dialetos, seus costumes. Para fazer um registro a altura desses grupos fadados à extinção, o fotógrafo Jimmy Nelson orquestrou cuidadosamente seus retratos, sempre captando aspectos da natureza que os cerca e de suas tradições.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Britânico nascido em Stevenoaks, Jimmy Nelson carregou sua câmera de grande formato durante três anos por 44 países, do Deserto da Namíbia às quase inacessíveis ilhas da Oceania. Fotógrafo desde 1987, tornou-se conhecido quando, após passar 10 anos em um internato jesuíta ao norte da Inglaterra, decidiu cruzar o Tibete a pé. A viagem durou um ano e seus registros dela fizeram um enorme sucesso. Depois disso, cobriu histórias na Rússia e no Afeganistão e conflitos em curso como as tensões entre a Índia e o Paquistão e o início da guerra na ex-Iugoslávia.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

No projeto, a força dos retratos dos guardiões dessas tradições contrasta com a ameaçadora e implícita fragilidade de culturas que se mantém por séculos. É possível sentir a importância do trabalho, por exemplo, nas imagens da tribo neozelandesa Maori, cujas origens podem ser rastreadas até o século 13, com a mítica pátria Hawaiki na Polinésia Oriental. Mesmo após a chegada dos colonizadores europeus no século 18, a tribo sobreviveu, isolada, estabelecendo uma sociedade distinta, com arte, linguagem e mitologia características. Um de seus provérbios angustia o espectador diante de seu possível fim: “minha língua é meu despertar, a minha língua é a janela para a minha alma”.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

O fotógrafo conta que para apenas uma foto chegava a passar três horas, entre planejamento e execução. Como manda a metodologia antropológica, que renega o etnocentrismo e vê o novo sem julgá-lo, o fotógrafo buscava incorporar os costumes e ser aceito pelos grupos, tornando-se amigo das tribos antes de sacar a câmera. Muitas vezes, em lugares onde os nativos andavam nus, até se desfazia das roupas.

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

Foto: Jimmy Nelson

O preço do livro especial para colecionadores será de 8 mil dólares, mas uma versão mais modesta está disponível desde setembro por 95.

23
out

A cápsula do tempo de Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii (1863-1944)

Autorretrato de Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

As imagens presentes neste post, pauta sugerida pelo fotógrafo Fernando Bueno, oferecem um vívido retrato de um mundo perdido: o Império Russo às vésperas da Primeira Guerra Mundial e da subsequente revolução. Não por acaso, o autor, Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii (1863–1944), é uma figura especial na história da fotografia. Formado em química, dedicou sua vida ao desenvolvimento de técnicas fundamentais para as primeiras fotos coloridas. Responsável por pioneiras patentes de filmes a cores, foi encarregado de documentar os avanços do Império, bem como sua rica diversidade cultural.

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Essas imagens, feitas de 1909 a 1915, tinham como objetivo serem mostradas nas escolas. Os assuntos vão das antigas igrejas e mosteiros medievais às ferrovias e fábricas, símbolos de uma potência industrial emergente. Também não faltam registros da vida cotidiana das crianças, mulheres, religiosos e trabalhadores russos. Essa ambiciosa documentação do Império teve seu planejamento iniciado em 1900, e contou com apoio imediato do Czar Nicolau II. Prokdin-Gorskii estudou e documentou onze regiões, viajando em um vagão de trem equipado com uma câmera escura fornecido pelo Ministério dos Transportes. Ele possuía, também, toda a parafernália necessária, além de permissões ilimitadas para visitar áreas de acesso restrito, sempre com o apoio da burocracia do império.

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

O processo desenvolvido por Prokúdin-Gorski tirava três fotos monocromáticas em sequência, cada uma com um filtro de cor diferente, verde, azul e vermelho. Graças ao chassis triplo da câmera, as três exposições fixavam-se na mesma placa de vidro. Os negativos preto e branco assim obtidos eram positivados e exibidos com um projetor triplo que contava com os mesmo filtros de cor, reconstituindo a cena em tons fieis aos originais. Imprimir as fotos, no entanto, não era possível.

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Essa cápsula do tempo foi aberta graças à Biblioteca do Congresso de Washington, que em 1948 comprou as placas de cristal originais dos herdeiros do fotógrafo. Os diapositivos originais foram limpados e digitalizados há três anos e o resultado desse esforço está disponível em uma exposição online, The Empire That Was Russia. A alta qualidade das imagens, combinada com as cores brilhantes, torna difícil a alguns espectadores crer que se tratam de fotografias com mais de 100 anos.

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Foto: Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

Prokudin-Gorskii abandonou a Rússia em 1918, assim que descobriu sobre o assassinato do Czar e sua família. Morou na Noruega e na Inglaterra até estabelecer-se em Paris, onde faleceu em 1944.