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Archive for abril, 2013

26
abr

“Os fotógrafos vivem uma longa vida e trabalham até ao fim” Annie Leibovitz

Retrato de Annie Leibovitz. Foto: Susan.

Ela é responsável por um dos últimos e mais cheios de significado cliques de John Lennon, tirado no mesmo dia do assassinato. É de sua autoria, também, a polêmica imagem de Demi Moore, nua e grávida, que ilustrou a capa de uma das mais icônicas edições da Vanity Fair. Quando excursionou com os Rolling Stones, registrou as mais junkies nuances de Keith Richards e, décadas mais tarde, voltou a fotografar o astro com a mesma intimidade, dessa vez para a publicidade de uma famosa marca de bolsas. Ainda que Annie Leiboviz seja um nome bastante conhecido, como se fotografia de celebridades tenha a alçado ao status de celebridade (o que acontece com diversos profissionais contemporâneos da área), é provável que exista em nosso imaginário bem mais fotos de seu repertório do que reconhecemos. Uma das crias do fotojornalismo da Rolling Stone, onde trabalhou no auge dos movimentos de contracultura que floresceram nos anos 1960, Annie possui uma carreira de mais de 40 anos que, de acordo com a própria, confunde-se com sua vida pessoal.

Foto: Annie Leibovitz.

Angelina Jolie. Foto: Annie Leibovitz.

Nascida Anna-Lou Leibovitz em 1949, em Waterbury, Connecticut, filha de um oficial da aeronáutica e de uma professora de dança moderna, Leibovitz estudou no Instituto de Artes de São Francisco, onde descobriu seu amor por fotografia. Após viver brevemente em um kibbutz israelense, retornou aos Estados Unidos nos anos 1970 e se candidatou a uma vaga na Rolling Stone. Com um portfólio que impressionou o editor Jann Wenner, foi imediatamente contratada. Em dois anos, tornou-se a editora chefe de fotografia, cargo que manteve por dez. Entre as coberturas que fez pela revista, uma das mais célebres foi a turnê dos Rolling Stones de 1975.

Keith Richards. Foto: Annie Leibovitz.

Maradona, Pelé e Zidane. Foto: Annie Leibovitz.

Na Rolling Stone, Leibovitz desenvolveu algumas das técnicas que se tornaram sua marca registrada, como o uso constante e eficiente de cores primárias e poses surpreendentes. Muitas das capas da revista hoje consideradas itens de colecionador são de sua autoria, entre elas a de John Lennon nu, curvado sobre sua Yoko Ono, tirada horas antes de sua morte. Um de seus mais subjetivos diferenciais, aliás, era justamente a colaboração existente entre ela e seus assuntos. Com o passar do tempo, transformou em técnica o fato de que não registrava em imagens apenas os personagens, mas também o ambiente em que trabalhavam e viviam, captando com discrição quadros de seu cotidiano. Outra característica de seu método que ajudou a torná-la consagrada é construir as imagens reunindo referências de diferentes elementos, o que o professor de composição do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Luiz Barth chama de “direção de cena”. Essa união de imagens de várias procedências em uma só é feita principalmente em seus cliques publicitários, mas também foi utilizada em alguns dos retratos de família que assina. São suas as imagens oficiais de diversos ícones políticos pop, como a Família Real Britânica e o casal Michele e Barack Obama. Sobre o clichê de captar a alma dos assuntos em suas fotografias, responde que, certas vezes, considera a superfície interessante o suficiente, não sendo sequer possível reunir ambos, superfície e alma, o tempo todo.

Michelle Obama e Barack Obama. Foto: Annie Leibovitz.

Rainha Elizabeth. Foto: Annie Leibovitz.

Em 1983, Leibovitz começou a trabalhar na Vanity Fair, onde se encontra até hoje. Lá, seus retratos foram de presidentes a ídolos adolescentes, muito deles controversos, como a imagem de Whoopi Goldberg submersa em uma banheira de leite. Na mesma década em que começou na publicação, dedicou-se mais intensamente à publicidade, colecionando uma série de campanhas famosas. Em 1991, publicou o best seller Photographs: Annie Leibovitz 1970 -1990.

John Lennon e Yoko Ono. Foto: Annie Leibovitz.

Arnold Schwarzenegger. Foto: Annie Leibovitz.

Para muitos, Annie é um belo exemplo de fotógrafa cuja vida se confunde com o registro de sua máquina. Nas cenas iniciais do documentário Life Through a Lens (2006), ao volante de um carro em movimento, Annie interroga: “O que é a vida de um fotógrafo senão uma vida através das lentes?”. O filme foi realizado para acompanhar a exposição internacional “Annie Leibovitz: A Photographer’s Life (1990-2005)”, patrocinada pela American Express.

Meryl Streep. Foto: Annie Leibovitz.

Whoppi Goldberg. Foto: Annie Leibovitz.

25
abr

Exemplos pioneiros na manipulação de imagens

Manipulação no disco Abbey Road.

Associar automaticamente a manipulação de fotografias ao Photoshop pode, sim, ser um engano. O software tornou infinitas as possibilidades de edição de imagens, além de facilitar sua execução de tal forma que pouco tempo e conhecimento da ferramenta são necessários para fazer certas alterações. Mas essas modificações, sejam elas mal intencionadas ou artísticas, existem desde que tais recursos eram algo inconcebível. O debate acerca do tema é longo, e, não apenas no campo do fotojornalismo, de tempos em tempos surge na imprensa uma nova foto adulterada para reacender a polêmica. Até mesmo alguns editores americanos se autorizaram a apagar o cigarro na mão de Paul McCartney ao publicarem a clássica capa do disco Abbey Road em seus veículos. Considerados pioneiros, os mais conhecidos casos de falsificação iconográfica envolviam líderes políticos cuja megalomania os iludia ao indicar que mudar a história era uma realidade possível. Adolf Hitler e Josef Stalin, considerado o pai da mentira, são alguns dos que fizeram escola. Mas não foram apenas ditadores e poderosos de outros calibres que se utilizaram de tesoura, tinta e outros recursos para transformar fotografias. Alguns, de forma autoral, o fizeram por diversão.

Os Trinta Valerios. Foto: Valerio Vieira.

Valério Vieira (1862-1941) e Os Trinta Valérios

Valério Octaviano Rodrigues Vieira (1862-1941) era originalmente pintor. Por viver na passagem do século XIX para o século XX, provavelmente se encantou com as possibilidades artísticas da fotografia. Em seu primeiro estúdio, que reunia diversos dos profissionais atuantes em São Paulo, fotografava personalidades e inovava ao utilizar técnicas ainda incipientes. Além dos retratos tradicionais, era procurado por oferecer diversas opções de cliques à clientela.

Em 1901, realizou sua mais conhecida obra, “Os Trinta Valérios”, uma montagem em que o próprio autor, Valério, aparece como todos os participantes de um sarau, incluindo os quadros e o busto de uma estátua. O fotógrafo e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Leopoldo Plentz sempre mostra a imagem aos alunos em sua aula de história da fotografia. “Ela mostra que a possibilidade da fotografia não retratar a realidade, mentir a respeito de alguma coisa, sempre foi possível”, sintetiza. “Hoje, com o Photoshop, virou meio brincadeira, era mais trabalhoso, mas está aí”. A bem humorada e resolvida imagem, como define de Leopoldo, ganhou prêmios em diversos salões, o que inclui a St. Louis Purchase Exposition, em 1904.

Le Grande Vague. Foto: Gustave Le Gray.

As pioneiras fotografias HDR de Gustave Le Gray (1820 – 1884)

Como Valério, Gustave Le Gray, figura central na fotografia francesa, estudou para se tornar pintor. Migrou para fotografia em 1847 e logo tornou-se um pioneiro em estudos fotográficos, criando uma série de manuais. Suas maiores contribuições artísticas e técnicas são referentes à fotografia em papel. Em um de seus tratados, publicado em 1950, previa que o “futuro inteiro da fotografia era em papel”. No mesmo documento, esboçava uma variação do processo cunhado por William Henry Fox Talbot, afirmando que se os negativos de papel fossem encerados antes da sensibilização, gerariam uma imagem mais nítida, o que logo comprovou.

Le Gray foi uma figura-chave na época em que a fotografia do estático já dava lugar a cenas do cotidiano. Ou seja, o tempo de exposição necessário para a captação da imagem já não era tão longo a ponto de demandar um assunto imóvel. Imagens de sua autoria como “La Grande Vague” (1857) (ou “a grande onda”) já demonstravam essa transformação da fotografia na arte do instantâneo. Mas sua maior inovação foi outra: para resolver o problema da adequação de diferentes exposições às luzes do céu e do mar, Le Gray encontrou uma solução que remete a técnica da fotografia HDR popular nos dias de hoje, na qual duas imagens são sobrepostas para a criação de uma só. A fim de que ambos, céu e mar, tivessem a mesma qualidade, usou duas placas de vidro diferentes e as imprimiu no mesmo suporte, um procedimento imperceptível na imagem final. E absolutamente revolucionário para a época.

23
abr

Decadência, por Matthias Haker: a beleza do abandono

Retrato de Matthias Haker. Foto: Arquivo Pessoal / Facebook.

“Todos sabem que nossas cidades foram feitas para serem destruídas”, canta Caetano Veloso, em inglês, na canção “Maria Bethânia”, do segundo de seus dois álbuns feitos durante o exílio londrino, no início da década de 1970. Ainda que as motivações do compositor baiano tenham sido outras, é possível compreender o insight que deu origem ao trecho quando conferirmos o trabalho de Matthias Haker, fotógrafo alemão cujas imagens ilustram este post. Seus registros de locais exuberantes, outrora habitados e bem cuidados, nos quais a presença humana deu lugar à invasão de fungos, mofo, plantas, teias de aranha, cobras e outros animais, remete inevitavelmente à efemeridade da vida, à soberania da natureza e à assustadora riqueza em cores que se origina do aparente vazio.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.

Estudante de Ciências de Computação em Dresden, na Alemanha, Haker descobriu sua paixão por fotografia em 2008, e desde então locais abandonados são seu assunto preferido. As imagens fazem parte de um grande ensaio, Decay, “decadência”, em português, e, além do sucesso que fazem na internet, já foram exibidas em Berlim. Uma das características que as torna tão especiais é o sigilo que Haker mantém a respeito do endereço dos locais retratados. Em resposta a muitos dos curiosos que o questionam sobre essas construções abandonadas, o fotógrafo afirma nem todos conseguem ver a beleza que ele vê – e não agem de maneira tão respeitosa nesses ambientes. “Eu vi muito vandalismo, furto e outras péssimas coisas acontecerem a essas construções desde que elas se tornaram populares, e sinto que tudo que posso fazer é protegê-las”, sintetiza. Assim, tanto as direções quanto a nacionalidade dos espaços permanecem secretas, o que torna suas imagens ainda mais misteriosas. Para capturar em uma só fotografia todas as cores existentes, Heker se utiliza da técnica HDR, unindo várias exposições em uma só imagem.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.

Um pouco de sua identidade, imagens em HDR, e do gosto por locais abandonados, Matthias divide com David Pinzer, seu amigo e também fotógrafo. Ainda que Pinzer tenha se especializado na fotografia de moda, muitos dos lugares registrados por Heker também estão disponíveis, em imagens semelhantes, no portfólio do colega. Atualmente, a dupla se encontra em uma jornada fotográfica na Escócia – não se sabe se em busca de construções como aquelas presentes em Decay. Aos curiosos, fica a dica: Pinzer não tem a preocupação de manter sigilo sobre os endereços desses locais, em seu Flickr é possível encontrar algumas pistas.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.

Autodidata, Heker se dedica principalmente a projetos autorais, mas também aceita trabalhos comissionados, em especial nos campos da fotografia de arquitetura e interiores, nas quais se especializou, além de retratos, moda e casamentos.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.

17
abr

Canela Photo Workshops 2013 aproxima estudantes e mestres da fotografia

Alunos do Centro de Fotografia ESPM-Sul. Foto: Schari Kozak.


A bela e fria cidade de Canela, na Serra Gaúcha, foi contagiada pela movimentação em torno do Canela Photo Workshops, festival que realizou a sua 11ª edição entre 10 e 14 de abril. Mais de 400 pessoas circularam pelas exposições, palestras e cursos promovidos com grandes nomes da fotografia no Brasil. Foi, sobretudo, uma oportunidade de aproximação entre estudantes e veteranos da área, que puderam aproveitar o ambiente informal do CFW para trocar ideias. Os alunos do Centro de Fotografia ESPM-Sul ainda reservaram um tempo para explorar a cidade e fazerem suas próprias fotos. No final deste post, eles dão outras visões do evento.

Foto: Schari Kozak.


Foto: Rodrigo Baleia.

O fotógrafo Raul Krebs, um dos organizadores, reforça que o Canela Photo Workshops vai além de oficinas, palestras, leituras de portfólios, mesas-redondas. É nos momentos de descontração que o principal objetivo do evento se concretiza: “Mantivemos o carater informal que sempre existiu nas edições do CFW e conseguimos realizar um encontro para discussão de ideias”, conta Krebs. Ele também percebe que, ano a ano, o público do festival começa a ser consolidado: “São fotógrafos, em sua maioria, com as mais diversas experiências e áreas de atuacão. Mas temos a presença de cineastas, escritores, artistas e produtores culturais. Além dos estudantes, claro. Mas o CFW acaba envolvendo toda a comunidade canelense.”

Foto: Rodrigo Baleia.

Evandro Teixeira, Orlando Britto, Claudio Edinger e Fernando Bueno. Foto: Rodrigo Baleia.

A edição de 2013 do festival trouxe várias atrações inéditas, como os projetos irreverentes da dupla Hans Georg e Ana Rodrigues (Foto120, Stendal, Escambo), a oficina de fotografia subaquática, e o Leilão Virtual de duas fotografias vintage através de duas galerias (Galeria da Gávea/RJ e Bolsa de Arte/POA) - que vai até o dia 24/4. A organização trouxe de volta as atividades que fizeram sucesso em 2012 como o dia de palestras, a cobertura fotográfica feita por Rodrigo Baleia, da National Geographic, e uma exposição no famoso Palácio das Hortênsias.

Outra grande novidade foi a montagem das exposições de Raul Krebs e Leopoldo Plentz nas Ruínas do Cassino, local destinado a abrigar o futuro Instituto Canela de Fotografia e Artes Visuais – Casa da Fotografia Brasileira. Aliás, o instituto acaba de ganhar um presidente: Eduardo Bueno (Peninha) foi empossado durante o evento.

Foto: Rodrigo Baleia.

Eduardo "Peninha" Bueno. Foto: Rodrigo Baleia.

Entre os diversos palestrantes que estão no mercado há muito tempo, o nome de Eduardo Biermann chamou a atenção, pois o ex-aluno e ex-funcionário do Centro de Fotografia da ESPM de apenas 23 anos falou do ponto de vista de quem acaba de entrar no mercado e já é considerado uma das promessas da sua geração. Biermann apresentou um conjunto de fotografias de shows de rock e relatou a experiência de vencer um concurso e trabalhar com a marca Nike. Outra ex-aluna, a fotógrafa Roberta Borges, ministrou uma das oficinas mais inusitadas do evento: “Fotografando com caixa estanque”, com prática de fotografia embaixo d’água. Na exposição 12 Fotógrafos ainda foi possível conferir o talento de quatro fotógrafos formados pelo Centro de Fotografia ESPM-Sul: Gabriela MO, Marcelo Donadussi, Lucia Simon e Alexandre Raupp.

Krebs aponta a programação de sábado (13/04) como o ponto alto do evento. Neste dia, os participantes puderam se familiarizar com os trabalhos de alguns dos maiores nomes da fotografia, além de aprender com entidades e profissionais da imagem técnica, entre eles: Rui Faquini, Rodrigo Baleia, Angela Magalhaes, Fernanda Chemale, Rogerio Reis, Evandro Teixeira, Fernando Bueno, Orlando Britto, Marga Pasquali, Leopoldo Plentz, Isabel Amado, Mayra Rodrigues, Delfim Martins, Eduardo Bueno, Hamdam e, finalmente, Claudio Edinger, o palestrante master.

Fernando Bueno e Eduardo Biermann. Foto: Schari Kozak.

Eduardo Biermann. Foto: Schari Kozak.

Neste dia, vários alunos atuais do Centro de Fotografia foram até Canela. A seguir, eles tomam a palavra para comentar o evento:

“Eu achei bem interessante as dicas do banco de imagens, eles não aceitam qualquer coisa”, afirma Renan Reloken Stein relembrando a palestra que reuniu Delfim Martins e Mayra Rodrigues para falar do mercado de fotografia, os direitos autorais e a comercialização de fotografias em banco de imagens.

Claudio Edinger e Peninha. Foto: Rodrigo Baleia.

Claudio Edinger e Peninha. Foto: Eduardo Biermann.

A arquiteta Wu Day Yi, também aluna do Curso Avançado se impressionou especialmente com a palestra “Mulheres Caiapós”, de Rui Faquini: “Ele realizou um projeto de capacitação em que ele ensinava índias a lidarem com máquinas fotográficas e registrarem o seu cotidiano. Na mão delas a máquina não era algo invasivo e as têm algumas fotos lindas!”

“Gostei muito do trabalho da Fernanda Chemale que eu ouvia falar, mas não conhecia”, comenta o aluno Luiz Heitor Marini. Ele apreciou, principalmente, o ambiente social do evento e a hospitalidade da cidade: “Eu gostei de estar ali, encontrei amigos, fotógrafos das antigas, pessoas bem entusiasmadas. E senti uma grande simpatia nas pessoas da cidade. Quando eu ia pedir informações, elas já identificavam que eu estava participando do Festival pelo crachá e me tratavam muito bem”.

12
abr

Do alto, Georg Gerster redescobre as texturas e cores do mundo

Retrato de Georg Gester.

A bordo de aviões alugados, o suíço Georg Gerster sobrevoou e fotografou mais de uma centena de países. Olhar para as suas fotos é descobrir o mundo tal como os pássaros o conhecem através de uma sensibilidade que não poderia ser mais humana. Lá de cima, o olhar de Gerster varre a Terra à procura de cenas carregadas de emoção. Para ele, esta pode ser a chave para transformar a fotografia em uma ferramenta filosófica: “Ver do alto é para as pessoas que querem enxergar mais. A visão geral leva ao insight, e o insight gera respeito – talvez”.

Foto: Georg Gerster.

Foto: Georg Gerster.

Gerster vem produzindo imagens aéreas do mundo há cerca de 40 anos. Embora durante este período muitos outros fotógrafos tenham aderido à prática e novidades como o Google Earth tenham surgido, a sensibilidade única de Gerster preservou o fascínio que as suas fotografias exercem. Gerster prefere ângulos oblíquos aos perpendiculares que, tais como as imagens do Google Earth, podem facilmente se tornar monótonos.

Foto: Georg Gerster.

Foto: Georg Gerster.

A câmera de Gerster revela grafismos, texturas e cores de lugares inimagináveis para quem os percorre a pé: o desenho em curvas de uma estrada, o mosaico colorido de uma plantação, o quebra-cabeça formado pelas ruas de uma cidade, as sombras dramáticas do entardecer no deserto ou os padrões inesperados de formações geológicas. Por um lado, ele enfatiza a beleza da paisagem; por outro, denuncia as ameaças que a intervenção humana vem causando à natureza.

Um de seus trabalhos mais famosos é o livro Paradise Lost: Persia from Above. Nele, Gerster apresenta um conjunto de fotografias feitas entre 1976 e 1978, período em que o fotógrafo obteve a rara permissão de sobrevoar o Irã documentando sítios arqueológicos, cidades e maravilhas naturais.

Foto: Georg Gerster.

Foto: Georg Gerster.

Um dos grandes méritos de Gerster é a persistência para chegar aos lugares remotos que deseja fotografar. Esse processo implica enfrentar a resistência de países que frequentemente desconfiam das suas intenções para então obter autorizações específicas, providenciar o transporte aéreo, monitorar as condições climáticas, além de lidar com as condições nada favoráveis do vôo: turbulências, vento intenso, frio.

Cada boa fotografia é a recompensa por esse esforço. Além de impressionar o espectador, as imagens aéreas podem revelar dimensões geográficas, biológicas, ecológicas, econômicas e políticas de um lugar. E, se Georg Gerster estiver certo, conscientizar através da união da reflexão com a emoção.

Foto: Georg Gerster.

Foto: Georg Gerster.

12
abr

Cornell Capa, um “fotógrafo preocupado”

Retrato de Cornell Capa.

A missão declarada do fotógrafo húngaro-americano Cornell Capa (1918-2008) era lançar ao mundo fotografias memoráveis capazes de impactar e combater as injustiças sociais. Em 1968, ele resumiu esse objetivo com o título do livro The Concerned Photographer. A expressão, que pode ser traduzida como “fotógrafo preocupado”, era usada por ele para descrever autores de imagens com um princípio humanitário nas quais “um sentimento humano genuíno predomina sobre o cinismo comercial ou o formalismo desinteressado”.

Essa determinação transformou Capa em um dos grandes fotojornalistas do seu tempo, e cronista sofisticado do cenário político americano. Suas coberturas das campanhas eleitorais de Nelson Rockfeller, Adlai Stevenson e, sobretudo, dos irmãos Robert e John Kennedy (JFK) entraram para a história. Capa testemunhou em primeira mão as reações emocionadas que JFK despertava nas pessoas, especialmente nos jovens. Entre suas imagens icônicas, está uma fotografia de 1960 das mãos do então candidato à presidência estendidas para seus eleitores extasiados.

Quando JFK foi eleito presidente, Capa entendeu que os Estados Unidos entravam em um novo momento. Por isso, convocou escritores e fotógrafos da Magnum, entre eles Henri Cartier-Bresson, Elliot Erwitt e Burt Glinn, para documentar os primeiros cem dias da nova administração. Este esforço originou o livro Let Us Begin: The First 100 Days of the Kennedy Administration, frequentemente citado como o primeiro exemplo de um trabalho de “história instantânea” e um marco do fotojornalismo. Após o chocante assassinato de JFK, Cornell Capa voltou a sua câmera para a comovente campanha de seu irmão, Bobby Kennedy, para senador, em 1964.

Foto: Cornell Capa.

Foto: Cornell Capa.

Conforme o sobrenome denuncia, Cornell era o irmão mais novo do lendário fotógrafo de guerra Robert Capa. Sua vocação humanitária a princípio o motivou a ser médico, mas a necessidade de ganhar dinheiro o levou a trabalhar para Robert, Henri Cartier-Bresson e David Seymour (Chim) revelando seus filmes no banheiro de um hotel em Paris. Foi após essa experiência que Cornell se mudou para Nova Iorque e construiu uma carreira invejável como fotojornalista. Sempre focado em questões sócio-políticas, trabalhou na revista Life entre 1946 e 67, para a agência Magnum, a partir de 1954, e dirigiu o influente International Center of Photography (ICP) que ele mesmo fundou em Nova Iorque.

Ao longo da sua trajetória, Cornell procurou se manter longe das guerras que eventualmente mataram o irmão, definindo-se como um “fotógrafo da paz”. Mas assim como  Robert, Cornell Capa parecia estar sempre perto, muito perto, dos motivos das suas fotos. O estilo pessoal de fotografar combinava bem com os preceitos da revista Life: imagens na qual o tema é expresso com clareza, a composição é forte, o efeito gráfico é impactante, e com um toque de esperteza ou humor.

Foto: Cornell Capa.

Foto: Cornell Capa.

A partir de 1953, Capa viajou frequentemente para a América Central e do Sul cobrindo conflitos políticos, eleições, e assuntos relacionados à liberdade de expressão e aos direitos trabalhistas. Ele esteve presente no colapso do regime ditatorial de Juan Perón na Argentina, em 1955, e na Nicarágua após o assassinato do ditador Anastasio Somoza. Nos anos 60 e 70, uniu-se a antropólogos e sociólogos em trabalhos de denúncia sobre o drama de tribos amazônicas ameaçadas, exposto no livro Farewell to Eden(1964), e  as duras condições enfrentadas pelos cidadãos mais pobres na América Central.

Foto: Cornell Capa.

Foto: Cornell Capa.

Além de fotos icônicas, o engajamento de Capa está expresso com profundidade em importantes ensaios fotográficos, entre eles um estudo pioneiro sobre crianças com deficiência mental, uma reportagem sobre as dificuldades dos idosos nos EUA e uma série sobre uma geração de jovens empresários ambiciosos publicada no livro New Breed on Wall Street (1969).

Cornell Capa faleceu em 2008, aos 90 anos, unindo-se aos “fotógrafos preocupados” a quem ele havia prestado homenagem em 1966, com a criação do International Fund For Concerned Photography, e mais tarde com o ICP, criado em 1974 para dar novo impulso ao fotojornalismo.

Foto: Cornell Capa.

Foto: Cornell Capa.

8
abr

Uma seleção dos melhores do Smithsonian Magazine Photo Contest

A décima edição do concurso anual de fotografia da Smithsonian Magazine coletou imagens incríveis de 112 países ao redor do mundo. A competição atraiu mais de 37 mil inscrições de fotógrafos. Até o final de abril, os editores da revista anunciam o vencedor do Grand Prize e os ganhadores nas cinco categorias do concurso: Mundo Natural, Americana, Pessoas, Viagem e Imagens Alteradas. Os leitores da revista também escolhem seus preferidos. Enquanto isso não acontece, a equipe do Centro de Fotografia da ESPM-RS toma à dianteira e destaca seus favoritos entre os 50 finalistas que estão na briga pelo prêmio:

Um observador diante de um eclipse solar em Albuquerque, no Novo México - 20 de maio de 2012. Foto: Colleen Pinski (Peyton, Colorado, EUA).

Músicos chegando na praça de touros de Quito, no Equador - outubro de 2011. Foto: Raul Amaru Linares (Bogotá, Colombia).

Um homem vestido de maçã em um set no deserto texano, perto de Dallas - maio de 2010. Foto: Ron Hendersen (Dallas, Texas, EUA).

 

Ao amanhecer, o fotógrafo James Khoo aproveitou o contraste entre a neblina azulada e as lanternas vermelhas das barcas que navegam no Rio Xiaodong, no Vietnã - agosto de 2010. Foto: James Khoo (Shah Alam, Malásia).

Quatro membros da tribo Yucuna vestidos para o Baile del Muñeco, no Rio Caqueta, Amazonas, Colombia - março de 2012. Foto: Piers Calvert (West Sussex, Inglaterra).

A Via Láctea abre caminho por trás do monte Rainier, em Sunrise Point, no Mount Rainier National Park, Washington - outubro de 2012. Foto: David Morrow (Everett, Washington).

Um pássaro canta e bate as asas na tentativa de atrair a atenção dos pais para ganhar comida Sarawak, Borneo, na Malásia - novembro de 2010. Foto: Bjorn Olesen (Cingapura).

Formigas empregam toda a sua força para carregar sementes que o próprio fotógrafo colocou sobre este ramo em Bekasi, West Java, na Indonésia - abril de 2012. Foto: Eko Adiyanto (Bekasi, Indonésia).

O flagrante de uma lagarta em uma pose surpreendente na floresta Duke, na Carolina do Norte, EUA - setembro de 2011. Foto: Colin Hutton (Durham, North Carolina, EUA).

 

Um par de águias compartilha a carcaça de um animal no parque Reelfoot Lake State Park, no estado do Tennessee, EUA - janeiro de 2012. Foto: Don Holland (Dyer, Tennessee).

5
abr

Canela Foto Workshops tem início no dia 10 de abril

Na semana que vem, mais precisamente de 10 a 14 de abril, o Rio Grande do Sul sedia um dos mais importantes encontros fotográficos do país, o Canela Foto Workshops. Com 11 anos de história, o evento reúne tradicionalmente grandes nomes nacionais e internacionais do setor, permitindo que profissionais e amadores convivam, instruam-se e divirtam-se em um cenário ideal para o aprendizado e a prática fotográfica. Como de praxe, diversos professores e ex-alunos do Centro de Fotografia da ESPM-Sul já tem sua presença confirmada, entre eles Manuel da Costa, Clóvis Dariano, Guilherme Lund, Leopoldo Plentz , Raul Krebs, Ricardo Kadão Chaves, Zé Paiva, Eliane Heuser e Carlos Heuser.

Fotógrafos, empresários e profissionais da imagem, além de professores e alunos universitários de todo o país farão parte das dezenas de atividades que vão tomar conta da cidade durante quatro dias. Dez workshops, sediados na Casa de Pedra e nos hotéis Continental e Klein Ville, estão confirmados na agenda. Vale destacar “Trabalho Autoral e Produção de Livros Fotográficos”, com Cláudio Edinger e aqueles ministrados por professores da ESPM-Sul: “Fotografia em Estúdio”, com Clóvis Dariano; “Cultura Fotográfica – Da Prata ao Pixel”, com Leopoldo Plentz; “Iluminação com Flash Portátil”, com Guilherme Lund; “Fotografia da Natureza”, com Zé Paiva. Além disso, o casal de alunos formados pelo Centro, Eliane e Carlos Heuser, ministrará “Construindo narrativas através da Fotografia”. A artista plástica Isabella Carnevalle, que também já passou pelas salas da ESPM-Sul como professora, dará seu workshop de Cianotipia, “Blue Print”.

A programação também inclui uma série de palestras, além de duas mesas redondas imperdíveis, que contarão com nomes como Evandro Teixeira, Luiz Carlos Felizardo, Orlando Britto, Ricardo Chaves e Eduardo Bueno. No time que integra as mostras expositivas está Raul Krebs, com “Lindas de Morrer”, Leopoldo Plentz com “Aparados da Serra” e José Paiva com “Tocantins”, apenas para citar alguns exemplos. Além dessas, outras exposições e trabalhadores estarão distribuídos em locais estratégicos de Canela com o propósito declarado de “vestir a cidade com fotografias”.

De acordo com os organizadores do evento, o fotógrafo Fernando Bueno e a jornalista e produtora Liliana Reid, o CFW começou a ser desenhado a partir de encontros semelhantes em lugares como Carmel e Santa Barbara na Califórnia, Rockport no Maine, Santa Fé no Novo México, Harles na França e Toscana na Itália – locais que tem em comum a beleza de suas paisagens, como Canela. Localizada nos Campos de Cina da Serra, a cidade gaúcha é privilegiada pelo clima, a natureza, a variedade de luzes e a forte vocação turística, o que motivou a criação do projeto, em 2002. Desde 2012, os colaboradores trabalham, também, para a criação do Instituto de Fotografia e Artes Visuais de Canela nas ruínas do antigo casino, como já contamos aqui.

As inscrições podem ser feitas neste link.

2
abr

Curador Bernardo de Souza ministrará curso para alunos que se destacaram no Módulo Avançado

Bernardo de Souza. Foto: Eduardo Biermann.

Depois de alguns meses de expectativa, finalmente podemos divulgar a concretização de uma das mais empolgantes novidades nascidas na última edição do Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul: os alunos que se destacaram na conclusão do Módulo Avançado serão premiados com um curso e uma exposição virtual. O profissional escolhido para ministrar esse workshop de quatro aulas, em maio, é Bernardo de Souza, curador de arte – o que inclui a 9ª Bienal do Mercosul –, professor universitário e colaborador de publicações sobre cultura visual. Atualmente, trabalha na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, onde ocupa o posto de coordenador de cinema, vídeo e fotografia. Além disso, é membro dos conselhos curadores do MACRS, da FUNDACINE e da Fundação Vera Chaves Barcellos.

A ideia de premiar os fotógrafos que se destacaram veio de Raul Krebs, não tanto pela dedicação desses alunos, explica, mas pelo resultado total de seu trabalho. “No curso, achamos que a cadeira de Projeto é bastante importante, e muitas vezes os estudantes ficam meio receosos com a ideia de serem avaliados por uma banca. Os que se dedicam mais, e compreendem a importância do trabalho de conclusão, de fato mereciam esse reconhecimento”, sintetiza. O nome do Bernardo, ainda de acordo com Raul, surgiu tanto pela qualidade pessoal e cultural de seu trabalho quanto por sua relação estreita com a fotografia.

Banca de Certificação do Módulo Avançado. Foto: Camilo Santa Helena.

Mostrando-se entusiasmado com a possibilidade de contribuir para a formação desses fotógrafos, Bernardo conta que trabalha com fotografia há mais de oito anos, fazendo curadoria de exposições, selecionando projetos para editais, andando pelo mundo e vendo a produção fotográfica dos mais variados países e vertentes. “Poder tomar contato com a produção jovem, no sentido de recente, contemporânea, é muito importante para mim como profissional, para entender como as pessoas estão pensando e se relacionando com a fotografia”, celebra, “além de ser importante para que eu possa canalizar parte dessa minha experiência, dessas informações que eu venho adquirindo para ajudar aqueles que estão começando sua trajetória”.

Banca de Certificação do Módulo Avançado. Foto: Camilo Santa Helena.

Bernardo sinaliza que, basicamente, seu papel será compreender o processo de trabalho desses alunos e poder, a partir dos interesses de cada um deles, agregar informações que façam com que essa prática se transforme em algo mais consistente e coerente. “O exercício será de agregar repertório, novas informações, um olhar externo sobre o processo e a obra desses fotógrafos”. Uma de suas observações mais bacanas é que, como se trata de um grupo heterogêneo, que trabalha com fotojornalismo, fotografia publicitária, fotografia artística, isso faz pleno sentido para ele, que vem da Moda e migrou para o universo das artes. “Tenho muito pouco preconceito com as diversas vertentes da fotografia, então minha ideia é justamente poder, com essa visão plural e aberta, cruzar informações, mostrar que mesmo na fotografia jornalística é importante que conceitos da fotografia autoral e artística estejam presentes, até para eliminar o preconceito que muitas vezes permeia essas áreas”, exemplifica.

Banca de Certificação do Módulo Avançado. Foto: Camilo Santa Helena.

Com o objetivo de arejar, trazer para o debate novos repertórios e poder, quem sabe, ajudar a dar um rumo mais coerente, definido e consistente em relação à produção, Bernardo buscará identificar os pontos fortes e fracos do corpo discente, “atento a não deixa-los confinados a uma mesma prática e afinando seu olhar sobre o mundo”. Vale destacar que desde 2005 o curador desenvolve projetos de artes visuais para a Prefeitura de Porto Alegre, como exposições, ciclos de cinema, publicações, premiações, seminários e programas pedagógicos. Paralelamente, também atua como curador independente, realizando projetos junto a outras instituições públicas e privadas.

Confira a lista de alunos premiados:

Cristina Trentini
Damiani Sobirai
Douglas de Souza
Desirée Ferreira
Gabriel Lodi
Leandro Nunes
Luis Francisco da Silva
Milene Keniger
Roberta Valdez
Schari Kozak
Silvia Giordani
Tiago Capelin
Tomas Brugger
Vanessa Candido
Yuri Ruppenthal