Skip to content

Archive for julho, 2013

23
jul

Quando as cores se encontram: Me Julie, por Annie Collinge

Já falamos aqui sobre o trabalho da fotógrafa inglesa radicada em Nova Iorque Annie Collinge, responsável por ensaios excêntricos e ricos em cores. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, nem sempre os personagens que protagonizam esses trabalhos se restringem ao mundo da fantasia. Uma de suas obras mais recentes retrata uma personalidade relativamente famosa, a designer de moda e artista Julie Verhoeven. Na definição do jornal britânico The Independent, o mundo da moda é repleto de figuras coloridas, mas Julie se destaca por se tratar de uma das mais caleidoscópicas. Como as fotografias de Annie, as obras que Julie assina são marcadas por doses generosas de surrealismo e psicodelia. A afinidade entre as duas aparece logo no título do ensaio, que poderia remeter a uma série de autorretratos: Me Julie.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Inspirada pela identificação de ambas com paletas de cores brilhantes, Annie conta que escreveu à Verhoeven sugerindo o ensaio. Foi no Natal de 2012 que se encontraram, em Londres, no estúdio da estilista, para um dia de cliques improvisados e experimentais. Da divertida brincadeira nasceu o trabalho em questão, repleto de gracejos, mas com alguns elementos melancólicos. Lírios de plástico e figurinos de arlequim dão um aspecto circense às imagens, mas contrastam com as expressões sérias e tristes da modelo. Para Annie, essas dicotomias ajudam a refletir sua personalidade: “Eu pensei que ela seria realmente efusiva, mas é uma das pessoas mais auto-depreciativas que você pode encontrar”, relembra.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

A produção dos retratos, assinada por Annie, foi justamente inspirada nas ilustrações de moda de Julie, que transformou-se em uma versão bizarra de seus próprios croquis. Mechas azuis e verdes, rosto e mãos pintadas, figurinos coloridos, corpo de boneca e objetos peculiares (como o par de peitos de borracha que se destaca em um dos cliques) construíram uma atmosfera que transita entre o infantil e o surreal.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

Foto: Annie Colinge.

19
jul

A fé brasileira pelas lentes de José Bassit

“Se percorremos o Brasil de ponta a ponta, perceberemos que em meio às diversidades culturais há, entre outros,

um ponto em comum: a fé.” 

José Bassit

Retrato de José Bassit.

Fotojornalista desde 1985, José Bassit iniciou em 1998 o trabalho que ilustra este post, “Por onde anda a fé”, e acompanhou romarias, passeatas e manifestações religiosas em sete estados brasileiros durante cinco anos. Os ensaios realizados resultaram no livro Imagens Fiéis, publicado em 2003, é uma importante referência na fotografia documental brasileira. Durante sua jornada, Bassit percebeu nos fiéis e em suas crenças uma maneira de contar a história da relação do povo com a própria devoção e, nela, identificar as culturas e peculiaridades de cada religião.

Foto: José Bassit.

Foto: José Bassit.

Neste projeto, seu trabalho de maior prestígio, há o registro de rituais de batismo, funerais e festas do calendário religioso, como a romaria de São Francisco das Chagas, em Canindé, no Ceará, e a Festa de Iemanjá, na Praia Grande, em São Paulo. Bassit enfatiza o quanto esses eventos se modificam em cada região do país: “A linguagem, os símbolos e os santos diferem conforme a cultura e a história do lugar. Mas, em todos os casos, o fervor é intenso e faz parte da vida da população”. A escolha do preto e branco nas imagens ajuda a captar a emoção da fé. Há, também, jogos de luz e sombra que remetem à dualidade entre o céu e a terra, o sagrado e o profano.

Foto: José Bassit.

Foto: José Bassit.

Em um dos textos de abertura do livro, Bassit ressalta que, no momento em que o mundo passa pela globalização, “a cultura dos povos, especialmente a que tem características bastantes regionais e peculiares, pode se extinguir em meio à cultura de massa”. Seu empenho em eternizar esses ritos também instiga o receptor a pensar em por que a cultura do povo brasileiro está tão intimamente ligada à religião e à fé, transcendendo a documentação. Para o sociólogo José de Souza Martins, as imagens remetem à obra de Guimarães Rosa: “Na beleza destas fotografias podemos ver o que Guimarães Rosa daria a ver se fotografasse. Em Bassit, a mesma narrativa, a mesma língua que narra esta sociedade de avessos”.

Foto: José Bassit.

Foto: José Bassit.

José Bassit nasceu em 1957 na cidade de São Paulo. Formou-se em comunicação pela FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado) e já teve seus trabalhos publicados nos principais periódicos e revistas do Brasil, como o jornal O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde, Revista Folha e Revista Época. Suas obras integram acervos de instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte de são Paulo. Vale ressaltar que o projeto “Por onde anda a fé” ainda está em desenvolvimento.

Foto: José Bassit.

Foto: José Bassit.

 

17
jul

Annie Collinge, entre o infantil e o sombrio

Autorretrato de Annie Collinge.

“Meu trabalho geralmente é sobre um tema comum, sombrio e sem humor, que contrasta com a cor intensa. É este conflito que busco representar”.

A inglesa Annie Collinge tem se destacado no meio artístico pela originalidade de suas fotografias que exploram a riqueza de cores em cada cenário. A fotógrafa compõe imagens onde o divertido confunde-se com o bizarro, cujo contraste mencionado por ela aparece, também, nos personagens excêntricos que protagonizam cenas surreais. “Meu estilo vem dos livros que li quando criança. Conforme fui crescendo, percebi quanto impacto suas ilustrações tiveram sobre mim”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Annie nasceu em Londres, em 1980. Estudou na escola de artes e design Central Saint Martins e na Universidade de Brighton. Aos 17 anos, começou a trabalhar como assistente de fotografia. Em 2008 mudou-se para Nova Iorque e passou a fotografar para o jornal The Independent e para as revistas Sunday Times e Vice. Nessa época, Annie incluiu em seu portfolio retratos de celebridades e ensaios de moda, mas o contrato com esses veículos serviram, na verdade, para financiar projetos autorais – o viés mais expressivo do trabalho da artista.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

O que despertou o interesse de Annie pela fotografia, num primeiro momento, foi o processo de revelação das fotos – mergulhar o papel em uma bacia com químicos e esperar para ver o que surge. Quando morava com os pais, ela mantinha um laboratório fotográfico no porão da casa, onde revelava as imagens captadas em preto-e-branco. Mais tarde, quando começou a utilizar o filme colorido, os tons saturados tornaram-se um dos principais elementos da composição, presentes em tecidos florais, fantasias e adornos que tornam cômicos objetos e personagens descritos em uma atmosfera sombria. As imagens da artista são iluminadas apenas com luz natural, na intenção de aproximar as fotografias do cotidiano, como se o que ela representasse fosse completamente normal.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.

Apesar de Annie ter abordado temas tão variados como retratos, paisagens e naturezas mortas, seu apreço maior é pela fotografia de moda. Lamenta, no entanto, que seja mal explorada – segundo ela, o que os fotógrafos fazem hoje é “jogar modelos em estúdios brancos”. Ela considera ser essa “uma das veias mais criativas da fotografia”.

Foto: Annie Collinge.

Foto: Annie Collinge.