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Archive for fevereiro, 2013

19
fev

Dominic Nahr, fotografia em cores e consciência

Retrato de Dominic Nahr.

“Nós temos a liberdade de fazer o que quisermos. Nada é impossível. Nós sobrevivemos, simplesmente por termos nascido no lugar certo, na hora certa. Na cultura ocidental, nós facilmente esquecemos o quão rápido as coisas podem ser tiradas de nós.”
Dominic Nahr

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Suiço, estabelecido no Quênia, criado em Hong Kong, Dominic Nahr é um dos mais jovens fotógrafos representados pela Magnum, com diversas coberturas tão delicadas quanto emblemáticas em seu portfólio. Seu trabalho, marcado por um olhar forte e inabalável, é movido pelo desejo de documentar e disseminar ações que não devem ser mantidas ou esquecidas, sejam catástrofes naturais, distúrbios civis ou o que define como “crimes cometidos em nome da manutenção de fronteiras físicas e psicológicas”.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Nascido em 1983, foi em Hong Kong, onde cresceu, que se estabeleceu como fotógrafo, trabalhando no jornal South China Morning Post. Em 2007, quando estudava em Toronto, passou a trabalhar como fotógrafo freelancer, comissionado por publicações como Newsweek, GQ e The Fader. Graduou-se na Ryerson University em 2008 e foi indicado para a Magnum em 2010. Suas coberturas mais importantes incluem o desastre nuclear de Fukushima, conflitos na Faixa de Gaza, revoluções da Primavera Árabe, fome na Somália.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Um de seus ensaios mais marcantes é Congo: The Road to Nowhere (2008), que mostra como no país – rico em minerais, dono de paisagens estonteantes e vulcões ativos que brilham à noite – o sofrimento é parte da vida cotidiana. Outros de seus registros mais chocantes ilustraram reportagens sobre a fome na África. Na jornada, ele e o repórter Alex Perry encararam de frente a dor de centenas de milhares de refugiados que fugiram da desnutrição severa no sul da Somália.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Sobre as dificuldades de seu trabalho, Nahr afirma que quando vê civis mortos, chega a sofrer de dores no corpo, mas com soldados já se sente um pouco diferente. “Você entra em um modus operandi de trabalho distinto, às vezes fotografar um corpo sem vida quase não parece real”, expressa. É depois, vendo as imagens, que ele sente a real dimensão dos registros e surpreende-se com a própria frieza, como se, em suas palavras, no momento em que está trabalhando o tempo funcionasse de modo diferente. Como curiosidade, vale citar que a declaração de Nahr contrasta com as características de trabalho de outro fotógrafo suíço, René Burri. Burri documentou a guerra diversas vezes, mas nunca fotografou cadáveres por questões de ética pessoal.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

Na lista da PDN Magazine dos “Top 30 under 30 photographers” (30 fotógrafos mais importantes com menos de 30 anos), Nahr já foi honrado com diversos prêmios de imenso prestígio, incluindo The Oskar Barnack Newcomer Award. O fotógrafo também faz parte da “The Photo Society”, grupo de colaboradores da National Geographic Magazine engajado em contar histórias através de grandes imagens.

Foto: Dominic Nahr.

Foto: Dominic Nahr.

15
fev

Ausência em imagens, por Peter Marlow

Autorretrato de Peter Marlow.

“Eu opto pela fotografia que se sobrepõe e enriquece. Ao mesclar observação, sagacidade e razão, quero que meu trabalho gere uma sensação de inesperado, de escondido e de aparentemente espontâneo”
Peter Marlow

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Ausência, melancolia, silêncio. É essa atmosfera das imagens de diferentes ensaios assinados por Peter Marlow que selecionamos para este post. Nessa série de fotografias, Marlow não retrata os instantes em que as grandes metrópoles silenciam revelando suas belezas escondidas, mas as ausências em locais que parecem distantes, esquecidos, antigos. Há sempre uma certa insinuação de presença humana, mas não se sabe há quanto tempo ela está distante nem quando vai retornar. Conhecido por suas imagens de paisagens, Marlow é um fotógrafo britânico integrante da Magnum que tem em seu portfólio principalmente imagens em cor.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Treinado na linguagem do fotojornalismo, Marlow não é, propriamente, um repórter fotográfico, anda que tenha sido um dos mais bem-sucedidos jovens fotógrafos de notícias britânicos. Começou sua carreira após graduar-se como psicólogo na Universidade de Manchester em 1974. A partir daí, foi trabalhar como fotógrafo em um cruzeiro italiano no Caribe e entrou no time de fotógrafos da agência parisiense Sygma. No final da década de 1970, trabalhou na Irlanda no Norte e no Líbano, e foi aí que percebeu que a competição do fotojornalismo não combinava com ele. Voltou para a Grã-Betanha e trabalhou em Liverpool em um projeto de oito anos. Tornou-se associado da Magnum em 1981 e membro pleno em 1986.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Com a guinada em sua carreira mudou, também, sua estética. Desde que abandonou o fotojornalismo como única vertente, escolheu a “cor das coisas acidentais” como tema central de sua obra, da mesma maneira que as formas e marcas eram fundamentais para seu trabalho em preto e branco.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

Foto: Peter Marlow.

8
fev

A humanidade de um mito: Marilyn Monroe, por Eve Arnold

Retrato de Eve Arnold.

Não são poucos os que tentaram capturar em filmes fotográficos um pouco da magia, do sex appeal e do místico encantamento de Marilyn Monroe. Aliás, foram justamente as imagens, bem como as películas do cinema, que ajudaram a construir o mito: impecável, sobrehumano, maquiado, esculpido em trajes bem cortados, em poses e trejeitos cuidadosamente calculados, iluminado e enquadrado com perfeição. Se digitarmos Marilyn Monroe no mecanismo de busca do blog, encontraremos bons exemplos até mesmo por aqui, retratos da musa assinados por nomes como Cecil Beaton, Ernst Haas, Alfred Eisenstaedt e Phillipe Halsman. Não são esses, entretanto, os que caracterizam as imagens de Marilyn assinadas por Eve Arnold (1912 – 2012), mas momentos menos conhecidos, em que a presença da câmera não parece abalá-la ou distraí-la. Em algumas delas, Marilyn não se preocupava com o figurino e deixava até mesmo escapar certa melancolia no olhar. E é essa doçura, repleta de cumplicidade entre modelo e fotógrafa, que torna os registros que ilustram este post um documento tão especial.

Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.

Não por acaso, sob um nome aceito para ambos os gêneros, e em um meio onde os homens até hoje são maioria, encontra-se uma fotógrafa mulher. É possível que visse Marilyn como vítima de uma sociedade calcada nos desejos do macho, ansiosa por construir, extrair e vender sua glamorosa imagem à exaustão. É possível, também, que Marilyn, na companhia da fotógrafa, relaxasse, abandonando a personagem, seus quase automáticos reflexos de sedução e sensualidade. Não por acaso, também, Arnold era uma fotógrafa que tinha na preocupação com seus personagens uma característica fundamental, como mostra uma de suas mais famosas citações: “Se o fotógrafo se preocupa com a pessoa atrás das lentes e tem compaixão, muito é dado. É o fotógrafo, não a câmera, que é o instrumento”.

Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.

Se o senso comum não cansava em dizer que Marlyn Monroe fazia amor com a câmera, o que transparece nas imagens feitas por Eve é tranquilidade e relaxamento, fruto de uma nítida e mútua colaboração. Com seu dom extraordinário de transmitir emoções, Marilyn utilizou esse espelho para mostrar sua outra face, traduzida em retratos delicados de uma deslumbrante mulher-criança. Felina, mas inocente; ansiosa, mas confiante. Doce, apaixonada e engraçada.

Marilyn Monroe e Clark Gable durante as filmagens de "The Misfits", 1960. Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.

Nascida na Filadélfia, filha de imigrantes russos, Arnold começou a clicar em 1946, trabalhando na área, e em 1948 estudou fotografia com Alexei Brodowitch na New School for Social Research, em Nova Iorque. Associou-se à Magnum em 1951, tornando-se membro plena em 1957. Em 1962, viajou à Inglaterra, onde se estabeleceu. Com 12 livros publicados, foi honrada com inúmeras distinções. Em 1995, passou a integrar a Royal Photographic Society e foi eleita Master Photographer pelo New York Center of Photography, a mais prestigiosa honraria fotográfica. Faleceu em 2012 às vésperas de completar 100 anos.

Foto: Eve Arnold.

Foto: Eve Arnold.