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Archive for agosto, 2013

30
ago

Fotógrafos históricos: Alvin Langdon Coburn (1882 – 1966)

Autorretrato de Alvin Langdon Coburn.

Estadunidense, mas ativo, também, na Inglaterra, Alvin Langdon Coburn (1882 – 1966) foi um fotógrafo pioneiro, bastante conhecido por seus retratos. Trata-se, também, de uma figura-chave no desenvolvimento do Pictorialismo nos Estados Unidos. O movimento artístico, abraçado e fomentado por nomes como Alfred Stieglitz e Gertrude Käsebier, tinha como objetivo expressar sentidos e evocar sensações através da fotografia, legitimando o ofício como arte.

Nascido em Boston, filho de uma família de classe média, Coburn foi fortemente influenciado por sua mãe, uma fotógrafa amadora de olhar aguçado. Sua primeira câmera, entretanto, foi presente de tios californianos, aos 8 anos de idade. Ainda na infância, apaixonou-se por fotografia e passou a se dedicar tanto ao aperfeiçoamento técnico no darkroom quanto a estudos de composição. O interesse em tornar a fotografia um meio de expressão artística surgiu quando mudou-se para a Inglaterra, em 1899, na companhia de sua mãe e seu primo, F. Holland Day, um fotógrafo reconhecido já nesse período.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Em 1900, aos 17 anos, ganhou espaço na exposição New School of American Pictorial Photography, organizada por Day. Com a ajuda do primo, a carreira de Coburn ganhou um belo empurrão inicial. Suas imagens chamaram a atenção de Frederick Evans, um dos fundadores da Brotherhood of the Linked Ring (algo como “irmandade do anel articulado”), ou apenas Linked Ring, uma associação de fotógrafos considerada, na época, “a mais alta autoridade para a estética fotográfica”.

Em 1901, Cobourn viveu em Paris por alguns meses para que pudesse estudar com os fotógrafos Edward Steichen e Robert Demachy. Ele e sua mãe viajaram pela França, Suiça e Alemanha pelo resto do ano. Quando retornaram aos Estados Unidos, Coburn começou a estudar com Gertrude Käsebier em Nova Iorque e abriu seu próprio estúdio na Quinta Avenida. Foi durante este período que começou a experimentar certos truques de soft focus, utilizando-se de técnicas pin hole ao substituir as lentes da câmara por um cartão perfurado.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Com contatos importantes tanto em Nova Iorque quanto em Londres, tornou-se, em 1902, membro da Photo-Secession, fundada por Alfred Stieglitz para dar vazão ao seu envolvimento com a fotografia pictórica. Um ano depois foi eleito membro da Linked Ring – tornando-se um dos poucos jovens (e americanos) a fazerem parte do grupo.

“Para fazer fotografias satisfatórias de pessoas, é necessário, para mim, gostar delas, admirá-las, ou ao menos estar interessado. É curioso e difícil de explicar, mas se eu não gostar do meu assunto, isso vai aparecer no retrato”
Alvin Langdon Coburn

Algumas das obras mais importantes (e impressionantes) de Coburn são retratos, fruto, em parte, de sua experiência com Kasëbier. George Berard Shaw, que conheceu em Londres, também o apresentou a uma série de artistas, escritores e figuras políticas que estão presentes em seu portfólio (bem como diversos imponentes retratos de Shaw). Bernard Shaw também escreveu o prefácio do catálogo da exposição do trabalho de Coburn na Royal Photographic Society, em Londres, em 1906, classificando Coburn e Edward Steichen como “os dois maiores fotógrafos do mundo”.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

 

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Foto: Alvin Langdon Coburn.

Coburn produziu dois livros de retratos: Men of Mark (1913) e More Men of Mark. Como fotógrafo de paisagens e cidades, concentrou-se mais na atmosfera dos assuntos ao invés de focar-se na delimitação clara de tons e detalhes. Foi influenciado por pintores japoneses, definidos por ele como o “estilo de simplificação”.

Entre 1910 e 1911, Coburn passou um longo período nas regiões selvagens da Califórnia, fotografando lugares de grande beleza natural, incluindo o Grand Canyon. Em 1916, ele fez uma Vortoscope (um triângulo de espelhos anexados à lente), com a qual foi capaz de tirar fotografias abstratas conhecidas como “Vortographs”. Elas foram exibidas em Londres, juntamente com uma série de pinturas, no Camera Club, em 1917. De 1918 até o fim de sua vida, dedicou-se à Maçonaria, tirando fotos apenas nas férias.

28
ago

Larry Burrows: registros inequívocos do inferno

Retrato de Larry Burrows.

Embora a história da fotografia mundial esteja relacionada a coberturas em zonas de perigo, guerras costumam causar trágicas perdas para o fotojornalismo. Na Guerra do Vietnã, com a liberdade e a mobilidade dos profissionais comprometida pelas características do embate, mais de 120 fotojornalistas morreram em trabalho. Um deles protagoniza este post e foi um dos principais responsáveis para que a opinião pública tomasse conhecimento do que se passava. Na primavera de 1965, três mil e quinhentos fuzileiros navais americanos chegaram no Vietnã. A experiência do dia-a-dia das tropas no solo e no ar, com a tensão da guerra sendo potencializada rapidamente, foi narrada por um fotógrafo britânico de 39 anos chamado Larry Burrows (1926 – 1971) na revista LIFE. Com imagens definidas pela publicação como “uma combinação de intensidade crua e brilhantismo técnico”, tornou-se admirado tanto por suas fotografias quanto por sua coragem no front.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Burrows entrou na fotografia aos 16 anos durante a Segunda Guerra Mundial. Deixou a escola para trabalhar como laboratorialista e “multi-tarefas” o escritório da LIFE em Londres, sua cidade natal. Pela publicação, foi enviado ao Vietnã, onde permaneceu de 1962 a 1971, quando morreu após o helicóptero em que viajava com mais três fotojornalistas (Henri Huet, Kent Potter e Keisaburo Shimamoto) ser derrubado em Laos. Um de seus ensaios mais famosos é “One Ride with Yankee Papa 13”, publicado em abril de 1965, mas todas as imagens que ilustram este post foram registradas em 1966. Entre elas está outro de seus mais icônicos registros, “Reaching Out”, abaixo.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Em outubro de 1966, em um monte coberto de lama ao sul da “Zona Desmilitarizada” (DMZ), no Vietnã, Burrows fez uma fotografia que por gerações serve como uma ilustração permanente e lancinante dos horrores inerentes às guerras. Na imagem, um fuzileiro naval ferido (o sargento da artilharia Jeremias Purdie, com uma bandagem manchada de sangue na cabeça), parece desesperado em frente a um companheiro ferido. No quadro, há ternura e terror, desolação e companheirismo. Nos arredores, troncos irregulares, já atingidos por projéteis de artilharia e fogos de rifles, figuras humanas distorcidas por feridas, capacetes, coletes à prova de balas e curativos. Mas o elemento mais insuportável do quadro é, talvez, a naturalidade dos jovens americanos ali reunidos na sequência de um tiroteio,  milhares de quilômetros distantes de suas casas.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

Em 2002, o livro póstumo de Burrows, Larry Burrows: Vietnam (2002), ganhou o prêmio Nadar Prix. Na época do acidente, os fotógrafos cobriam a Operação Lam Son 719, uma invasão massiva e blindada por forças sul-vietnamitas contra o Exército Popular do Vietnã e o Pathet Lao, um movimento político, nacionalista e comunista organizado no Laos no meio do século XX.

Foto: Larry Burrows.

Foto: Larry Burrows.

23
ago

Zoe Strauss e as ruas como assunto e museu

Retrato de Zoe Strauss

Enquanto alguns fotógrafos, mesmo que sob um mesmo tema, viajam incansavelmente para fotografar, outros passam uma vida inteira dentro de seu próprio bairro. Certos fotógrafos vendem cópias de seus registros da miséria e da degradação humana por um alto valor. Outros, dedicam-se a levar a arte àqueles que não podem pagar por ela. Por suas escolhas, Zoe Strauss é uma figura estranha no mundo da arte: sua grande ambição é criar uma narrativa épica que reflita a beleza e a luta da vida cotidiana. E acessível a todos, personagens e espectadores de sua obra.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Nascida em 1970 na Filadélfia, Zoe Strauss foi a primeira de sua família a se graduar no ensino médio. Ganhou uma câmera no seu aniversário de 30 anos e começou a tirar fotos nos bairros marginais de sua cidade, assunto que se tornou central em sua obra. Nas ruas, Strauss fotografa o que golpeia seu interesse, com uma especial atenção aos detalhes esquecidos, e que costumam ser propositalmente evitados.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Seus personagens são principalmente membros da classe trabalhadora e aqueles considerados vadios ou delinquentes. Pessoas marcadas por cicatrizes, tatuagens e maquiagens que poderiam ser consideradas grotescas também costumam lhe despertar empatia, sendo retratadas de forma mais desafiadora do que dramática, como se dissessem: “é assim que sou, ou escolhi ser, me aceite ou me deixe”. Seu olhar também aborda a beleza não convencional da paisagem urbana, com ênfase à publicidade, os sinais escritos à mão e o grafitti. Às vezes, o comentário é irônico, como na imagem de uma “one dollar store”, loja de produtos baratíssimos, com uma placa: “Nem tudo custa 1 dólar”.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Foi em 1995, antes de fotografar, que Strauss começou o Philadelphia Public Art Project, uma organização-de-uma-mulher-só com o objetivo de dar aos cidadãos da Philadelphia acesso à arte em sua vida cotidiana. O envolvimento com a fotografia veio em 2000, como um instumento direto para representar os temas de seu interesse. “Quando comecei a fotografar, foi como se em um canto escondido de mim eu já estivesse esperando por isso”, contou. Em 2002, seu trabalho culminou em uma exposição anual chamada “Under I-95″, sediada na rodovia interestadual abandonada I-95, no Sul da Filadelfia. As imagens foram exibidas em pilares de concreto e fotocópias foram vendidas a 5 dólares cada. Um mapa codificado mostrava a listra de títulos disponíveis. Para Strauss, zonas urbanas marginalizadas e galerias de arte se complementam. Seu envolvimento com ambos os lugares é profundo: o museu é utilizado por ela como um lugar para o discurso cívico e as ruas são um lugar de interação social. Dez anos depois da exposição, as imagens mudaram de endereço, protagonizando uma mostra solo no Philadephia Museum of Art.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.

Strauss formou-se em Fotografia pela Royal Academy of Fine Arts de Ghent em 2009 e foi indicada para associar-se à Magnum em 2012. Em 2006, Strauss participou da Whitney Biennial. Em 2008, publicou seu primeiro livro, America.

Foto: Zoe Strauss.

Foto: Zoe Strauss.