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Archive for agosto, 2013

21
ago

Mikhael Subotzky e a África pós-Apartheid

Retrato de Mikhael Subotzky.

Da mesma forma que diversos fotógrafos que já foram pauta por aqui, o sul-africano Mikhael Subotzky entrou na fotografia como um adolescente mochileiro cuja única intenção era registrar suas viagens. A chave virou no ano 2000, sete anos antes de ser convidado para se associar à Magnum Photos. Aos 18 anos, ciente da tradição da fotografia documental e particularmente inspirado pelo trabalho de David Goldblatt em In Boksburg (1982), Subotzky decidiu fazer um retrato de Beaufort West, uma pequena cidade marcada pela marginalização e a prisão, duas facetas da violência na África do Sul. Equidistante da Cidade do Cabo e de Joanesburgo, o local era repleto de prostitutas, bêbados e detentos, mas com uma minoria branca e rica no topo, segurando seus privilégios. Se sua referência, Goldblatt, documentou a violência do Apartheid, Subotzky encarregou-se de mostrar as sequelas do regime.

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Subotzky nasceu na Cidade do Cabo em 1981 e vive atualmente em Joanesburgo. Em sua biografia publicada no site da Magnum, diz-se que seu trabalho combina a franqueza da documentação social com um questionamento acerca da natureza do próprio meio fotográfico. Ou seja, Subotzy se preocupa tanto com as estruturas narrativas e de representação quanto com a relação entre o contexto social e a poética formal da tomada de imagem. Nos últimos oito anos, seu trabalho focou-se nos arredores e interiores das mais notórias prisões da África, nas pequenas cidades do país (em especial Beaufort West e Ponte City) e em um único e icônico edifício em Joanesburgo.

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Exemplares de seu portfólio já foram exibidos amplamente em galerias e museus como o Victoria and Albert Museum de Londres e a South African National Gallery. Suas imagens de Beauford West foram editadas e publicadas em livro, além de integrarem a exposição New Photography: Josephine Meckseper and Mikhael Subotzky, sediada no Museum of Modern Art of New York (MoMA) em 2008.

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

“Para mim, a fotografia se tornou uma maneira de tentar dar sentido ao mundo muito estranho que eu vejo ao meu redor. Eu nunca espero conseguir alcançar esse entendimento, mas o fato de que estou tentando me conforta”
Mikhael Subotzky

16
ago

Conexões entre realidade e memória, por Wang Ningde

Retrato de Wang Nindge.

Melancolia, solidão, silêncio e paz. Ao converter pensamentos em cenas, o fotógrafo chinês Wang Ningde manifesta e materializa o íntimo, transformando em aconchego o que poderia causar desconforto. Em “Some Day”, ensaio publicado em 1999 e que está representado por algumas imagens neste post, os personagens aparecem de olhos fechados. E é a projeção da memória, do drama interior e misterioso de cada um deles, que atinge o espectador.

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

De olhos fechados em frente à câmera, as pessoas aparecem em cada imagem em um lugar diferente, como se não estivessem de fato – e por inteiro – nesses cenários. Nas palavras de Ningde, as fotografias são relacionadas à sua infância, “crescimento, família, memória, sexualidade”, mas não tem como objetivo seguirem uma narrativa. Mais do que qualquer coisa, organizam o que ele define como “recusas”: “Jovens ou velhos, em grupo ou sozinhos, tendem a fechar os olhos diante dos outros”. Ningde continua: “Nós podemos apenas obter algumas pistas sobre seus segredos escondidos, e elas se manifestam em suas expressões faciais, de intoxicação, apatia, ansiedade ou dissimulação”. Enquanto meditam ou recordam diante dos outros, aponta Ningde, as pessoas roubam momentos de suas fantasias, degenerando-se em sua imaginação e se recusando a conversar com a realidade.

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

Mais do que remeter ao apego das pessoas com as próprias recordações, o trabalho de Ningde também busca despertar questionamentos: as coisas que guardamos na memória realmente existiram? O quanto adulteramos aquilo que realmente vivemos ao eternizarmos momentos em lembranças?

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

Nascido em 1972 na província e Liaoning, na China, Ningde graduou-se no departamento de fotografia do Luxin Art Institute e já recebeu inúmeras distinções por seu trabalho. Expôs no Xing Dong Cheng Space for Contemporary Art e na Aura Gallery Shangai. Os quadros da série que ilustra este post “Some Day No. 5” e “Some Day No. 25” foram vendidos em 2008 por 18, 750 dólares.

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

14
ago

Peter Scheier e a documentação do Brasil moderno

Retrato de Peter Scheier.

Em uma interpretação romântica, é possível dizer que o fotógrafo Peter Scheier (1908 – 1979) encontrou na fotografia uma forma de manifestar seu amor pelo Brasil – e não apenas de ganhar a vida em um país desconhecido. Fugindo da perseguição nazista, o alemão chegou em São Paulo em 1937, aos 29 anos, e construiu uma carreira eclética, registrando diversos momentos importantes da história brasileira. Os negativos em seu acervo impressionam tanto pela variedade dos assuntos abordados quanto pela quantidade: doado em 1979 para a Editora Abril, o arquivo contém cerca de 30 mil negativos em preto e branco e 4 mil slides coloridos.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Quando chegou em São Paulo, Scheier tinha nas mãos uma carta de recomendação para trabalhar em um frigorífico. Empregado e atuando, também, como operário e tipógrafo, vendia cúpulas de abajur nas horas vagas. Um dia, cansado de carregá-las, decidiu tirar fotografias das peças para fazer um catálogo. Foi sua estreia na profissão.  Em 1939, começou a fotografar para um dos suplementos do jornal O Estado de São Paulo. No início dos anos 1940 até cerca de 1950, assinou importantes reportagens como fotojornalista da revista O Cruzeiro. A entrada na publicação coincidiu com um refinamento estético em sua fotografia, atribuído por muitos como consequência do contato com o casal Pietro Maria, crítico de arte, e Lina Bo Bardi, arquiteta modernista.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Foi nos anos 1940 que Scheier registrou o acelerado desenvolvimento da cidade de São Paulo – suas fotos urbanas e com ar moderno estamparam as páginas da revista de arte, design e arquitetura Habitat.  Na mesma época, abriu o Foto Studio Peter Scheier, que funcionou até 1975, ano em que retornou para a Alemanha. Scheier também foi o fotógrafo oficial da Record e do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Representado pela agência norte-americana Pix, reportou, entre diversas pautas, a inauguração de Brasília para o exterior.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Ao registrar as mudanças tecnológicas do país, Peter Scheier não deixou para trás os tipos humanos, as características locais e as situações sociais, construindo um repertório que contempla as múltiplas facetas do Brasil. Versátil, o fotógrafo se adaptava bem em qualquer situação, mas sempre mantendo o enfoque de fotojornalista: preferia histórias e pessoas em detrimento de paisagens e arquiteturas.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Peter Scheier faleceu em Ainring, Alemanha, em 1979, quatro anos depois de deixar o Brasil.