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Archive for abril, 2013

26
abr

“Os fotógrafos vivem uma longa vida e trabalham até ao fim” Annie Leibovitz

Retrato de Annie Leibovitz. Foto: Susan.

Ela é responsável por um dos últimos e mais cheios de significado cliques de John Lennon, tirado no mesmo dia do assassinato. É de sua autoria, também, a polêmica imagem de Demi Moore, nua e grávida, que ilustrou a capa de uma das mais icônicas edições da Vanity Fair. Quando excursionou com os Rolling Stones, registrou as mais junkies nuances de Keith Richards e, décadas mais tarde, voltou a fotografar o astro com a mesma intimidade, dessa vez para a publicidade de uma famosa marca de bolsas. Ainda que Annie Leiboviz seja um nome bastante conhecido, como se fotografia de celebridades tenha a alçado ao status de celebridade (o que acontece com diversos profissionais contemporâneos da área), é provável que exista em nosso imaginário bem mais fotos de seu repertório do que reconhecemos. Uma das crias do fotojornalismo da Rolling Stone, onde trabalhou no auge dos movimentos de contracultura que floresceram nos anos 1960, Annie possui uma carreira de mais de 40 anos que, de acordo com a própria, confunde-se com sua vida pessoal.

Foto: Annie Leibovitz.

Angelina Jolie. Foto: Annie Leibovitz.

Nascida Anna-Lou Leibovitz em 1949, em Waterbury, Connecticut, filha de um oficial da aeronáutica e de uma professora de dança moderna, Leibovitz estudou no Instituto de Artes de São Francisco, onde descobriu seu amor por fotografia. Após viver brevemente em um kibbutz israelense, retornou aos Estados Unidos nos anos 1970 e se candidatou a uma vaga na Rolling Stone. Com um portfólio que impressionou o editor Jann Wenner, foi imediatamente contratada. Em dois anos, tornou-se a editora chefe de fotografia, cargo que manteve por dez. Entre as coberturas que fez pela revista, uma das mais célebres foi a turnê dos Rolling Stones de 1975.

Keith Richards. Foto: Annie Leibovitz.

Maradona, Pelé e Zidane. Foto: Annie Leibovitz.

Na Rolling Stone, Leibovitz desenvolveu algumas das técnicas que se tornaram sua marca registrada, como o uso constante e eficiente de cores primárias e poses surpreendentes. Muitas das capas da revista hoje consideradas itens de colecionador são de sua autoria, entre elas a de John Lennon nu, curvado sobre sua Yoko Ono, tirada horas antes de sua morte. Um de seus mais subjetivos diferenciais, aliás, era justamente a colaboração existente entre ela e seus assuntos. Com o passar do tempo, transformou em técnica o fato de que não registrava em imagens apenas os personagens, mas também o ambiente em que trabalhavam e viviam, captando com discrição quadros de seu cotidiano. Outra característica de seu método que ajudou a torná-la consagrada é construir as imagens reunindo referências de diferentes elementos, o que o professor de composição do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Luiz Barth chama de “direção de cena”. Essa união de imagens de várias procedências em uma só é feita principalmente em seus cliques publicitários, mas também foi utilizada em alguns dos retratos de família que assina. São suas as imagens oficiais de diversos ícones políticos pop, como a Família Real Britânica e o casal Michele e Barack Obama. Sobre o clichê de captar a alma dos assuntos em suas fotografias, responde que, certas vezes, considera a superfície interessante o suficiente, não sendo sequer possível reunir ambos, superfície e alma, o tempo todo.

Michelle Obama e Barack Obama. Foto: Annie Leibovitz.

Rainha Elizabeth. Foto: Annie Leibovitz.

Em 1983, Leibovitz começou a trabalhar na Vanity Fair, onde se encontra até hoje. Lá, seus retratos foram de presidentes a ídolos adolescentes, muito deles controversos, como a imagem de Whoopi Goldberg submersa em uma banheira de leite. Na mesma década em que começou na publicação, dedicou-se mais intensamente à publicidade, colecionando uma série de campanhas famosas. Em 1991, publicou o best seller Photographs: Annie Leibovitz 1970 -1990.

John Lennon e Yoko Ono. Foto: Annie Leibovitz.

Arnold Schwarzenegger. Foto: Annie Leibovitz.

Para muitos, Annie é um belo exemplo de fotógrafa cuja vida se confunde com o registro de sua máquina. Nas cenas iniciais do documentário Life Through a Lens (2006), ao volante de um carro em movimento, Annie interroga: “O que é a vida de um fotógrafo senão uma vida através das lentes?”. O filme foi realizado para acompanhar a exposição internacional “Annie Leibovitz: A Photographer’s Life (1990-2005)”, patrocinada pela American Express.

Meryl Streep. Foto: Annie Leibovitz.

Whoppi Goldberg. Foto: Annie Leibovitz.

25
abr

Exemplos pioneiros na manipulação de imagens

Manipulação no disco Abbey Road.

Associar automaticamente a manipulação de fotografias ao Photoshop pode, sim, ser um engano. O software tornou infinitas as possibilidades de edição de imagens, além de facilitar sua execução de tal forma que pouco tempo e conhecimento da ferramenta são necessários para fazer certas alterações. Mas essas modificações, sejam elas mal intencionadas ou artísticas, existem desde que tais recursos eram algo inconcebível. O debate acerca do tema é longo, e, não apenas no campo do fotojornalismo, de tempos em tempos surge na imprensa uma nova foto adulterada para reacender a polêmica. Até mesmo alguns editores americanos se autorizaram a apagar o cigarro na mão de Paul McCartney ao publicarem a clássica capa do disco Abbey Road em seus veículos. Considerados pioneiros, os mais conhecidos casos de falsificação iconográfica envolviam líderes políticos cuja megalomania os iludia ao indicar que mudar a história era uma realidade possível. Adolf Hitler e Josef Stalin, considerado o pai da mentira, são alguns dos que fizeram escola. Mas não foram apenas ditadores e poderosos de outros calibres que se utilizaram de tesoura, tinta e outros recursos para transformar fotografias. Alguns, de forma autoral, o fizeram por diversão.

Os Trinta Valerios. Foto: Valerio Vieira.

Valério Vieira (1862-1941) e Os Trinta Valérios

Valério Octaviano Rodrigues Vieira (1862-1941) era originalmente pintor. Por viver na passagem do século XIX para o século XX, provavelmente se encantou com as possibilidades artísticas da fotografia. Em seu primeiro estúdio, que reunia diversos dos profissionais atuantes em São Paulo, fotografava personalidades e inovava ao utilizar técnicas ainda incipientes. Além dos retratos tradicionais, era procurado por oferecer diversas opções de cliques à clientela.

Em 1901, realizou sua mais conhecida obra, “Os Trinta Valérios”, uma montagem em que o próprio autor, Valério, aparece como todos os participantes de um sarau, incluindo os quadros e o busto de uma estátua. O fotógrafo e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Leopoldo Plentz sempre mostra a imagem aos alunos em sua aula de história da fotografia. “Ela mostra que a possibilidade da fotografia não retratar a realidade, mentir a respeito de alguma coisa, sempre foi possível”, sintetiza. “Hoje, com o Photoshop, virou meio brincadeira, era mais trabalhoso, mas está aí”. A bem humorada e resolvida imagem, como define de Leopoldo, ganhou prêmios em diversos salões, o que inclui a St. Louis Purchase Exposition, em 1904.

Le Grande Vague. Foto: Gustave Le Gray.

As pioneiras fotografias HDR de Gustave Le Gray (1820 – 1884)

Como Valério, Gustave Le Gray, figura central na fotografia francesa, estudou para se tornar pintor. Migrou para fotografia em 1847 e logo tornou-se um pioneiro em estudos fotográficos, criando uma série de manuais. Suas maiores contribuições artísticas e técnicas são referentes à fotografia em papel. Em um de seus tratados, publicado em 1950, previa que o “futuro inteiro da fotografia era em papel”. No mesmo documento, esboçava uma variação do processo cunhado por William Henry Fox Talbot, afirmando que se os negativos de papel fossem encerados antes da sensibilização, gerariam uma imagem mais nítida, o que logo comprovou.

Le Gray foi uma figura-chave na época em que a fotografia do estático já dava lugar a cenas do cotidiano. Ou seja, o tempo de exposição necessário para a captação da imagem já não era tão longo a ponto de demandar um assunto imóvel. Imagens de sua autoria como “La Grande Vague” (1857) (ou “a grande onda”) já demonstravam essa transformação da fotografia na arte do instantâneo. Mas sua maior inovação foi outra: para resolver o problema da adequação de diferentes exposições às luzes do céu e do mar, Le Gray encontrou uma solução que remete a técnica da fotografia HDR popular nos dias de hoje, na qual duas imagens são sobrepostas para a criação de uma só. A fim de que ambos, céu e mar, tivessem a mesma qualidade, usou duas placas de vidro diferentes e as imprimiu no mesmo suporte, um procedimento imperceptível na imagem final. E absolutamente revolucionário para a época.

23
abr

Decadência, por Matthias Haker: a beleza do abandono

Retrato de Matthias Haker. Foto: Arquivo Pessoal / Facebook.

“Todos sabem que nossas cidades foram feitas para serem destruídas”, canta Caetano Veloso, em inglês, na canção “Maria Bethânia”, do segundo de seus dois álbuns feitos durante o exílio londrino, no início da década de 1970. Ainda que as motivações do compositor baiano tenham sido outras, é possível compreender o insight que deu origem ao trecho quando conferirmos o trabalho de Matthias Haker, fotógrafo alemão cujas imagens ilustram este post. Seus registros de locais exuberantes, outrora habitados e bem cuidados, nos quais a presença humana deu lugar à invasão de fungos, mofo, plantas, teias de aranha, cobras e outros animais, remete inevitavelmente à efemeridade da vida, à soberania da natureza e à assustadora riqueza em cores que se origina do aparente vazio.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.

Estudante de Ciências de Computação em Dresden, na Alemanha, Haker descobriu sua paixão por fotografia em 2008, e desde então locais abandonados são seu assunto preferido. As imagens fazem parte de um grande ensaio, Decay, “decadência”, em português, e, além do sucesso que fazem na internet, já foram exibidas em Berlim. Uma das características que as torna tão especiais é o sigilo que Haker mantém a respeito do endereço dos locais retratados. Em resposta a muitos dos curiosos que o questionam sobre essas construções abandonadas, o fotógrafo afirma nem todos conseguem ver a beleza que ele vê – e não agem de maneira tão respeitosa nesses ambientes. “Eu vi muito vandalismo, furto e outras péssimas coisas acontecerem a essas construções desde que elas se tornaram populares, e sinto que tudo que posso fazer é protegê-las”, sintetiza. Assim, tanto as direções quanto a nacionalidade dos espaços permanecem secretas, o que torna suas imagens ainda mais misteriosas. Para capturar em uma só fotografia todas as cores existentes, Heker se utiliza da técnica HDR, unindo várias exposições em uma só imagem.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.

Um pouco de sua identidade, imagens em HDR, e do gosto por locais abandonados, Matthias divide com David Pinzer, seu amigo e também fotógrafo. Ainda que Pinzer tenha se especializado na fotografia de moda, muitos dos lugares registrados por Heker também estão disponíveis, em imagens semelhantes, no portfólio do colega. Atualmente, a dupla se encontra em uma jornada fotográfica na Escócia – não se sabe se em busca de construções como aquelas presentes em Decay. Aos curiosos, fica a dica: Pinzer não tem a preocupação de manter sigilo sobre os endereços desses locais, em seu Flickr é possível encontrar algumas pistas.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.

Autodidata, Heker se dedica principalmente a projetos autorais, mas também aceita trabalhos comissionados, em especial nos campos da fotografia de arquitetura e interiores, nas quais se especializou, além de retratos, moda e casamentos.

Foto: Matthias Haker.

Foto: Matthias Haker.