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Archive for março, 2013

28
mar

A influência da pintura nos retratos de Juan Esteves

Retrato de Juan Esteves.

Juan Esteves, um dos mais importantes fotógrafos e críticos da área no país, descreve-se como um “retratista compulsivo”: para ele, não se trata de um trabalho, mas uma troca. “A maioria dos meus retratos são de pessoas que admiro muito. Fotógrafos, escritores, músicos, cineastas, artistas plásticos, arquitetos, gente ligada a cultura”, conta. Sobre o tema, já publicou dois livros, Presença (2006) e 55 Portraits (2000), cujas imagens ilustram este post. Algumas delas serão publicadas, também, em Vida de Fotógrafo com perfis de 20 grandes fotógrafos internacionais.

Adolfo Bioy Casares, escritor, 1995. Foto: Juan Esteves.

Arnaldo Antunes, compositor e poeta, 1995. Foto: Juan Esteves.

Santista nascido em 1957, Esteves conta que sua inclinação pelo retrato começou cedo, em casa. Seus bisavós e avós vieram de Goián, um pequeno vilarejo de Pontevedra, na Galícia, acompanhados por um jovem pintor, Antonio Fernandéz Goméz, que morou durante anos na companhia do casal. Ao retornar ao seu país, deixou uma dezena de retratos espalhados pela casa. Sua fotografia tem forte influência dos mestres espanhóis Jusepe Ribera e Diego Velázques – é deste, por exemplo, o dramático uso de luz lateral tão comum em suas imagens.

Walter Hugo Khouri, cineasta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Fernando Campana, designer, 1999. Foto: Juan Esteves.

Mais do que sublinhar sua veia retratista, a pintura teve forte crédito, também, na entrada da fotografia na vida de Esteves. Ainda adolescente, pela convivência com a avó artista plástica, começou a desenhar, pintar e experimentar diversas técnicas, sempre buscando a figura humana. “Participei de salões jovens, mas em um momento percebi que era incapaz de produzir o que queria. Notei que só conseguiria isso com a fotografia”, relembra. Hoje, está justamente fazendo o caminho reverso, voltando à arte, manipulando imagens. Suas primeiras bíblias foram Fotografia Básica de Michel Langford, e Vu par Moscou, de Henri Cartier-Bresson.

Aldemir Martins, pintor e gravador, 1999. Foto: Juan Esteves.

Hector Babenco, Cineasta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Esteves conta que foi difícil conciliar o trabalho normal, os estudos e o crescente desejo de se tornar fotógrafo. Na época, início dos anos 1980, as opções se restringiam à imprensa ou publicidade, e ele optou pelo fotojornalismo. Começou cobrindo férias em sucursais de A Tribuna, jornal santista, enquanto formava com amigos a agência Contato. Depois de meses, foi contratado após um freela em A Tribuna e exatamente um ano depois partiu para a Folha de S. Paulo, onde trabalhou ate 1994.

Peter Greenaway, cineasta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Haroldo de Campos, poeta, 1998. Foto: Juan Esteves.

Na Folha, além de fotógrafo, foi editor de fotografia e colunista nos cadernos de informática e cultura. Em seu extenso currículo constam obras nos acervos do Museu de Arte Moderna de São Paulo-MAM; Museu de Arte de São Paulo – MASP; Musée de L’Elysée, Lausanne, Suíça; Instituto Moreira Salles-IMS; Pinacoteca do Estado de São Paulo; Museu de Arte Brasileira-MAB-FAAP; Enciclopédia de Artes Visuais Itaú Cultural e Museu de Fotografia da Cidade de Curitiba; entre outros privados e públicos. Ao todo, já soma 24 exposições individuais e 84 coletivas. Em sua larga trajetória como articulista e crítico de fotografia já colaborou com as revistas Iris Foto, Revista Fotosite e, atualmente, escreve para a revista Fotografe Melhor.

25
mar

“Não sou um artista. Sou um criador de imagens” Thomas Hoepker

Retrato de Thomas Hoepker.

Na semana passada falamos aqui sobre a mais controversa imagem do 11/9, assinada pelo fotógrafo alemão Thomas Hoepker. Não por acaso, trata-se da mais famosa de suas fotografias, debatida incansavelmente após sua publicação, em 2006. Mas o registro está longe de ser o único icônico em seu portfólio. São de sua autoria, também, os mais famosos registros já feitos de Muhammad Ali, além de diversas imagens de valor documental e antropológico feitas ao redor do mundo. E é sobre a importância do conjunto da obra desse veterano integrante da Magnum que pretendemos falar neste post.

Foto: Thomas Hoepker.

Foto: Thomas Hoepker.

Com uma carreira de mais de 50 anos, Thomas Hoepker especializou-se em reportagem, sempre elegante em seu uso de cores. Nascido em 1936, em Munique, estudou História da Arte e Arqueologia e entre 1960 e 1963 trabalhou como fotógrafo para as publicações Münchner Illustrierte e Kristall, cobrindo eventos nos cinco continentes. Em 1964, passou a trabalhar na Stern Magazine como repórter fotográfico, mesmo ano em que Magnum passou a distribuir suas imagens de arquivo – ele só se tornaria um membro pleno no fim da década de 1980. Entre as diversas áreas em que atuou, foi cinegrafista e produziu documentários para a televisão alemã. Na década de 1970, trabalhou em parceria com sua esposa, a jornalista Eva Windmoeller, primeiro na Alemanha, depois em Nova Iorque, para onde mudaram-se como correspondentes da Stern.

 

Foto: Thomas Hoepker.

Foto: Thomas Hoepker.

Hoepker se define como um fotógrafo de rua, vê o que acontece ao redor de si e fotografa. “Não existe o conceito de premeditado, de pré-arranjado. Na minha visão, esse é o interessante da fotografia: recortar uma parte da realidade e capturar momentos adequados para serem documentados de forma memorável”. Ainda em suas palavras, a receita certa para produzir esses registros possui apenas quatro ingredientes: um bom olhar, tempo, paciência e, confessa, pura sorte.

Foto: Thomas Hoepker.

Foto: Thomas Hoepker.

De 1978 a 1981, Hoepker foi diretor de fotografia para a edição americana da Geo. O fotógrafo também atuou como Diretor de Arte para a Stern em Hamburgo entre 1987 e 1989, ano em que se tornou membro pleno da Magnum, que presidiu entre 2003 e 2006. Para ele, a mítica agência permanece a mais interessante do mundo desde sua fundação, em 1947, graças ao seu constante esforço em manter sua tradição e abraçar novas e pioneiras ideias. “Isso se deve em grande parte às contribuições de nossos jovens fotógrafos, especialmente interessados em combinar a alta qualidade das imagens com as possibilidades dos meios de comunicação modernos”.

Hoje, Hoepker vive em Nova Iorque, onde filma e produz documentários para a TV em parceria com sua segunda esposa, Christine Kruchen.

Foto: Thomas Hoepker.

Foto: Thomas Hoepker.

22
mar

Vida e morte na obra de Dieter Appelt

Dieter Appelt no seu estúdio em Berlim, 1990.

Após a Segunda Guerra Mundial, Dieter Appelt retornou com sua família à fazenda em que viviam e, para sua surpresa, encontrou corpos de soldados em decomposição os esperando nos campos do terreno. Essa experiência, de acordo com a crítica, foi fundamental na construção das bases estéticas e emocionais de seu trabalho. Appelt, um dos mais importantes fotógrafos alemães, integra um segmento vanguardista do país cuja produção artística é marcada pela forte influência do período pós-Guerra. Nascido em 1935, mescla em suas obras, fotografia, filme e performance e, atualmente, ministra aulas sobre esses três pilares na Berlin Academy of Fine Arts.

"First Hanging". Foto: Dieter Appelt.

"Eye Tower". Foto: Dieter Appelt.

Appelt cresceu no lado oriental do país durante a Segunda Guerra e, na década de 1960, começou a estudar fotografia e pintura. A partir dos anos 1970, influenciou-se pelos rituais de Joseph Beuys, passando a executar performances e a documentar seu desempenho através da fotografia. De acordo com ele, suas imagens e instalações vem de seus sentimentos e experiências próprias, mas também de seu desejo de expressar a agonia, a natureza decisiva de termos de nascer e morrer. “Se você realmente quer expressar alguma coisa”, ele diz, “você deve ser radical”.

"Headrest ". Foto: Dieter Appelt.

"Skull Machine". Foto: Dieter Appelt.

Duração e decadência são temas persistentes em suas fotos. Appelt costuma utilizar longas horas de exposição em uma tentativa de registrar os efeitos da passagem do tempo. Ao criar fotografias que mostram o próprio corpo coberto de pó ou envolvido por tiras de pano, revela sua preocupação com temas como a morte, o renascimento, a meditação e a transcendência, indo além dos usos convencionais do meio para dar a princípios abstratos uma forma fotográfica.
No final dos anos 1970, Appelt construiu torres cúbicas de galhos de árvores em uma remota ilha italiana e fez autorretratos dentro delas. Pontuando essa série de apresentações está uma de suas imagens mais famosas, “Der fleck auf dem spiegel, den der atemhauch schafft” (A mancha no espelho, feita pela respiração), de 1977. O fotógrafo afirma que se utiliza como modelo em suas próprias obras já que não poderia trabalhar com outras pessoas: algumas experiências vêm de dentro. “Eu não poderia exigir isso, essa resposta, de ninguém. Você não pode verbalizar certos sentimentos porque eles simplesmente não podem ser descritos em palavras”.

"Membranobject". Foto: Dieter Appelt.

"From Memory's Trace". Foto: Dieter Appelt.

Suas fotografias são exibidas extensivamente na Europa desde a década de 1970, contando com grandes exposições no Staatliche Museen zu Berlin, além de mostras individuais no Guggenheim Museum, em Nova Iorque, e no Art Institute de Chicago. Parte de sua obra também foi adquirida por grandes coleções internacionais, incluindo o Museu de Arte Moderna de Nova York, o Museu Victoria & Albert, de Londres, Centre George Pompidou, Paris, e The San Francisco Museum of Modern Art, na Califórnia.

"The Mark on the Mirror Breathing Makes". Foto: Dieter Appelt.

"The Spring". Foto: Dieter Appelt.