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Archive for setembro, 2013

30
set

Ken Kitano: retratos de uma face coletiva

Retrato de Ken Kitano

Nascido em 1968, em Tóquio, Ken Kitano é um fotógrafo japonês cujo trabalho se caracteriza pelas longas exposições e pela sobreposição de fotografias para criar uma nova imagem. É um de seus principais projetos que mostramos neste post: Our Face, uma coletânea de retratos desenvolvida a partir de 1999.

Foto: Ken Kitano

Foto: Ken Kitano

Para fazê-la, Kitano viajou pelo Japão fazendo retratos de membros de diversos grupos sociais. Passou anos visitando comunidades, festivais, escolas, lares, quadras esportivas – conhecendo pessoas, ouvindo suas histórias e tirando seus retratos. Assim, sua obra contempla um grupo eclético: meninas em Harajuko, o tradicional bairro alternativo de Tóquio, trabalhadores de escritório, fazendeiros, etc. Para cada uma das fotos, tirou dezenas de imagens que sobrepôs posteriormente em um mesmo frame. Quanto maior o número de cliques mesclados, menos definidos se tornam os traços de cada um e mais suas faixas etárias e expressões se tornam ambíguas.

Foto: Ken Kitano

Foto: Ken Kitano

Para o fotógrafo, os contornos do indivíduo se confundem, mas expressam, de certa forma, o “tempo e a luz”, únicos para cada grupo em especial de acordo com sua origem e seu cenário. Em suas palavras, sua obra deve ser pensada como um grande círculo de imagens, sem centro. “O projeto pretende unir pessoas de diferentes grupos horizontalmente, sem levar em conta hierarquia ou importância, como se cada um fosse parte de uma cadeia contínua”.

Foto: Ken Kitano

Foto: Ken Kitano

O projeto foi lançado em livro em 2005 e, embora tenha começado na Ásia, deve cobrir o continente americano, a Europa e a África no futuro. Como Kitano define, mais pessoas devem ser incluídas neste grande círculo.

Foto: Ken Kitano

Foto: Ken Kitano

27
set

As mulheres que sangram, por Sarah Elliott

Retrato de Sarah Elliott

O ensaio que ilustra este post é um belo exemplo da eficiência da fotografia em evocar sentimentos e mensagens que as palavras muitas vezes falham em transmitir. O debate acerca do aborto é constante, mas, aqui, são as imagens que servem como um argumento contundente. E se a internet é um dos principais palcos dos embates verbais acerca desse tema polêmico, não foi por acaso que, graças à sua popularização na rede, o trabalho se tornou o mais conhecido de Sarah Elliott, a fotógrafa que o assina. Baseada no Quênia, a americana documentou de forma assustadoramente íntima a realidade das clinicas clandestinas de aborto no país.

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

O título do premiado trabalho, Poor Choices (“escolhas pobres”, em tradução literal) possui duplo sentido: sugere que é uma escolha a se lastimar, mas indica, também, que as mulheres que correm risco de vida ao fazê-la são as de baixa renda. Para registrar essa realidade, Elliott acompanhou jovens que persistiram em seu desejo de controlar a gravidez indesejada, desafiando a criminalização do aborto no país e os riscos que corriam.

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

De acordo com a fotógrafa, os métodos disponíveis e as condições de higiene e segurança dessas clínicas são determinadas pela classe social das pacientes. “Estudos têm mostrado que as leis restritivas não impedem o aborto, apenas inibem o acesso ao aborto seguro. Limitar o acesso a esse procedimento é algo devastador para a vida, a saúde, a família e a comunidade dessas mulheres, além de para o sistema de saúde e, finalmente, para o país como um todo”. Cerca de 2600 mulheres morrem anualmente após abortos ilegais no Quênia, e 21 mil são hospitalizadas depois desses procedimentos. Em clínicas privadas, um aborto clandestino, feito por um profissional, custa cerca de R$ 100.

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

Nascida em 1984, Sarah Elliott graduou-se na Parson’s School of Design, em Nova Iorque, como bacharel em Fotografia. Seu trabalho é centrado na documentação de questões sociais em países da África, sempre focado na situação das mulheres. Além dos direitos reprodutivos no Quênia, também documentou a mortalidade maternal na Etiópia e os papéis da mulher na Revolução do Líbano.

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

Foto: Sarah Elliott

25
set

“Pense enquanto fotografa”, Martin Munkácsi

Retrato de Martin Munkacsi.

Durante a maior parte de sua existência, Martin Munkácsi (1896 – 1963) viveu como um aventureiro. Munido de uma câmera por mais de três décadas, o fotógrafo húngaro deixou duas vezes seus lares em Berlim e, posteriormente, Nova Iorque, para fazer registros espontâneos de lugares distantes como Rio de Janeiro, Hawaii, Turquia e Sevilha. Sempre combinando a inventividade formal com o faro de repórter, tem nomes gabaritados entre seu time de admiradores, como Richard Avedon e Henri Cartier-Bresson. A foto abaixo, aliás, não é nada menos do que a imagem que inspirou Bresson a se dedicar plenamente à fotografia. Em 1932, na época um jovem fotógrafo amador que colecionava imagens de suas viagens e amigos, Bresson viu Three Boys at Lake Tanganyka, tirada em uma praia na Libéria, e sentiu a faísca que acendeu seu entusiasmo.

“De repente eu percebi que, ao capturar o momento, a fotografia era capaz de atingir a eternidade. É a única fotografia que me influenciou. Esta imagem tem tanta intensidade, tanta joie de vivre, uma miraculosidade que me fascina até hoje” Henri Cartier-Bresson sobre  Three Boys at Lake Tanganyka

Foto: Martin Munkacsi.

Foto: Martin Munkacsi.

Nascido Maermelstein Márton em 18 de maio de 1896, na Transilvânia, Munkácsi era apaixonado por futebol e inteligente o suficiente para fazer seus próprios brinquedos, como um par de patins. Segundo sua filha Joan, ele nunca perdeu essa energia inventiva e lúdica que marcava, também, sua obra. Fugiu de casa aos 11 anos, começou a trabalhar como pintor em Budapeste aos 16. Um ano depois, juntou-se a um jornal esportivo como repórter responsável por corridas de carros e partidas de futebol e acabou consagrando-se como fotógrafo de esportes. Na época, a fotografia de ação só poderia ser feita em ambientes externos e repletos de luz. Sua inovação foi fazer essas imagens sempre com composição meticulosa.

Foto: Martin Munkacsi.

Foto: Martin Munkacsi.

Um dia, em 1928, ao registrar sem querer cenas de uma briga fatal, Martin criou um documento importante no julgamento do assassino acusado, o que o rendeu considerável notoriedade e um emprego na Alemanha. Após viver por seis anos em Berlim, mudou-se para Nova Iorque para fugir do regime nazista. Lá, tornou-se mundialmente famoso como fotógrafo de moda nas revistas Harper’s Bazaar e Life. Clicava as modelos fora do estúdio, contrariando o padrão da época, e assinou um dos primeiros artigos sobre a fotografia de nus, que também incorporava corajosamente em seus ensaios. Para muitos, encarava a moda como quem registra eventos esportivos, com modelos ao ar livre, à vontade e em movimento.

Foto: Martin Munkacsi.

Foto: Martin Munkacsi.

Seu mantra não poderia ser mais simples: “meu truque”, escreveu em 1935, “consiste em descartar todos os truques” – o que transparece no ar espontâneo de seus registros. “Nunca coloque seus assuntos posando, deixe os agir e mover naturalmente”. A velocidade da era moderna e as novas possibilidades da fotografia o encantavam, especialmente no ar. Há em seu portfólio diversas fotografias aéreas, de escolas de voo, de um Zepellin, de passageiros de um barco acenando para sua câmera no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro.

Foto: Martin Munkacsi.

Foto: Martin Munkacsi.

Com o auge de seu prestígio, veio o declínio que começou com um ataque cardíaco em 1943. Com dificuldades em se adaptar à fotografia colorida e à renovação editorial das revistas após a Segunda Guerra Mundial, perdeu contratos e entrou em crise, tendo até mesmo que vender suas câmeras para vencer as despesas. Estava praticamente destruído, mas longe de estar esquecido, na época em que morreu.