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Archive for julho, 2013

31
jul

Childrens of Dust: Eric Valli e a fotografia antropológica

Já falamos aqui e aqui sobre Eric Valli e sua abordagem antropológica da fotografia. Sua relação com a ciência social, aliás, vem da maneira intuitiva, íntima e nada etnocêntrica com que se envolve com as pessoas e lugares que visita, incorporando sempre os modos e a cultura locais como forma de melhor compreendê-los e, por consequência, retratá-los.  Se nas postagens anteriores mostramos sua documentação de diferentes tipos de colheitas do mel no Himalaia, hoje mostramos outro de seus mais emblemáticos ensaios: Childrens of Dust, segundo colocado no World Press Photo de 1988. “Filhos da poeira”, em tradução literal, mostra a rotina de crianças indianas trabalhando na construção de tijolos em uma olaria.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

“Meu ofício poderia ser definido como um construtor de pontes entre os homens. Os homens têm diferentes religiões, peles, culturas… mas os ossos são os mesmos. Não importa onde você está, as mesmas coisas te fazem rir. Somos iguais, mas viemos em diferentes caixas”.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

Eric Valli nasceu em Dijon, França, no ano de 1952. A forma pessoal com que  faz fotojornalismo vem do fato de que o próprio se define primeiro como um viajante, e apenas depois como fotógrafo. No cinema, terreno em que se aventura com sucesso, também tem como objetivo prioritário levar as histórias que encontra a outras praças. Para ele, esses são os meios que descobriu para dar um testemunho sobre as regiões surpreendentes que conhece, mas não se tratam de sua principal paixão. “Minha motivação é viver e conhecer pessoas… e depois vem a imagem”.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

A entrada de Valli no meio fotográfico se deu por acaso, quando aos 21 anos vivia no Himalaia, “perdido” (nas palavras do próprio), e mostrou suas imagens para alguns de seus amigos, que insistiram que ele as apresentasse a algum editor. De lá para cá, já possui mais de 15 livros publicados. Sua primeira câmera veio um pouco antes, aos 17 anos, como presente de seu pai, um pintor. Em entrevista publicada no site quesabede.com em 2006, o fotógrafo ainda se mostrava alheio à tecnologia digital. Seu equipamento permanecia uma velha Leica munida de Kodakchrome ou Ektachrome. “E quando a Kodak parar de fabricar filmes fotográficos?”, indaga o entrevistador. “O meio não importa, o que importa é que a foto transmita emoção e seja boa”, constata Valli.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

A revista australiana Smith publicou um perfil do fotógrafo quando, depois de anos na estrada, ele estabeleceu-se na capital francesa para se dedicar a trabalhos comerciais. A introdução tem tom dramático: “depois de uma vida nômade, escalando penhascos, vencendo doenças e tirando fotografias nos cantos mais solitários do planeta, o legendário Eric Valli só pensa se sobreviverá à vida em Paris”.

Foto: Eric Valli.

Foto: Eric Valli.

29
jul

Arnold Newman, o fotógrafo dos artistas

Arnold Newman. Foto: Greg Heisler.

“Nós não tiramos fotos com nossas câmeras, mas com nossos corações e mentes”. O autor da frase, Arnold Newman (1918 – 2006), assinou retratos icônicos de alguns dos mais influentes inovadores do século XX, entre pintores, cineastas, celebridades e figuras políticas. Com uma carreira de quase sete décadas, Newman é celebrado pela composição meticulosa e por seu método: buscava captar a essência de seus assuntos mostrando-os em seus ambientes pessoais ao invés de no estúdio.

Piet Mondrian. Foto: Arnold Newman.

Max Ernst. Foto: Arnold Newman.

Nascido em Manhattan, Newman cresceu em Atlantic City e mudou-se para a Flórida em 1936 para estudar Pintura e Desenho na Universidade de Miami. Incapaz de sustentar financeiramente os últimos dois anos de curso, passou a viver na Filadélfia e trabalhar fazendo retratos por 49 centavos. Retornou a Florida em 1942 para gerenciar um estúdio fotográfico em West Palm e, dois anos depois, abriu seu próprio negócio em Miami Beach. Foi em 1946 que se realocou em sua cidade natal, Nova Iorque, onde viveu até o fim de sua vida e inaugurou seu Arnold Newman Studio. A partir daí, trabalhou como fotógrafo freelancer para publicações como Fortune, Life e Newsweek. Embora nunca tenha se tornado um membro, passou a frequentar a Photo League, cooperativa de fotógrafos amadores e profissionais aliados em torno de causas comuns, criativas ou sociais, até 1951.

Salvador Dali. Foto: Arnold Newman.

Jean Dubuffet. Foto: Arnold Newman.

De acordo com o próprio, Newman encontrou sua identidade na empatia que sentia pelos artistas e suas obras. Embora tenha fotografado inúmeras personalidades famosas – como Pablo Picasso, Man Ray, Isamu Noguchi, Marcel Duchamp, Piet Mondrian, Jean Dubuffet, Salvador Dali e Max Ernst, cujos retratos estão presentes neste post – ele sustentou que mesmo que o assunto fosse desconhecido, ou já esquecido, a fotografia ainda deveria estimular e interessar o espectador.

Isamu Noguchi. Foto: Arnold Newman.

Man Ray. Foto: Arnold Newman.

Newman é creditado como o primeiro fotógrafo a utilizado a chamada “enviromental portraiture” (algo como “retrato ambiental”), técnica em que o fotógrafo coloca o sujeito em um ambiente cuidadosamente controlado para captar a essência de sua vida e seu trabalho. Com câmera de grande formato e tripé, Newman trabalhava, também, para que todos os detalhes presentes na cena fossem retratados. Essa celebrada abordagem parece, à primeira vista, simples. Músicos posavam com seus instrumentos, por exemplo, e homens de negócio em seus escritórios imponentes. Newman, no entanto, conferiu-lhes boas doses de sutileza e significado: em alguns de seus retratos é possível encontrar aspectos simbólicos, emblemáticos ou metafóricos de valores da sociedade.

Marcel Duchamp. Foto: Arnold Newman.

Pablo Picasso. Foto Arnold Newman.

De fevereiro a maio deste ano, a Harry Ranson Center, no Texas, sediou a primeira grande mostra do trabalho do fotógrafo desde sua morte. Arnold Newman: Masterclass examinou a evolução de sua visão singular através da análise de um amplo acervo que inclui seus primeiros experimentos como fotógrafo, ainda trabalhando no estúdio de Miami. As peças incluem retratos informais, paisagens, imagens documentais e estudos de composição.

26
jul

“Viagem Pela Linha Invisível”, um registro autoral da fronteira do Rio Grande do Sul

Eduardo Veras e Marco Antônio Filho são jornalistas por formação, mas em sua mais recente parceria, não assumiram compromisso algum com a realidade – o que se torna ainda mais interessante quando descobrimos que o projeto é um diário de bordo. Para documentar sua jornada ao longo da fronteira do RS, mais precisamente no trecho em que o Rio Grande do Sul encontra a Argentina e o Uruguai, a dupla criou o “Viagem Pela Linha Invisível”, definido por Veras como “uma viagem concebida especialmente para ser contada”. Atualmente em formato de blog, o projeto tem como objetivo valorizar os aspectos subjetivos e pessoais que fazem parte das viagens: os estranhamentos, o olhar estrangeiro, o diálogo e a troca com os locais, o desejo de perpetuar observações. Marco foi responsável por fazer esses registros em imagens enquanto Eduardo ficou encarregado dos textos.

Foto: Marco Antonio.

Foto: Marco Antonio.

Segundo Marco, a grande motivação do projeto explica, também, seu título: além do tema “fronteira” possuir aspectos interessantes a serem fotografados, trata-se de uma divisão existente apenas por demarcação. Ainda de acordo com ele, a área em questão foi a última do território brasileiro a ser colonizada. A viagem iniciou em Porto Alegre, de carro, e no dia 8 de julho chegou na cidade de Derrubadas, extremo norte do estado. Rumando ao sul (Chuí), percorreu toda a fronteira do RS em um período de duas semanas. Esse roteiro pré-definido era tudo o que sabiam sobre o trajeto, que foi ganhando formas mais definidas de acordo com a vontade dos dois. Paravam apenas onde julgavam interessante e mais ou menos da mesma forma, sem rigidez, desenvolviam o material. “Atravessamos o Rio Uruguai de balsa, do Brasil para a Argentina, e novamente da Argentina para o Brasil. Cruzamos pontes a partir de São Borja, trilhamos estradas de um lado e outro. Atolamos e desatolamos o carro para atingir o ponto mais ocidental do estado, na chamada Tríplice Fronteira. Dali, viemos em novo ziguezague pela linha imaginária que separa Brasil e Uruguai”, relembra Veras, no blog. Os dois explicam que as fotos e textos não foram feitos como complementares: “o que os conectou foram as nossas conversas durante a viagem”, completa Marco.

Foto: Marco Antonio.

Foto: Marco Antonio.

O resultado também se tornará uma exposição fotográfica e uma publicação em estilo de jornal, com fotos e textos selecionados a fim de brincar um pouco com o formato jornalístico tradicional. “Ficou um discurso bem alinhado e acho bom não ter essa pretensão de ser uma reportagem. Deixou mais livre”, observa Veras. A jornada será exibida na Galeria Mascate em fevereiro de 2014, em Porto Alegre.

Veja mais em: viagempelalinha.tumblr.com/

 

Viagem pela linha invisível [Teaser] from Marco A. F. on Vimeo.