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Archive for janeiro, 2013

31
jan

Nus e sombra, por Lucien Clergue

Retrato de Lucien Clergue. Foto: Romeo Balancourt.

Nascido em Arles, em 1934, Lucien Clergue é um dos mais respeitados fotógrafos franceses. Dono de uma carreira de mais de 50 anos, é celebrado no mercado de arte internacional e tem em sua cidade natal sua principal fonte de inspiração. Nus femininos, sombras e as sinuosas combinações de ambos foram alguns de seus assuntos preferidos – e são esses que contemplamos neste post. Tratam-se de categorias incansavelmente abordadas por inúmeros fotógrafos, não são poucos os estudos existentes sobre as formas do corpo e jogos de luz e sombra. Clergue, entretanto, destaca-se entre os artistas que conseguiram imprimir nessas imagens sua assinatura, dando personalidade a seus cliques.

Foto: Lucien Clergue.

Foto: Lucien Clergue.

Aos sete anos, Clergue aprendeu a tocar violino, e algum tempo depois, seu professor lhe revelou que não tinha mais nada a ensinar. Filho de comerciantes, não pode continuar os estudos em um conservatório, então recorreu a fotografia como uma outra forma de se expressar artisticamente. Em 1953, teve a chance de mostrar suas imagens a Pablo Picasso, que considerou o trabalho fraco e pediu para que o jovem lhe enviasse outras posteriormente. Durante um ano e meio, Clergue trabalhou com esse objetivo em mente, fazendo um ensaio com artistas viajantes, acrobatas e arlequins marcado por uma atmosfera sombria, ligada a ideia de morte que impressionou o pintor espanhol. Os dois acabaram desenvolvendo uma improvável amizade, permanecendo próximos até a morte do mestre, em 1973. O livro Picasso my friend retrata importantes momentos desse relacionamento. O artista plástico tornou-se um canal, também, para seu envolvimento com nomes importantes da classe artística, como Jean Cocteau, com quem Clergue trabalhou em diversos projetos.

Foto: Lucien Clergue.

Foto: Lucien Clergue.

O anseio de Clergue por um meio de se expressar artisticamente pode ser atribuído a suas experiências de infância. Sensível, viu sua cidade se transformar em ruínas após a Segunda Guerra Mundial e perdeu sua mãe, com quem era muito ligado, ainda na primeira década de vida. Se a prática do violino era um refúgio, a fotografia lhe deu a liberdade que procurava. Foi a partir de 1956 que abandonou em partes a aura fúnebre de seus trabalhos anteriores e começou a fotografar nus femininos, imagens pelas quais se tornou posteriormente mais conhecido. As fotografias que integraram a publicação “Corps Mémorable”, as primeiras a serem publicadas, representaram a primeira de muitas de suas explorações do gênero. Como o próprio afirmou em entrevista com Basílio Langton, elas também marcam um ponto de transição psicológico.

Foto: Lucien Clergue.

Foto: Lucien Clergue.

Nos primeiros anos, as modelos eram suas amigas, e Clergue recorda que a maioria delas se sentia mais confortável se seus rostos não fossem contemplados no enquadramento. Assim, ele inadvertidamente desenvolveu um estilo que se tornou sua assinatura. Eliminando a identidade das modelos, tecia um comentário sobre as formas femininas em geral, e não mulheres em particular. Como artista, ele já havia investigado o simbolismo através da fotografia, mas nunca tinha sido tão explícito. Quando colocou as modelos no mar de Arles, transformou seus nus em um símbolo de fertilidade de forma particularmente mediterrânea. Seu segundo livro de nus, Afrodite (1963) explica sua intenção. Suas séries mais famosas e que atingiram maior sucesso de vendas foram aquelas em que ele utilizou sombra, apelidadas de zebra nudes.

Foto: Lucien Clergue.

Foto: Lucien Clergue.

Foto: Lucien Clergue.

Foto: Lucien Clergue.

28
jan

As crônicas cariocas de Cartiê Bressão

“la grille d’amour”, Praia do Arpoador — 2012.

“les cariocas applaudissent le coucher du soleil”, Pedra do Arpoador — 2012.

“A câmera fotográfica é para mim um caderno de esboços. Um instrumento da intuição e da espontaneidade, o soberano do instante que, em termos visuais, ao mesmo tempo questiona e decide. Para ‘significar’ o mundo temos que nos sentir implicados no que recortamos através do visor. Essa atitude exige concentração, sensibilidade, senso de geometria. É por uma economia de meios e, sobretudo, um esquecimento de si mesmo, que chegamos à simplicidade da expressão.”
Henri Cartier-Bresson

“deux baigneurs baisers”, Copacabana — 2012.

“enfant jouant sur le verre et en regardant suspect”, Horto — 2012.

Um homem passando por uma poça na place de l’Europe, japonesas penteando um ator de kabuki, um velho pintor solitário sentado na cama de seu ateliê… tanto quanto seus emblemáticos registros jornalísticos, foi a leveza das cenas cotidianas captadas por sua Leica que sagraram Henri Cartier-Bresson (1908-2004) como o mais importante fotógrafo do século XX. Nessas “images de la vie quotidienne”, tem-se um preciso exemplo do espaço que seus “instantes decisivos” ocupam na história da fotografia. Na época em que tais cliques eram feitos, entretanto, ainda se tentava deslegitimar o ato fotográfico como meio de expressão artística. Por seu potencial de massificação e, justamente, por sua capacidade de perpetuar e enaltecer o trivial, temia-se que ele pudesse vulgarizar a arte, imaculada e vulnerável por seu caráter sagrado, transcendental. Hoje, décadas e décadas depois, como receariam alguns, mas diferente de todas as previsões, o momento decisivo definido por Bresson é acessível a um botão de telefone celular – e é inevitável a reflexão quando um perfil no Instagram (rede social de imagens celebrada por alguns fotógrafos entusiastas e criticada por outros) viraliza na internet ao homenagear com uma bela dose de ironia e humor justamente um dos principais fotodocumentaristas da história. Cartiê Bressão, aportuguesamento popularesco e nitidamente sarcástico do nome original em francês, é um pseudônimo que publica na internet cenas vistas nas ruas do Brasil, em especial do Rio de Janeiro. As imagens do fotógrafo carioca registram de forma singela o cotidiano da cidade, destacando como protagonistas célebres anônimos como aqueles eternizados por Bresson: diferentes personagens que compõem a fauna local, crianças na praia, trabalhadores em momentos de descanso, adolescentes em festa. Tudo, ainda de acordo com a inspiração primordial, sempre acompanhado de legendas espirituosas escritas em francês.

“neptune et ses poissons”, Arpoador — 2012.

“deux filles avec des bikinis traversé regardent par la fenêtre du bus”, Posto 6 — 2012.

Sob a diversidade dos temas abordados por Bresson, descortinava-se uma mesma linha, independente do lugar ou da circunstância. Tratava-se de um universo que parecia marcado por uma fissura secreta capaz de fazer com que a rigidez da rotina e dos relógios cedesse. O mesmo acontece nas imagens de Cartiê, que expressam a banalidade da vida, cenas que nosso olho visita com displicência e que nossa consciência não julga dignas de serem fisgadas pela memória. Por congelá-los e resgatá-los, Bressão faz com que esses momentos despertem posteriormente nosso afeto. Não por acaso, o fotógrafo se define como “um caçador do efêmero”. Em bom francês, é claro.

“homme avec une chemise déboutonnée avec son chihuahua”, Rua do Rosário — 2012.

“enfant dans le chariot d’épicerie”, Botafogo — 2012.

“Cabeça, olho e coração alinhados”, Cartiê é uma caricatura que subverte com sutileza e bom humor o legado do fotógrafo francês, criando pequenas crônicas da vida nas ruas cariocas. Ainda assim, muitos que o celebram na rede o fazem apenas no terreno da ironia, centrando-se no contraste existente entre imagens de baixa resolução lavadas por filtros de celular e fotografias em preto e branco cuidadosamente compostas e reveladas. É nas diferenças com seu muso inspirador, que se mostram principalmente no caráter brega e não lapidado das imagens, que também se encontram alguns dos principais méritos de Bressão. Mas é nas semelhanças, na busca incessante pelo belo que se revela em segundos e esquinas escondidas, que Bressão encontra Bresson e se torna um documentarista quase essencial para quem busca um pouco de colorido e beleza no cotidiano tantas vezes monocromático e entediante das redes sociais.

“deux femmes de petite vertu marchant”, Copacabana — 2012.

“deux garçons prennent une sieste sur la plage”, Praia de Ipanema — 2012.

25
jan

“Ainda tenho o sentimento que algumas das minhas imagens podem construir pequenas pontes entre as pessoas” René Burri

Retrato de René Burri.

Veterano integrante do Magnum, René Burri é um fotógrafo que vive e trabalha entre as cidades de Zurique, sua terra natal, e Paris. Com um acervo repleto de imagens em preto e branco, mas que inclui também diversas obras em cor, documentou guerras, eventos cotidianos e momentos delicados na história mundial, favorecido pela neutralidade de seu passaporte e por seu espírito repleto de coragem jornalística e sensibilidade. Até hoje, só sai de casa com sua Leica a tiracolo. “É o meu terceiro olho. Estou sempre com ela”.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Nascido em Zurique, em 1933, tirou sua primeira fotografia aos 13 anos sob incentivo do pai. A estreia foi logo no terreno do fotojornalismo e da fotografia documental: registrou o então primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, que desfilava pela cidade em um carro aberto. Formou-se como fotógrafo na Escola de Artes de Zurique apenas porque na época não havia no país cursos de cinema, seu desejo original. Entre 1954 e 19855, trabalhou como assistente de cinegrafista no filme documental da Disney rodado na Suíça, Switzerland (1956). Foi em 1956 que começou a trabalhar profissionalmente como repórter fotográfico. Seu trabalho autoral ganhou impulso no mesmo ano, ao realizar uma reportagem fotográfica sobre uma escola de crianças surdas-mudas que acabou sendo comercializada pela legendária Magnum. De correspondente, tornou-se membro permanente em 1959 e chegou a presidir a agência, em 1982.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Uma de suas fotografias mais emblemáticas foi feita no Brasil, mais precisamente em São Paulo, em 1960. Dramática, sofisticada e vertiginosa, Men on a Rooftop, “homens no telhado” em tradução literal, fez parte de um ensaio para a revista Praline que reuniu cenas de ruas feitas em cidades latinoamericanas. Como outras peças contempladas, revela contrastes próprios do continente: tem a elegância de poucos homens e o caos urbano enquadrados e encapsulados no mesmo frame. Na época, Burri já começava a fazer experimentos com geometria em suas imagens – e como estudante, já havia se apaixonado pela emergente arquitetura moderna, tornando-se amigo próximo de Le Corbusier e Oscar Niemeyer. Por aqui, também clicou a arquitetura de Brasília, em especial o que chamou de “seu aspecto humano”. Da passagem por Cuba, leva algumas das mais icônicas imagens de Che Guevara já registradas, além do hábito de fumar charutos, que mantém até hoje.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Uma curiosidade interessante sobre Man on a Rooftop, Burri conta, é que naquela época Henri Cartier-Bresson limitava os fotógrafos ao uso de lentes de 35mm a 90mm, e a imagem foi feita com uma 180mm. “Quando eu lhe mostrei a foto, ele disse ‘brilhante, René’. Fui para a rua e gritei ‘há!’. Ele me ouviu, perguntou o que foi e eu respondi apenas ‘nada, esquece’, e nunca disse a ele. Naquele momento, me soltei de meu mentor. Eu matei meu mentor!”, relembra.

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.

Foi justamente a neutralidade do passaporte suíço somada a sua declarada fome pelo desconhecido que lhe possibilitou fotografar muitas situações que significariam empecilhos para fotógrafos de outras nacionalidades. Entre elas, vale destacar a Berlim de 1961, dividida pela Guerra Fria e ocupada pelos aliados na iminência da construção do Muro. Ao decorrer de sua trajetória, também documentou conflitos no Oriente Médio e na África, além de percorrer todo os Estados Unidos.

Entre seus livros mais recentes estão Brasília (2011), Blackout New York (2009), Nous sommes treize à table (2008) e Che Guevara Cigar Box (2004)

Foto: René Burri.

Foto: René Burri.