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Archive for novembro, 2012

19
nov

“Minha foto preferida é aquela que ainda não fiz” Bruce Davidson

Retrato de Bruce Davidson.

Nascido em 1933, Bruce Davidson é um fotógrafo na corda-bamba. Entre o rigor da composição e o instinto, entre o policial e o infrator, entre o envolvimento pessoal com seus assuntos e a disciplina profissional, entre o instante que leva o espectador a um mundo de sonho e aquele que o devolve à realidade. Mais do que um contador de histórias fascinado por pessoas, trata-se de um dos mais influentes fotógrafos de nosso tempo. De forma intensamente pessoal, registrou com paixão e delicadeza personagens diversos, de um anão circense aos membros de uma gangue americana, dando ênfase às classes baixas nova-iorquinas, figuras centrais nas lutas por direitos civis nos anos 1960. Mesmo que a cidade de Nova Iorque seja o principal cenário de seus ensaios, foi em Paris que Davidson realizou seus primeiros trabalhos comerciais e conheceu Henri Cartier-Bresson. Dessa amizade, herdou a defesa da tradição preto e branco na reportagem e tornou-se membro do time da Magnum, agência onde está até os dias de hoje.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Fotógrafo nato, Davidson cresceu em Chicago e ganhou sua primeira câmera em 1940. Antes dos 10 anos, já fotografava as crianças que brincavam em um subúrbio da vizinhança, em Ilinóis. Conseguiu um emprego em um laboratório fotográfico na adolescência e se apaixonou definitivamente pelo ofício, lembrando de seu primeiro dia de trabalho com o mesmo entusiasmo quase 70 anos depois: “Uma luz brilhou, uma folha de papel foi colocada em uma bandeja d’água e uma imagem se formou. Isso me pegou e me puxou – esse processo misterioso. Foi um breve encontro, mas que carrego comigo até hoje”. Depois de alguns dias, acabou convencendo a mãe a construir um pequeno laboratório na garagem de casa, onde passava boa parte de seu tempo livre. Após estudar no Rochester Institute of Technology na Universidade de Yale, foi convocado para o exército e estabelecido em Paris, onde conheceu Henri Cartier-Bresson. Quando deixou o serviço militar, em 1957, Davidson trabalhou como fotógrafo freelancer para a revista LIFE até se tornar um membro definitivo da Magnum, um ano depois.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Apaixonado por sua inseparável Leica 28mm, vê na câmera uma ferramenta de trabalho pequena, leve e discreta. De acordo com Davidson, é graças a ela que consegue se aproximar tanto quanto necessário de seus assuntos e não influenciá-los enquanto clica. “Quero ser invisível e não quero ser agressivo de forma alguma. Isso significa silêncio e isso significa Leica”, contou, em entrevista. Foi pela discrição do material que conseguiu se infiltrar na gangue que o rendeu um de seus mais celebrados ensaios, “Brooklyn Gang”, que retrata um grupo de jovens rebeldes do distrito Brooklyn. A série foi feita nos primórdios dos anos 1960, bem como outros de seus ensaios seminais, “The Dwarf” e “Freedon Rides”. Em 1962, recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim e dedicou-se a documentar movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. Logo depois, em 1963, ganhou sua primeira exposição solo no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA).

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Todos esses ensaios foram fruto de meses ou anos de dedicação. Para o melancólico retrato de um palhaço em “The Dwarf”, Davidson viveu como nômade em um grupo circense durante um ano. O fotógrafo explica que seu trabalho tem um efeito cumulativo: “Eu sou como uma espécie de serial killer, leva um longo tempo antes que eu possa compreender o que estou olhando.[...] Além disso, se você já entrou na vida de alguém, você tem que viver lá por um tempo”.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Depois de receber a primeira concessão para trabalhos fotográficos do National Endowment for the Arts, passou dois anos registrando as precárias condições de vida dos moradores de um condomínio em East Harlem, um dos mais pobres bairros nova-iorquinos. O trabalho foi publicado pela primeira vez em 1970 na Harvard University Press sob o título “East 100th Street” e depois expandido e republicado na St. Ann’s Press. Extremamente impactante, trata-se de uma das mais poderosas documentações da pobreza e da discriminação já registradas nos Estados Unidos. Causou controvérsia justamente pela proximidade de Davidson com os assuntos e tornou-se exposição, sediada no MoMA.

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

Em 1980, passou a arriscar-se, também, na fotografia colorida, dedicando-se a uma das temáticas que mais atrai fotógrafos nova-iorquinos, o metrô. “Subway” registrou a vitalidade e a efervescência do mais popular transporte público da Big Apple e foi publicado no Internacional Center of Photography em 1982. Dos anos 1990, vale destacar sua série sobre paisagens (também um novo desafio) do Central Park. Em 2006, voltou-se a uma temática distante da sua cidade predileta em “The Nature of Paris”, marcando um retorno à França, país sede de importantes episódios em seu crescimento como fotógrafo.

“Se eu estou procurando uma história, ela se encontra na minha relação com o assunto – é isso o que a história conta, mais do que o que a imagem mostra”
Bruce Davidson

Foto: Bruce Davidson.

Foto: Bruce Davidson.

14
nov

George Steinmetz: belezas aéreas e desertas

George Steinmetz posando para uma foto de passaporte em Tamanrasset, Algeria.

Membro do time de profissionais que contribui regularmente com a National Geographic, o fotógrafo George Steinmetz já publicou mais de 30 ensaios importantes na revista, além de 25 reportagens na GEO Magazine alemã. Mais conhecido por seu trabalho com fotografia de exploração, dedica-se hoje a descobrir alguns dos segredos que restam no mundo: desertos remotos, culturas obscuras e os mistérios da ciência e da tecnologia. Seu mais recente livro e exposição, Desert Air (2012), é uma pioneira e completa coleção de fotografias aéreas de “desertos extremos”, aqueles que recebem menos de quatro centímetros de precipitação anualmente. As imagens foram registradas ao longo de 15 anos e vão do Deserto de Gobi, na China, ao Saara, no norte da África. São algumas delas que ilustram este post.

Foto: George Steinmetz.

Foto: George Steinmetz.

As fotografias da obra foram feitas através de um paraglider motorizado descrito por Steinmetz como uma “cadeira de jardim voadora”, a mais lenta e silenciosa aeronave do mundo. Com esse equipamento, o fotógrafo não apenas pode decolar e pousar sem uma permissão governamental, mas consegue que suas imagens tenham a profundidade de campo que caracteriza seu trabalho, celebrado tanto pelo realismo quanto pelo pictorialismo e a plasticidade.

Foto: George Steinmetz.

Foto: George Steinmetz.

As fotografias são permeadas pela narração das aventuras que Steinmetz viveu ao fazê-las – do contrabando de sua aeronave experimental na Líbia até a prisão por espionagem no Irã. Formado em Geofísica pela Universidade de Stanford, começou sua carreira, e a sua coleção de boas histórias, atravessando a África de carona durante dois anos e meio, período no qual aprendeu a fotografar como autodidata. Em uma das paradas mais importantes da jornada, no Deserto do Saara, sonhou pela primeira vez em sobrevoar sua vasta e surreal paisagem. Vinte anos depois, retornou com seu próprio avião, registrando as imagens que para alguns críticos definem toda sua vida como fotógrafo e explorador.

Foto: George Steinmetz.

Foto: George Steinmetz.

George já ganhou inúmeros prêmios e menções em seus 25 anos de carreira, incluindo dois primeiros lugares na categoria Ciência e Tecnologia do World Press Photo.

Foto: George Steinmetz.

Foto: George Steinmetz.

Foto: George Steinmetz.

Foto: George Steinmetz.

8
nov

Juliano Araujo, aluno da ESPM-Sul, expõe no Salon Art Shopping no Museu Carrousel du Louvre

Retrato de Juliano Araujo. Foto: Pedro Gigante.

É sempre bacana conferir as novidades sobre profissionais que passaram pelo Centro de Fotografia da ESPM-Sul e se realizaram em uma, ou algumas, das diversas áreas de atuação que a fotografia oferece. Quando se tratam de ex-monitores, então, a satisfação é imensa. Como Eduardo Biermann, vencedor de concurso mundial da Nike e pauta recente por aqui, Juliano Araujo é um desses jovens talentos que nos enchem de orgulho. Durante os dias 19, 20 e 21 de outubro, expôs seu trabalho na 11ª edição do Salon Art Shopping no Museu Carrousel du Louvre, em Paris, salão que tem como objetivo dar visibilidade ao trabalho de artistas contemporâneos do mundo inteiro. Como monitor, Juliano trabalhou durante quatro anos ao lado do professor coordenador Manuel da Costa, auxiliando no gerenciamento e na comunicação dos cursos do Centro e concluindo como bolsista os extensivos Fotografia Digital Avançada, Revelando a Luz, Impressão Fotográfica Artesanal do Século XX e Moda & Photoshop.

Fundação Iberê Camargo. Foto: Juliano Araujo.

Fundação Iberê Camargo. Foto: Juliano Araujo.

Natural de Caxias do Sul, Juliano é graduando em Publicidade e Propaganda com Ênfase em Marketing pela ESPM-Sul e técnico em Administração pelo Centro Tecnológico da Universidade de Caxias do Sul. Ao adotar a fotografia como profissão, transformou em trabalho seu maior hobby, desenvolvendo paralelamente projetos autorais e comerciais. O convite para a exposição em questão surgiu através de Andreas Nicola Ravizzoni, responsável por contatar artistas do Sul do Brasil para eventos internacionais organizados pela AVA Galleria. Aprovado no edital, Juliano enviou suas imagens para Rio de Janeiro, Finlândia e, finalmente, Paris. Entre fotos, pinturas, esculturas e desenhos de artistas do mundo todo, o fotógrafo apresentou uma série de imagens do museu da Fundação Iberê Camargo realizadas no final de 2009, fruto justamente de uma aula do Curso Avançado de Fotografia Digital, mais especificamente do módulo “Fotografia de Arquitetura”, conduzido pelo professor Leopoldo Plentz. Durante o processo, Juliano conta que utilizou, também, informações das aulas de Preto e Branco ministradas por Leopoldo.

Fundação Iberê Camargo. Foto: Juliano Araujo.

Fundação Iberê Camargo. Foto: Juliano Araujo.

Para valorizar as formas interiores e exteriores do prédio da Fundação, prestigiado projeto arquitetônico de Álvaro Siza, Juliano utilizou a técnica HDR, originalmente High Dynamic Range, que permite o registro de um intervalo de luminância maior do que o clique da câmera fotográfica. Para isso, diversas imagens foram captadas variando apenas a velocidade do obturador, contemplando informações tanto nas altas quanto nas baixas luzes e atingindo uma gama maior de detalhes tonais. “Além da situação pedir o uso dessa técnica, com o sol contra e o Iberê na sombra, ela possibilitou a criação de um material diferenciado, que valoriza a textura característica das obras de Siza”, explica. Depois de prontas, as imagens foram unidas através de softwares e, para chegar naquele resultado, Juliano conta que cada uma delas foi revelada no mínimo cinco vezes.

Fundação Iberê Camargo. Foto: Juliano Araujo.

Fundação Iberê Camargo. Foto: Juliano Araujo.

Após a mostra no Louvre, a obra embarcou para uma nova exposição, dessa vez na Finlândia, onde permanecerá pelos próximos três meses. Juliano conta que já foi convidado para participar da 12ª edição do Salon Art Shopping, em junho do ano que vem. Ainda que pretenda continuar sua série de imagens da Fundação Iberê Camargo, o trabalho que será apresentado dessa vez, ainda em vias de produção, promete contemplar outro ponto turístico de Porto Alegre. Com a crescente demanda por imagens da Capital, o fotógrafo vê nos famigerados bancos de imagens poucas opções. Seu objetivo é criar uma série de fotografias da cidade com cunho autoral e, para isso, continuará utilizando a técnica HDR.

Fundação Iberê Camargo. Fotos: Juliano Araujo.