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Archive for junho, 2013

10
jun

“Eu acredito que há coisas que ninguém veria se eu não as fotografasse” Diane Arbus

Retrato de Diane Arbus.

“O que eu nunca vi antes é o que reconheço.” Com esta frase, a fotógrafa Diane Arbus define o caminho que escolheu trilhar como artista e fotógrafa. A singularidade de seus retratos e a marca por ela deixada na história da fotografia americana se dá tanto em razão das pessoas que escolhia fotografar quanto por seu intenso interesse por elas.

Diane Arbus assumiu um olhar intimista e o explorou com esmero em seus trabalhos mais reconhecidos. Movida por uma sensibilidade nata, buscava perfis de pessoas diferentes, o que acabou se tornando quase um requisito para suas fotos: seus retratados eram totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade. Nascida em 1923 como Diane Nemerov, em Nova Iorque, encontrou em sua cidade natal inspiração para suas imagens. As fotografias deveriam traduzir o envolvimento que Diane construía com as pessoas, tornando-se, de fato, o resultado de um encontro.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Diane começou a trabalhar com fotografia junto com seu marido, Allan Arbus, na década de 1940. Os dois se conheceram quando ela tinha 13 anos e casaram cinco anos mais tarde, formando uma parceria no ramo da moda. Em 1959, a sociedade terminou para que Diane pudesse seguir seus interesses pessoais e, com o rompimento profissional, o casamento também chegou o fim. Apesar de ter passado por uma fase difícil, Diane conseguiu desenvolver ainda mais sua fotografia. Um aspecto importante para sua revolução veio da influência da fotógrafa Lisette Model, imigrante europeia que encorajou Arbus a desenvolver o tema da heterodoxia e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar aspectos técnicos.

Com raras exceções, Arbus fazia apenas fotos de pessoas. O interesse dela no indivíduo não estava em seus possíveis estilos de vida ou posições filosóficas, mas no mistério que o envolvia. Suas lentes registravam a leitura do diferente e, ao mesmo tempo, expunham os personagens, procurando neles histórias a serem contadas e aprendidas. A foto significava, sobretudo, uma celebração das pessoas como elas são.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Arbus passava horas com os fotografados, seguia-os até suas casas ou locais de trabalho, conversava com eles e tentava fazê-los chegarem ao momento em que começavam a se desfazer de suas imagens públicas ordinariamente aceitáveis. As pessoas que Diane escolhia acatavam sua proposta e se revelavam sem pudor, confiantes de que não seriam expostas de maneira pejorativa nos ensaios.

Os trabalhos não-comerciais de Diane Arbus venceram o Prêmio Guggenheim Fellowship nos anos de 1963 e 1966, com o projeto “American Rites, Mannersand Customs”. Ela compôs o ensaio indo a concursos, festivais e ambientes privados nas cidades de Nova Iorque e Nova Jersey, além de algumas visitas a Pensilvânia, Flórida e Califórnia.

Foto: Diane Arbus.

Foto: Diane Arbus.

Entre 1969 e 1971, Diane realizou um intenso trabalho retratando pessoas com necessidades especiais. Ela também fez uma coleção intitulada “A box of ten photographs” (“uma caixa de dez fotografias”, em tradução literal), que seria o primeiro de uma série de trabalhos com edições limitadas.

Arbus cometeu suicídio em 1971. Passados mais de 40 anos de sua morte, sua visão original continua provocando as mesmas reações de quando foram apresentadas ao mundo pela primeira vez.

6
jun

Estudo de Caso: Kadão sobre “Gaza Burial”, de Paul Hansen

Gaza Burial. Foto: Paul Hansen.

A fotografia “Gaza Burial”, de Paul Hansen, ganhadora do prêmio World Press Photo 2013, gerou polêmica no meio fotográfico mundial logo após o anúncio de sua vitória. A imagem capturou a dor de uma família palestina em cortejo fúnebre, carregando duas crianças mortas na Faixa de Gaza, e causou discussão por se tratar, sem dúvida, de uma fotografia retocada.

Contudo, a acusação mais grave se deu quando a veracidade da foto foi questionada. O autor sofreu acusações de que seu trabalho seria uma montagem, a combinação de elementos de duas fotografias ou mais para dar um efeito mais dramático à cena. Porém, realizadas as análises de peritos em fotografia, a obra foi considerada legítima e seu valor foi reforçada pela Fundação World Press Photo. Em nota, reconheceram a existência de retoques na cor e no tom, mas sem indícios de manipulação.

O fotógrafo Ricardo Chaves, o Kadão, lamenta que as manipulações aconteçam no fotojornalismo por considerar que a veracidade é característica que difere a fotografia das outras formas de comunicação e expressão. Munidos de amplos recursos para ajustes de imagem, os fotógrafos criaram uma relação com a tecnologia que os compromete quando estes recursos viram uma necessidade. Segundo Kadão, o uso excessivo de recursos, como o HDR, pode resultar em hiper fotografias: “A foto vai ficando de tal forma, digamos, artificial, que perde o que tem de mais interessante. Isso, em vez de ajudar, em minha opinião, atrapalha. Não sei se ele [Paul Hansen] chegou a esse ponto, mas isso é muito comum”, opina. Kadão explica que não se posiciona contra fotografias retocadas ou manipuladas desde que encontradas em outro segmento: “Pode ser interessante artisticamente, mas não é compatível com o fotojornalismo”. Para ele, não se trata do caso de “Gaza Burial”, ainda que a fotografia seja visivelmente retocada.

Fotos originais (acima) e a fotomontagem (abaixo). Fotos: Brian Walski.

A polêmica envolvendo Paul Hansen levou Kadão a lembrar-se do caso de outro fotógrafo, Brian Walski. Walski cobria a guerra do Iraque para o Los Angeles Times em 2003 quando manipulou uma foto utilizando duas imagens para compor uma só. A fotografia saiu na primeira página do jornal e a farsa foi descoberta por um funcionário de outra publicação, que procurava amigos moradores do Iraque entre as pessoas retratadas quando percebeu a duplicação. Brian foi demitido após o escândalo.

Kadão ressalta que a humildade deve ser o guia da profissão. E, ainda, que o profissional que sabe exatamente onde quer chegar jamais conseguirá sucesso forjando algo. Portanto, alerta que, apesar da realidade ser uma característica repleta de nuances subjetivas, “ela continua sendo o melhor lugar para se comer um bom bife”.

3
jun

Aula expositiva trata sobre conceitos de ensaio fotográfico

Foto: Camilo Santa Helena.

No último sábado, dia 25 de maio, a aula inaugural da disciplina Ensaio Fotográfico, do Módulo de Formação do Curso Anual de Fotografia, abordou conceitos fundamentais sobre o tema. Ministrado pelos professores Leopoldo Plentz e Guilherme Lund, o encontro partiu do básico: mostrou que ensaio fotográfico é uma sequência de fotografias que possui como característica principal a unidade.  Para que a composição tenha coerência, três aspectos devem ser observados: o tema, a forma e o conceito das fotos. Os professores também passaram uma série de referências com o objetivo de instigar os alunos a executarem seu primeiro ensaio no curso, proposto no final da aula.

Como explicou o professor Leopoldo, a primeira definição de ensaio foi desenvolvida pelo francês Michel de Montaigne (1533-1592), no campo da filosofia. Montaigne criou um método para escrever com maior fluidez, fugindo dos parâmetros e do “rigor dos tratados filosóficos”. Assim, a literatura apropriou-se rapidamente desta nova fórmula, transformando os textos em ferramentas de livre expressão. Esta prática, por conseguinte, dissipou-se para outras atividades. A revista Life, referência em fotografia por décadas, instaurou o conceito de ensaio em suas publicações a partir de 1936.

Como exemplo de ensaio contendo narrativa, Plentz e Lund mostraram aos alunos o trabalho de W. Eugene Smith intitulado “Country Doctor”, publicado na Revista Life nos anos 1940. O ensaio de Smith narra o cotidiano de um médico atuando em uma pequena cidade do interior. Entre trabalho e vida pessoal, a composição intercala momentos da profissão e da vida em família na cidade.

Como cenário de um crime. Foto: Luiz Carlos Felizardo.

Como cenário de um crime. Foto: Luiz Carlos Felizardo.

A exposição de referências continuou, entre outros trabalhos, com  Luiz Carlos Felizardo. Porto-alegrense, Felizardo estudou Arquitetura na UFRGS e, desde então,  iniciou sua dedicação à fotografia, destacando-se em imagens de paisagem e arquitetura. Felizardo possui um ensaio conceitual sobre as ruínas jesuítas de São Miguel das Missões chamado  “Como cenário de um crime”: oito fotos em preto e branco obtidas em negativo 8×10. Os professores destacaram a definição de ensaio assinada por ele:

“O ensaio é um grupo de fotografias sobre certo assunto ou tema, quase sempre realizados num só fôlego – um pequeno espaço de tempo – ou num espaço geográfico mais ou menos restrito. Ele deve ter unicidade de estilo, dada por certa coerência de composição, acompanhada por um acabamento que também mantenha a unidade. Em suma, um ensaio deve ser um conjunto de fotografias que possa ser reconhecido como tal, pelo assunto ou pela estética (preferencialmente por abusos), contido em si mesmo e que conte uma história ou revele um ponto de vista.” – L. C. Felizardo.

Foi lembrado, também, que nem sempre as fotos obedecem a uma narrativa em um ensaio fotográfico:  “O trabalho pode ser contar uma história, ou pode somente ser amarrado pela cor. O importante é ter uma unidade”, explicou o professor Leopoldo. Guilherme e Plentz salientaram também que a “busca de referências é um passo primordial na concepção de um ensaio”.

Cat Friendship. Foto: Andy Prokh.

Cat Friendship. Foto: Andy Prokh.

Seguindo a aula expositiva, o ensaio do russo Andy Prokh deu um novo tom à narrativa. Prokh é um economista que tem a fotografia como hobby favorito. Seu trabalho, feito todo em preto e branco, passeia pela atmosfera do divertido com um tema simples: a amizade entre sua filha e um gatinho. Nas imagens, sempre feitas na mesma sala de paredes sujas, os dois aparecem interagindo em diferentes atividades, como jogo de xadrez, exercícios de matemática, música e pintura.

Retratando o estilo de vida norte-americano nos anos 1960, William Eggleston trabalha com a unidade no tratamento que dá às cores nas fotografias.  Em uma sequência de fotos considerada intensa , retrata elementos chocantes do cotidiano norte-americano combinando-os à saturação de cor. O trabalho é uma crítica feroz ao modelo de vida estadunidense. Rostos, salas, objetos e vestimentas, todos harmonicamente enquadrados, capturados em momentos decisivos.

Michael Wolf realizou um ensaio que impressionou os alunos: “Tokyo Compression”, fotografias de pessoas em um metrô japonês. Tratam-se de closes com alguns rostos suprimidos pela janela do veículo, outros apenas cansados da jornada diária de trabalho, todos em um enquadramento impecável. Na definição dos professores, o trabalho chama atenção por capturar a vida no sufoco das grandes cidades.

Foto: William Eggleston.

Foto: William Eggleston.