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Archive for julho, 2013

29
jul

Arnold Newman, o fotógrafo dos artistas

Arnold Newman. Foto: Greg Heisler.

“Nós não tiramos fotos com nossas câmeras, mas com nossos corações e mentes”. O autor da frase, Arnold Newman (1918 – 2006), assinou retratos icônicos de alguns dos mais influentes inovadores do século XX, entre pintores, cineastas, celebridades e figuras políticas. Com uma carreira de quase sete décadas, Newman é celebrado pela composição meticulosa e por seu método: buscava captar a essência de seus assuntos mostrando-os em seus ambientes pessoais ao invés de no estúdio.

Piet Mondrian. Foto: Arnold Newman.

Max Ernst. Foto: Arnold Newman.

Nascido em Manhattan, Newman cresceu em Atlantic City e mudou-se para a Flórida em 1936 para estudar Pintura e Desenho na Universidade de Miami. Incapaz de sustentar financeiramente os últimos dois anos de curso, passou a viver na Filadélfia e trabalhar fazendo retratos por 49 centavos. Retornou a Florida em 1942 para gerenciar um estúdio fotográfico em West Palm e, dois anos depois, abriu seu próprio negócio em Miami Beach. Foi em 1946 que se realocou em sua cidade natal, Nova Iorque, onde viveu até o fim de sua vida e inaugurou seu Arnold Newman Studio. A partir daí, trabalhou como fotógrafo freelancer para publicações como Fortune, Life e Newsweek. Embora nunca tenha se tornado um membro, passou a frequentar a Photo League, cooperativa de fotógrafos amadores e profissionais aliados em torno de causas comuns, criativas ou sociais, até 1951.

Salvador Dali. Foto: Arnold Newman.

Jean Dubuffet. Foto: Arnold Newman.

De acordo com o próprio, Newman encontrou sua identidade na empatia que sentia pelos artistas e suas obras. Embora tenha fotografado inúmeras personalidades famosas – como Pablo Picasso, Man Ray, Isamu Noguchi, Marcel Duchamp, Piet Mondrian, Jean Dubuffet, Salvador Dali e Max Ernst, cujos retratos estão presentes neste post – ele sustentou que mesmo que o assunto fosse desconhecido, ou já esquecido, a fotografia ainda deveria estimular e interessar o espectador.

Isamu Noguchi. Foto: Arnold Newman.

Man Ray. Foto: Arnold Newman.

Newman é creditado como o primeiro fotógrafo a utilizado a chamada “enviromental portraiture” (algo como “retrato ambiental”), técnica em que o fotógrafo coloca o sujeito em um ambiente cuidadosamente controlado para captar a essência de sua vida e seu trabalho. Com câmera de grande formato e tripé, Newman trabalhava, também, para que todos os detalhes presentes na cena fossem retratados. Essa celebrada abordagem parece, à primeira vista, simples. Músicos posavam com seus instrumentos, por exemplo, e homens de negócio em seus escritórios imponentes. Newman, no entanto, conferiu-lhes boas doses de sutileza e significado: em alguns de seus retratos é possível encontrar aspectos simbólicos, emblemáticos ou metafóricos de valores da sociedade.

Marcel Duchamp. Foto: Arnold Newman.

Pablo Picasso. Foto Arnold Newman.

De fevereiro a maio deste ano, a Harry Ranson Center, no Texas, sediou a primeira grande mostra do trabalho do fotógrafo desde sua morte. Arnold Newman: Masterclass examinou a evolução de sua visão singular através da análise de um amplo acervo que inclui seus primeiros experimentos como fotógrafo, ainda trabalhando no estúdio de Miami. As peças incluem retratos informais, paisagens, imagens documentais e estudos de composição.

26
jul

“Viagem Pela Linha Invisível”, um registro autoral da fronteira do Rio Grande do Sul

Eduardo Veras e Marco Antônio Filho são jornalistas por formação, mas em sua mais recente parceria, não assumiram compromisso algum com a realidade – o que se torna ainda mais interessante quando descobrimos que o projeto é um diário de bordo. Para documentar sua jornada ao longo da fronteira do RS, mais precisamente no trecho em que o Rio Grande do Sul encontra a Argentina e o Uruguai, a dupla criou o “Viagem Pela Linha Invisível”, definido por Veras como “uma viagem concebida especialmente para ser contada”. Atualmente em formato de blog, o projeto tem como objetivo valorizar os aspectos subjetivos e pessoais que fazem parte das viagens: os estranhamentos, o olhar estrangeiro, o diálogo e a troca com os locais, o desejo de perpetuar observações. Marco foi responsável por fazer esses registros em imagens enquanto Eduardo ficou encarregado dos textos.

Foto: Marco Antonio.

Foto: Marco Antonio.

Segundo Marco, a grande motivação do projeto explica, também, seu título: além do tema “fronteira” possuir aspectos interessantes a serem fotografados, trata-se de uma divisão existente apenas por demarcação. Ainda de acordo com ele, a área em questão foi a última do território brasileiro a ser colonizada. A viagem iniciou em Porto Alegre, de carro, e no dia 8 de julho chegou na cidade de Derrubadas, extremo norte do estado. Rumando ao sul (Chuí), percorreu toda a fronteira do RS em um período de duas semanas. Esse roteiro pré-definido era tudo o que sabiam sobre o trajeto, que foi ganhando formas mais definidas de acordo com a vontade dos dois. Paravam apenas onde julgavam interessante e mais ou menos da mesma forma, sem rigidez, desenvolviam o material. “Atravessamos o Rio Uruguai de balsa, do Brasil para a Argentina, e novamente da Argentina para o Brasil. Cruzamos pontes a partir de São Borja, trilhamos estradas de um lado e outro. Atolamos e desatolamos o carro para atingir o ponto mais ocidental do estado, na chamada Tríplice Fronteira. Dali, viemos em novo ziguezague pela linha imaginária que separa Brasil e Uruguai”, relembra Veras, no blog. Os dois explicam que as fotos e textos não foram feitos como complementares: “o que os conectou foram as nossas conversas durante a viagem”, completa Marco.

Foto: Marco Antonio.

Foto: Marco Antonio.

O resultado também se tornará uma exposição fotográfica e uma publicação em estilo de jornal, com fotos e textos selecionados a fim de brincar um pouco com o formato jornalístico tradicional. “Ficou um discurso bem alinhado e acho bom não ter essa pretensão de ser uma reportagem. Deixou mais livre”, observa Veras. A jornada será exibida na Galeria Mascate em fevereiro de 2014, em Porto Alegre.

Veja mais em: viagempelalinha.tumblr.com/

 

Viagem pela linha invisível [Teaser] from Marco A. F. on Vimeo.

24
jul

Os Churequeros de Manágua, por Luiz Maximiano

Retrato de Luiz Maximiano.

Luiz Maximiano, 35 anos, é um dos jovens fotógrafos brasileiros que não se contentaram com a possível segurança do fotojornalismo tradicional. Aproveitou-se da possibilidade de emancipação jornalística típica de nosso tempo, na qual fotógrafos não precisam de veículos para viabilizar coberturas, e investiu em projetos pessoais. O ensaio que ilustra este post, Os Churequeros de Manágua,é um deles, e tornou-se um dos 60 selecionados entre os mil inscritos para o Lumis Festival for Young Photojournalism de 2010, sediado em Hannover, na Alemanha. Luiz foi o único latino-americano premiado. Não por acaso, o trabalho é um fiel retrato da pobreza em que vivem centenas de habitantes do continente. La Chureca, gíria em espanhol para “lixão”, é um local de eliminação de resíduos domésticos e industriais localizado em Manágua, na Nicarágua. Das cerca de mil pessoas que lá residem e trabalham, garantindo seu sustento com o que encontram no lixo, metade são menores de 18 anos.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.

Paranaense de Assis Chateubriand, Maximiano formou-se em Comunicação Social na ESPM de São Paulo. Escolheu a fotografia por acaso, em 2003, quando mudou-se para Amstedam, Holanda, e arrematou uma Canon AE-1 usada no eBay, por 40 dólares. “Trabalhava na área de comunicação de uma ONG e nas horas vagas devorava livros sobre fotografia. Fotografava em preto e branco, revelando minhas fotos num laboratório improvisado em meu quarto”, recorda.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.

Em 2007, ainda na Holanda, foi eleito a revelação do ano no concurso Canonprijs, da Canon, seu passaporte para publicar na imprensa internacional. Desde então, colaborou com publicações como Time, Newsweek e The Wall Street Journal. Mais tarde, em 2011, conquistou o Prêmio Abril de Jornalismo, tornando-se repórter assíduo de Veja e outras revistas da Editora Abril, como Bravo!, Info e Alfa. No ano passado, obteve o primeiro lugar no International Photography Awards, na categoria Meio Ambiente, na qual competiu com nomes como Paolo Pellegrin, da Magnum.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.

Maximiano tem em seu portfólio importantes coberturas, a maioria realizada de forma independente, como a guerra no Afeganistão, tumultos raciais em Myanmar, epidemia de HIV na África do Sul, confrontos na Europa Oriental e crise social na América Latina. Em 2012, esteve no Cairo e na Faixa de Gaza. De acordo com ele, além do perigo, o mais difícil em se cobrir uma guerra são os custos. “É muito caro pagar por hospedagem, água, comida e comunicação em um lugar desses e os grandes veículos brasileiros dificilmente vão querer bancar alguém por semanas ou meses, que é o tempo necessário para fazer um bom material”, afirma. Ainda assim, Luiz Maximiano não descarta voltar às zonas de confronto caso encontre alguma boa história: “Vou numa boa, mesmo que do meu bolso”.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.

Foto: Luiz Maximiano.