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Archive for agosto, 2013

30
ago

Fotógrafos históricos: Alvin Langdon Coburn (1882 – 1966)

Autorretrato de Alvin Langdon Coburn.

Estadunidense, mas ativo, também, na Inglaterra, Alvin Langdon Coburn (1882 – 1966) foi um fotógrafo pioneiro, bastante conhecido por seus retratos. Trata-se, também, de uma figura-chave no desenvolvimento do Pictorialismo nos Estados Unidos. O movimento artístico, abraçado e fomentado por nomes como Alfred Stieglitz e Gertrude Käsebier, tinha como objetivo expressar sentidos e evocar sensações através da fotografia, legitimando o ofício como arte.

Nascido em Boston, filho de uma família de classe média, Coburn foi fortemente influenciado por sua mãe, uma fotógrafa amadora de olhar aguçado. Sua primeira câmera, entretanto, foi presente de tios californianos, aos 8 anos de idade. Ainda na infância, apaixonou-se por fotografia e passou a se dedicar tanto ao aperfeiçoamento técnico no darkroom quanto a estudos de composição. O interesse em tornar a fotografia um meio de expressão artística surgiu quando mudou-se para a Inglaterra, em 1899, na companhia de sua mãe e seu primo, F. Holland Day, um fotógrafo reconhecido já nesse período.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Em 1900, aos 17 anos, ganhou espaço na exposição New School of American Pictorial Photography, organizada por Day. Com a ajuda do primo, a carreira de Coburn ganhou um belo empurrão inicial. Suas imagens chamaram a atenção de Frederick Evans, um dos fundadores da Brotherhood of the Linked Ring (algo como “irmandade do anel articulado”), ou apenas Linked Ring, uma associação de fotógrafos considerada, na época, “a mais alta autoridade para a estética fotográfica”.

Em 1901, Cobourn viveu em Paris por alguns meses para que pudesse estudar com os fotógrafos Edward Steichen e Robert Demachy. Ele e sua mãe viajaram pela França, Suiça e Alemanha pelo resto do ano. Quando retornaram aos Estados Unidos, Coburn começou a estudar com Gertrude Käsebier em Nova Iorque e abriu seu próprio estúdio na Quinta Avenida. Foi durante este período que começou a experimentar certos truques de soft focus, utilizando-se de técnicas pin hole ao substituir as lentes da câmara por um cartão perfurado.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Com contatos importantes tanto em Nova Iorque quanto em Londres, tornou-se, em 1902, membro da Photo-Secession, fundada por Alfred Stieglitz para dar vazão ao seu envolvimento com a fotografia pictórica. Um ano depois foi eleito membro da Linked Ring – tornando-se um dos poucos jovens (e americanos) a fazerem parte do grupo.

“Para fazer fotografias satisfatórias de pessoas, é necessário, para mim, gostar delas, admirá-las, ou ao menos estar interessado. É curioso e difícil de explicar, mas se eu não gostar do meu assunto, isso vai aparecer no retrato”
Alvin Langdon Coburn

Algumas das obras mais importantes (e impressionantes) de Coburn são retratos, fruto, em parte, de sua experiência com Kasëbier. George Berard Shaw, que conheceu em Londres, também o apresentou a uma série de artistas, escritores e figuras políticas que estão presentes em seu portfólio (bem como diversos imponentes retratos de Shaw). Bernard Shaw também escreveu o prefácio do catálogo da exposição do trabalho de Coburn na Royal Photographic Society, em Londres, em 1906, classificando Coburn e Edward Steichen como “os dois maiores fotógrafos do mundo”.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

 

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Coburn produziu dois livros de retratos: Men of Mark (1913) e More Men of Mark. Como fotógrafo de paisagens e cidades, concentrou-se mais na atmosfera dos assuntos ao invés de focar-se na delimitação clara de tons e detalhes. Foi influenciado por pintores japoneses, definidos por ele como o “estilo de simplificação”.

Entre 1910 e 1911, Coburn passou um longo período nas regiões selvagens da Califórnia, fotografando lugares de grande beleza natural, incluindo o Grand Canyon. Em 1916, ele fez uma Vortoscope (um triângulo de espelhos anexados à lente), com a qual foi capaz de tirar fotografias abstratas conhecidas como “Vortographs”. Elas foram exibidas em Londres, juntamente com uma série de pinturas, no Camera Club, em 1917. De 1918 até o fim de sua vida, dedicou-se à Maçonaria, tirando fotos apenas nas férias.

28
ago

Larry Burrows: registros inequívocos do inferno

Retrato de Larry Burrows.

Embora a história da fotografia mundial esteja relacionada a coberturas em zonas de perigo, guerras costumam causar trágicas perdas para o fotojornalismo. Na Guerra do Vietnã, com a liberdade e a mobilidade dos profissionais comprometida pelas características do embate, mais de 120 fotojornalistas morreram em trabalho. Um deles protagoniza este post e foi um dos principais responsáveis para que a opinião pública tomasse conhecimento do que se passava. Na primavera de 1965, três mil e quinhentos fuzileiros navais americanos chegaram no Vietnã. A experiência do dia-a-dia das tropas no solo e no ar, com a tensão da guerra sendo potencializada rapidamente, foi narrada por um fotógrafo britânico de 39 anos chamado Larry Burrows (1926 – 1971) na revista LIFE. Com imagens definidas pela publicação como “uma combinação de intensidade crua e brilhantismo técnico”, tornou-se admirado tanto por suas fotografias quanto por sua coragem no front.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Burrows entrou na fotografia aos 16 anos durante a Segunda Guerra Mundial. Deixou a escola para trabalhar como laboratorialista e “multi-tarefas” o escritório da LIFE em Londres, sua cidade natal. Pela publicação, foi enviado ao Vietnã, onde permaneceu de 1962 a 1971, quando morreu após o helicóptero em que viajava com mais três fotojornalistas (Henri Huet, Kent Potter e Keisaburo Shimamoto) ser derrubado em Laos. Um de seus ensaios mais famosos é “One Ride with Yankee Papa 13”, publicado em abril de 1965, mas todas as imagens que ilustram este post foram registradas em 1966. Entre elas está outro de seus mais icônicos registros, “Reaching Out”, abaixo.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Em outubro de 1966, em um monte coberto de lama ao sul da “Zona Desmilitarizada” (DMZ), no Vietnã, Burrows fez uma fotografia que por gerações serve como uma ilustração permanente e lancinante dos horrores inerentes às guerras. Na imagem, um fuzileiro naval ferido (o sargento da artilharia Jeremias Purdie, com uma bandagem manchada de sangue na cabeça), parece desesperado em frente a um companheiro ferido. No quadro, há ternura e terror, desolação e companheirismo. Nos arredores, troncos irregulares, já atingidos por projéteis de artilharia e fogos de rifles, figuras humanas distorcidas por feridas, capacetes, coletes à prova de balas e curativos. Mas o elemento mais insuportável do quadro é, talvez, a naturalidade dos jovens americanos ali reunidos na sequência de um tiroteio,  milhares de quilômetros distantes de suas casas.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Em 2002, o livro póstumo de Burrows, Larry Burrows: Vietnam (2002), ganhou o prêmio Nadar Prix. Na época do acidente, os fotógrafos cobriam a Operação Lam Son 719, uma invasão massiva e blindada por forças sul-vietnamitas contra o Exército Popular do Vietnã e o Pathet Lao, um movimento político, nacionalista e comunista organizado no Laos no meio do século XX.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

23
ago

Zoe Strauss e as ruas como assunto e museu

Retrato de Zoe Strauss

Enquanto alguns fotógrafos, mesmo que sob um mesmo tema, viajam incansavelmente para fotografar, outros passam uma vida inteira dentro de seu próprio bairro. Certos fotógrafos vendem cópias de seus registros da miséria e da degradação humana por um alto valor. Outros, dedicam-se a levar a arte àqueles que não podem pagar por ela. Por suas escolhas, Zoe Strauss é uma figura estranha no mundo da arte: sua grande ambição é criar uma narrativa épica que reflita a beleza e a luta da vida cotidiana. E acessível a todos, personagens e espectadores de sua obra.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Nascida em 1970 na Filadélfia, Zoe Strauss foi a primeira de sua família a se graduar no ensino médio. Ganhou uma câmera no seu aniversário de 30 anos e começou a tirar fotos nos bairros marginais de sua cidade, assunto que se tornou central em sua obra. Nas ruas, Strauss fotografa o que golpeia seu interesse, com uma especial atenção aos detalhes esquecidos, e que costumam ser propositalmente evitados.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Seus personagens são principalmente membros da classe trabalhadora e aqueles considerados vadios ou delinquentes. Pessoas marcadas por cicatrizes, tatuagens e maquiagens que poderiam ser consideradas grotescas também costumam lhe despertar empatia, sendo retratadas de forma mais desafiadora do que dramática, como se dissessem: “é assim que sou, ou escolhi ser, me aceite ou me deixe”. Seu olhar também aborda a beleza não convencional da paisagem urbana, com ênfase à publicidade, os sinais escritos à mão e o grafitti. Às vezes, o comentário é irônico, como na imagem de uma “one dollar store”, loja de produtos baratíssimos, com uma placa: “Nem tudo custa 1 dólar”.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Foi em 1995, antes de fotografar, que Strauss começou o Philadelphia Public Art Project, uma organização-de-uma-mulher-só com o objetivo de dar aos cidadãos da Philadelphia acesso à arte em sua vida cotidiana. O envolvimento com a fotografia veio em 2000, como um instumento direto para representar os temas de seu interesse. “Quando comecei a fotografar, foi como se em um canto escondido de mim eu já estivesse esperando por isso”, contou. Em 2002, seu trabalho culminou em uma exposição anual chamada “Under I-95″, sediada na rodovia interestadual abandonada I-95, no Sul da Filadelfia. As imagens foram exibidas em pilares de concreto e fotocópias foram vendidas a 5 dólares cada. Um mapa codificado mostrava a listra de títulos disponíveis. Para Strauss, zonas urbanas marginalizadas e galerias de arte se complementam. Seu envolvimento com ambos os lugares é profundo: o museu é utilizado por ela como um lugar para o discurso cívico e as ruas são um lugar de interação social. Dez anos depois da exposição, as imagens mudaram de endereço, protagonizando uma mostra solo no Philadephia Museum of Art.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Strauss formou-se em Fotografia pela Royal Academy of Fine Arts de Ghent em 2009 e foi indicada para associar-se à Magnum em 2012. Em 2006, Strauss participou da Whitney Biennial. Em 2008, publicou seu primeiro livro, America.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

21
ago

Mikhael Subotzky e a África pós-Apartheid

Retrato de Mikhael Subotzky.

Da mesma forma que diversos fotógrafos que já foram pauta por aqui, o sul-africano Mikhael Subotzky entrou na fotografia como um adolescente mochileiro cuja única intenção era registrar suas viagens. A chave virou no ano 2000, sete anos antes de ser convidado para se associar à Magnum Photos. Aos 18 anos, ciente da tradição da fotografia documental e particularmente inspirado pelo trabalho de David Goldblatt em In Boksburg (1982), Subotzky decidiu fazer um retrato de Beaufort West, uma pequena cidade marcada pela marginalização e a prisão, duas facetas da violência na África do Sul. Equidistante da Cidade do Cabo e de Joanesburgo, o local era repleto de prostitutas, bêbados e detentos, mas com uma minoria branca e rica no topo, segurando seus privilégios. Se sua referência, Goldblatt, documentou a violência do Apartheid, Subotzky encarregou-se de mostrar as sequelas do regime.

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Subotzky nasceu na Cidade do Cabo em 1981 e vive atualmente em Joanesburgo. Em sua biografia publicada no site da Magnum, diz-se que seu trabalho combina a franqueza da documentação social com um questionamento acerca da natureza do próprio meio fotográfico. Ou seja, Subotzy se preocupa tanto com as estruturas narrativas e de representação quanto com a relação entre o contexto social e a poética formal da tomada de imagem. Nos últimos oito anos, seu trabalho focou-se nos arredores e interiores das mais notórias prisões da África, nas pequenas cidades do país (em especial Beaufort West e Ponte City) e em um único e icônico edifício em Joanesburgo.

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Exemplares de seu portfólio já foram exibidos amplamente em galerias e museus como o Victoria and Albert Museum de Londres e a South African National Gallery. Suas imagens de Beauford West foram editadas e publicadas em livro, além de integrarem a exposição New Photography: Josephine Meckseper and Mikhael Subotzky, sediada no Museum of Modern Art of New York (MoMA) em 2008.

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

Foto: Mikhael Subotzky

“Para mim, a fotografia se tornou uma maneira de tentar dar sentido ao mundo muito estranho que eu vejo ao meu redor. Eu nunca espero conseguir alcançar esse entendimento, mas o fato de que estou tentando me conforta”
Mikhael Subotzky

16
ago

Conexões entre realidade e memória, por Wang Ningde

Retrato de Wang Nindge.

Melancolia, solidão, silêncio e paz. Ao converter pensamentos em cenas, o fotógrafo chinês Wang Ningde manifesta e materializa o íntimo, transformando em aconchego o que poderia causar desconforto. Em “Some Day”, ensaio publicado em 1999 e que está representado por algumas imagens neste post, os personagens aparecem de olhos fechados. E é a projeção da memória, do drama interior e misterioso de cada um deles, que atinge o espectador.

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

De olhos fechados em frente à câmera, as pessoas aparecem em cada imagem em um lugar diferente, como se não estivessem de fato – e por inteiro – nesses cenários. Nas palavras de Ningde, as fotografias são relacionadas à sua infância, “crescimento, família, memória, sexualidade”, mas não tem como objetivo seguirem uma narrativa. Mais do que qualquer coisa, organizam o que ele define como “recusas”: “Jovens ou velhos, em grupo ou sozinhos, tendem a fechar os olhos diante dos outros”. Ningde continua: “Nós podemos apenas obter algumas pistas sobre seus segredos escondidos, e elas se manifestam em suas expressões faciais, de intoxicação, apatia, ansiedade ou dissimulação”. Enquanto meditam ou recordam diante dos outros, aponta Ningde, as pessoas roubam momentos de suas fantasias, degenerando-se em sua imaginação e se recusando a conversar com a realidade.

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

Mais do que remeter ao apego das pessoas com as próprias recordações, o trabalho de Ningde também busca despertar questionamentos: as coisas que guardamos na memória realmente existiram? O quanto adulteramos aquilo que realmente vivemos ao eternizarmos momentos em lembranças?

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

Nascido em 1972 na província e Liaoning, na China, Ningde graduou-se no departamento de fotografia do Luxin Art Institute e já recebeu inúmeras distinções por seu trabalho. Expôs no Xing Dong Cheng Space for Contemporary Art e na Aura Gallery Shangai. Os quadros da série que ilustra este post “Some Day No. 5” e “Some Day No. 25” foram vendidos em 2008 por 18, 750 dólares.

Foto: Wang Nindge.

Foto: Wang Nindge.

14
ago

Peter Scheier e a documentação do Brasil moderno

Retrato de Peter Scheier.

Em uma interpretação romântica, é possível dizer que o fotógrafo Peter Scheier (1908 – 1979) encontrou na fotografia uma forma de manifestar seu amor pelo Brasil – e não apenas de ganhar a vida em um país desconhecido. Fugindo da perseguição nazista, o alemão chegou em São Paulo em 1937, aos 29 anos, e construiu uma carreira eclética, registrando diversos momentos importantes da história brasileira. Os negativos em seu acervo impressionam tanto pela variedade dos assuntos abordados quanto pela quantidade: doado em 1979 para a Editora Abril, o arquivo contém cerca de 30 mil negativos em preto e branco e 4 mil slides coloridos.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Quando chegou em São Paulo, Scheier tinha nas mãos uma carta de recomendação para trabalhar em um frigorífico. Empregado e atuando, também, como operário e tipógrafo, vendia cúpulas de abajur nas horas vagas. Um dia, cansado de carregá-las, decidiu tirar fotografias das peças para fazer um catálogo. Foi sua estreia na profissão.  Em 1939, começou a fotografar para um dos suplementos do jornal O Estado de São Paulo. No início dos anos 1940 até cerca de 1950, assinou importantes reportagens como fotojornalista da revista O Cruzeiro. A entrada na publicação coincidiu com um refinamento estético em sua fotografia, atribuído por muitos como consequência do contato com o casal Pietro Maria, crítico de arte, e Lina Bo Bardi, arquiteta modernista.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Foi nos anos 1940 que Scheier registrou o acelerado desenvolvimento da cidade de São Paulo – suas fotos urbanas e com ar moderno estamparam as páginas da revista de arte, design e arquitetura Habitat.  Na mesma época, abriu o Foto Studio Peter Scheier, que funcionou até 1975, ano em que retornou para a Alemanha. Scheier também foi o fotógrafo oficial da Record e do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Representado pela agência norte-americana Pix, reportou, entre diversas pautas, a inauguração de Brasília para o exterior.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Ao registrar as mudanças tecnológicas do país, Peter Scheier não deixou para trás os tipos humanos, as características locais e as situações sociais, construindo um repertório que contempla as múltiplas facetas do Brasil. Versátil, o fotógrafo se adaptava bem em qualquer situação, mas sempre mantendo o enfoque de fotojornalista: preferia histórias e pessoas em detrimento de paisagens e arquiteturas.

Foto: Peter Scheier.

Foto: Peter Scheier.

Peter Scheier faleceu em Ainring, Alemanha, em 1979, quatro anos depois de deixar o Brasil.

12
ago

O século de Thurston Hopkins

Retrato de Thurston Hopkins.

Em 16 de abril deste ano, o fotógrafo britânico Thurston Hopkins completou 100 anos de vida. Nas retrospectivas desse aniversário, foram lembradas diversas de suas fotos que, mais do eternizarem costumes, parecem celebrar a vida, repletas de fragmentos de história cotidiana. Beijos roubados, crianças surpreendidas em meio a uma brincadeira, damas de honra em um momento de descanso, uma senhora retocando a maquiagem, amigas dançando, são alguns de seus flagras que documentam uma época (e estão presentes neste post).

Foto: Thurston Hopkins

Foto: Thurston Hopkins.

Nascido Godfrey Thurston Hopkins, o fotógrafo desde cedo adotou os dois sobrenomes, prática comum na Inglaterra dos anos 1920. Treinou para se tornar um ilustrador gráfico, formando-se na Brighton College of Art, mas ao descobrir que a câmera “pagava melhor que o pincel” começou a trabalhar como fotógrafo freelancer para a imprensa nos anos 1930. Mesmo que tenha começado como autônomo, sua história é intimamente ligada a uma das mais importantes publicações do fotojornalismo mundial: a Picture Post. Criada há 75 anos, a revista semanal tornou-se célebre por priorizar ensaios e reportagens mais densos, profundos.

Foto: Thurston Hopkins.

Foto: Thurston Hopkins.

Foto: Thurston Hopkins.

Mas antes de ser contratado pela revista, em 1949, Hopkins foi recrutado para trabalhar na Real Força Aérea Britânica quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, viajou de carona por toda a Europa tirando fotos e, depois, foi contratado pela Camera Press, agência fundada em Londres por Tom Blau. Dois anos depois, passou a integrar a equipe do Picture Post, desempenhando um importante papel na criação de um sentimento de identidade nacional no período pós-guerra. Na década de 1950, entretanto, a tiragem começou a diminuir. Com o encerramento da revista, em 1957, Hopkins abriu seu próprio estúdio e embarcou em uma bem sucedida carreira publicitária.

Foto: Thurston Hopkins.

Foto: Thurston Hopkins.

Foto: Thurston Hopkins.

Após aposentar-se, no final dos anos 1960, Hopkins continuou lecionando e dando palestras em diversas universidades até retornar ao seu primeiro amor, a pintura. Atualmente vive na Costa Sul dos Estados Unidos com sua esposa.

6
ago

Chico Albuquerque: pioneiro da fotografia tupiniquim

Retrato de Chico Albuquerque.

Francisco Afonso de Albuquerque (1917-2000), o Chico Albuquerque, é um dos pioneiros da fotografia publicitária nacional. Mais do que isso, é de sua autoria a primeira campanha assinada por um brasileiro: um registro de modelo e produto para a Johnson & Johnson, da J. W. Thompson, em 1948. Sua trajetória na fotografia, entretanto, começou antes, ainda na adolescência.

Foto: Chico Albuquerque.

Foto: Chico Albuquerque.

Cearense de Fortaleza, Chico Albuquerque manifestou cedo seu talento para o ofício. Aos 15 anos, fotografou um documentário de curta-metragem e, aos 17, já trabalhava como fotógrafo profissional. Foi apenas com 25, entretanto, que foi apresentado à composição. Ao fazer a fotografia de cena de It’s All True (1942), filme sobre a América Latina encomendado como parte da política de boa vizinhança do presidente norte-americano Roosevelt, Chico aprendeu sobre a divisão áurea do retângulo com ninguém menos que Orson Welles, diretor do longa.

Foto: Chico Albuquerque.

Foto: Chico Albuquerque.

Em 1945, Chico mudou-se para São Paulo e não demorou para conquistar o mercado. Abriu seu estúdio próprio em 1946 na Avenida Rebouças e, bem relacionado, assinou imagens famosas de várias personalidades. Entre elas estão o paisagista Burle Marx, o pintor Aldemir Martins, o presidente Juscelino Kubitschek, a atriz Odete Lara, entre tantos outros. No mesmo ano, ingressou no Fotocine Clube Bandeirante, desempenhando um papel de liderança no movimento fotoclubista da cidade ao lado de figuras como German Lorca, Thomaz Farkas, Geraldo de Barros e Eduardo Salvatore. O engajamento no fotoclubismo foi uma das formas com que Chico ajudou a promover o desenvolvimento da fotografia no Brasil.

Foto: Chico Albuquerque.

Foto: Chico Albuquerque.

Ao se aposentar, em 1975, 30 anos depois da chegada em São Paulo, Chico retornou à Fortaleza, mas não parou de fotografar: montou outro estúdio e permaneceu ativo e produtivo. Dedicou-se a ensaios de naturezas-mortas com frutas típicas brasileiras e destacou-se na elogiada exposição 130 Fotos de personalidades paulistanas, realizada na Galeria Fotóptica, em 1982. Seu papel permaneceu decisivo tanto na estruturação do mercado publicitário quanto na transformação do fotojornalismo local. Nas palavras de Patrícia Veloso, responsável pela editora nordestina Terra da Luz, “quando ele voltou de São Paulo, já era respeitado no mercado. Se hoje a fotografia do Ceará conquistou reconhecimento nacional e internacional, deve muito a ele”.

Foto: Chico Albuquerque.

Foto: Chico Albuquerque.

Entre suas publicações mais famosas está Mucuripe, editado em 1989, com imagens da praia homônima em dois momentos distintos, 1952 e 1988. Os registros mostram, além da paisagem cearense, o cotidiano dos jangadeiros e a importância do mar em suas vidas. Chico nunca parou de fotografar. Seu último trabalho foi em 2000, seu último ano de vida, quando assinou a campanha publicitária da Del Rio aos 83 anos.

Foto: Chico Albuquerque.

Foto: Chico Albuquerque.

2
ago

Um ensaio de amor, por um fotógrafo amador

Retrato de Andy Prokh.

Já falamos em nosso post sobre a primeira aula de Ensaio, ainda no Módulo de Formação, a respeito do trabalho de Andy Prokh. Nascido em uma pequena cidade rural da Rússia, o economista tem na fotografia um passatempo, e tornou-se conhecido na internet justamente por ele. Um ensaio, em especial, é bastante famoso e foi trazido pelos professores Leopoldo Plentz e Guilherme Lund como referência. A girl and her cat (“Uma menina e seu gato”), cujas imagens estão presentes neste post, foi desenvolvido durante anos e tem como tema a singela amizade entre Catherine, filha de Prokh, e o sua gatinha, Lilu Blue Royal Lady, ou apenas Lilu.

Foto: Andy Prokh.

Foto: Andy Prokh.

Foto: Andy Prokh.

Nas imagens, feitas sempre na mesma sala, os dois aparecem brincando juntos: jogam xadrez, tocam instrumentos, pulam. À primeira vista, o ensaio parece ter sido feito em outros tempos, muito por conta da ausência de cores e da grande definição das imagens: as texturas do teto e do piso, sempre reveladas em detalhes, ajudam a criar uma unidade. Na aula em que o trabalho foi mostrado aos alunos, Leopoldo destacou a composição cuidadosa do fotógrafo. Em algumas fotos, o assoalho e o teto se mantém no mesmo nível, criando uma linha quando as imagens são colocadas lado a lado.

Foto: Andy Prokh.

Foto: Andy Prokh.

Foto: Andy Prokh.

Outro detalhe interessante é que o trabalho está em contante construção – e é possível conferir como a menina cresceu desde que as primeiras imagens foram feitas. No início, Lilu, sentada, era quase do mesmo tamanho de Catherine. Quando questionado sobre a motivação do ensaio, o fotógrafo amador não poderia ser mais óbvio nem mais sincero: “Eu gosto de fotografá-los porque os amo tanto”, responde, “eu sempre acreditei que um fotógrafo deve amar o que fotografa”.

Foto: Andy Prokh.

Foto: Andy Prokh.

Foto: Andy Prokh.