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Archive for outubro, 2012

19
out

Antropologia poética: Cristina García Rodero

Autorretrato de Cristina Garcia Rodero.

Nascida em 1949 em Puertollano, na Espanha, Cristina García Rodero é autora de importantes ensaios documentais e jornalísticos, valiosos por sua abordagem original, por sua veia antropológica e principalmente pela qualidade estética, responsável por torná-los mais do que meros registros. Pintora por formação, graduou-se na Universidade de Madri e se tornou professora. Por anos, a fotografia foi apenas um hobby: era somente em seu tempo livre que pesquisava e fotografava festas populares, religiosas e pagãs, ao redor da Espanha. O resultado desses anos de trabalho informal foi publicado em España Oculta (1989), que ganhou o prêmio “Book of the Year” no Arles Festival of Photography. A partir daí, Cristina tornou-se membro da Vu, onde está há mais de 15 anos, e, em 2009, integrou o time da Magnum, tornando-se a primeira fotógrafa espanhola da agência.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Fascinada por diferentes culturas, Rodero viaja o mundo para descobrir novos povos e suas tradições particulares. Durante quatro anos, foi diversas vezes ao Haiti, onde documentou romarias, orações e rituais de vudu, produzindo uma série de imagens extremamente expressivas. Publicadas em Rituals in Haiti (2001), exibido pela primeira vez em 2001, na Bienal de Veneza, são algumas dessas fotografias que ilustram este post.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Cristina também é autora do maior acervo fotográfico da Espanha. Em um repertório de mais de 200 mil fotografias, mostra sempre o espanhol como protagonista, ora de um local idealizado e tradicional, ora de cenários grotescos e assustadores. Os detalhes são sempre explorados de forma intuitiva, sem preconceitos ideológicos ou caráter político. Em suas palavras, o trabalho é fruto da tentativa de clicar o que há de verdadeiro, mágico e misterioso da alma popular na Espanha: “[...] os momentos mais intensos e mais amplos nas vidas desses personagens são tão simples quanto irresistíveis, com toda a sua força interior”.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Em entrevista à estudante Prakriti Bhanot, da Escola Internacional da Madri, Cristina falou sobre suas influências, afirmando que o francês Robert Doisneau é seu fotógrafo favorito, seguido por Henri Cartier-Bresson e William Klein. “Eles tiram as fotos do fundo do coração das crianças, pessoas e ruas”, define. À pedido da entrevistadora, a fotógrafa também deu um conselho aos jovens fotógrafos: saírem por seus países e conhecerem outros mundos, expondo-se ao inesperado e às diferenças. “Eles vão ver culturas e pessoas diversas e aprender que todos possuímos os mesmos anseios e medos, além de aprenderem mais sobre o que eles mesmos possuem. E o quanto estão perdendo”.

“Eu gosto de cores, bem como gosto de fotos em preto e branco. Cores adicionam sensualidade e felicidade. Em P&B, há um certo mistério porque é diferente da realidade. As cores nos distraem, e perdemos a profundidade”  Cristina García Rodero

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

17
out

Kadão entre os melhores do fotojornalismo brasileiro

Retrato de Ricardo "Kadão" Chaves. Foto: Dudu Contursi.

Em sua quarta edição, o livro O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro reúne imagens de importantes repórteres fotográficos do país, muitas delas premiadas no Brasil e no exterior, contemplando registros que vão de fatos cotidianos a acontecimentos marcantes. Entre os profissionais que assinam a versão 2012 do anuário, encontra-se o professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Ricardo Chaves, o Kadão, autor do ensaio Vidas Ausentes, publicado no jornal Zero Hora em 14 de novembro de 2010.

Finalista do Prêmio Esso em 2011, a reportagem mostra quartos vazios, mas com objetos e pertences de jovens do Rio Grande do Sul que tiveram a vida interrompida por acidentes de trânsito. Kadão conta que a ideia surgiu do diretor de redação da época, Ricardo Stefanelli, inspirado por uma matéria do The New York Times que mostrava quartos de soldados americanos mortos na Guerra do Iraque. “Ele achou o ensaio bastante interessante, impactante, e resolveu adaptar para a nossa guerra, a guerra do trânsito, a que mais mata gente no Brasil”, relembra. Convertendo as estatísticas em histórias particulares, a reportagem trouxe a tona a transformação na vida dos pais após a tragédia.

Vidas Ausentes. Foto: Ricardo "Kadão" Chaves.

Vidas Ausentes. Foto: Ricardo "Kadão" Chaves.

Kadão considera a matéria uma das mais duras de sua carreira. Desafiada a encontrar quartos de vitimas do trânsito mantidos intactos pelos pais, a repórter que assina o texto, Kamila Almeida, entrou em contato com mais de 100 famílias até encontrar pessoas que preservassem o quarto de seus filhos quase exatamente como eles haviam deixado – e que ainda estivessem dispostas a falar sobre o assunto. No jornal impresso, foi publicada apenas a imagem, uma por página, com uma pequena legenda. Mas, Kadão conta, aproveitando as novas mídias, os dois acharam que deveriam pegar um depoimento dos pais. “Como acreditamos que seria cruel editar um vídeo explorando a dor da pessoa, solucionamos com um slideshow, gravando depoimentos e cobrindo com fotografias. Eu não achei que seria tão difícil fazer, mas muitas vezes acabávamos o trabalho abraçados aos pais, chorando junto”.

Com apoio do Grupo RBS e Fundação Thiago Gonzaga, o ensaio foi transformado em conteúdo para a prevenção de acidentes e exposição itinerante. Depois de 30 dias no Shopping Iguatemi, na Capital, passou por diversas cidades gaúchas em 2011. Criado em 2008, O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro tem como objetivo servir como referência dentro e fora do país. Além de homenagear os fotojornalistas que labutam no cotidiano das redações, busca preservar seus melhores cliques para que sirvam de exemplo aos profissionais iniciantes. A edição deste ano contempla mais de 200 imagens de 96 repórteres fotográficos de revistas, jornais e agências do Brasil.

Na última quinta-feira, 11 de outubro, Kadão realizou sua já tradicional aula na sede de Zero Hora, jornal no qual iniciou sua carreira no fim dos anos 1960 e onde, hoje, trabalha há 20 anos. Os alunos puderam conhecer na prática a rotina de trabalho de um fotojornalista dentro da redação: como são organizadas as pautas, a compra de imagens em agências, o arquivo de fotografias do jornal, etc.

Foto: Camilo Santa Helena.

Foto: Camilo Santa Helena.

 

11
out

As jornadas políticas, sociais e religiosas de Abbas

Autorretrato de Abbas Attar.


“Minha fotografia é um reflexo que ganha vida na ação e leva à meditação. A espontaneidade – o momento suspenso – intervém durante a ação, no visor ocular” Abbas Attar

Em sua biografia no site da Magnum Photos, agência que integra desde os anos 1980, Abbas Attar é descrito como um fotógrafo nato. Iraniano radicado em Paris, dedica boa parte de sua existência à documentação da vida política e social em sociedades em conflito. O corpo principal de seu trabalho consiste na cobertura de guerras e revoluções em Biafra, Bangladesh, Irlanda do Norte, Vietnã, Oriente Médio, Chile, Cuba e África do Sul durante o Apartheid.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Nascido em 1941, Abbas foi membro da Sipa, de 1971 a 1973, e da Gamma, de 1974 a 1980. Ingressou na Magnum em 1981, tornou-se um membro em 1985 e, hoje, é o vice-presidente da sede parisiense da agência. Para muitos, o que mais chama a atenção em suas imagens é o rigor da composição, que parece sempre cuidadosamente elaborada, mesmo em situações extremas. Tal precisão consiste em uma das mais controversas e emblemáticas características do Fotojornalismo: espanta tanto pela crueza quanto pela beleza quase ofensiva que consegue conferir ao caos.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

De 1978 a 1980, Abbas fotografou a revolução no Irã, para onde voltou em 1997 após 17 anos de expatriação voluntária. Seu livro Iran Diary 1971-2002(2002) é uma interpretação crítica da história do local, clicada e escrita como um diário pessoal. Durante esses anos de exílio, viajou constantemente. Entre 1983 e 1986, ingressou em uma jornada pelo México com a intenção de “fotografar um país da mesma maneira que alguém escreveria um romance sobre ele”. O resultado foi a exibição e o livro Return to Mexico: Journeys Beyond the Mask (1992) (algo como “Retorno ao México: Jornadas Através da Máscara”, em livre tradução), que ajudou a delinear ainda mais precisamente sua estética fotográfica. Nas palavras dele, ao contrário do escritor, que possuí a palavra, o fotógrafo é possuído por sua fotografia, pelos limites da realidade que deve transcender se não quiser se tornar seu prisioneiro.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Abbas sempre possuiu uma preocupação fundamental com a questão da religião. De 1987 a 1994, seu foco foi o ressurgimento do Islã em todo o mundo. O livro e a subsequente exposição Allah O Akbar: A Journey Through Militant Islam (1994), focados no Islã militante, passaram por 29 países e quatro continentes, atraindo ainda mais atenção mundial após os ataques de 9/11 por jihadistas islâmicos nos Estados Unidos. Faces of Christianity: A Photographic Journey (2000), obra posterior, voltou-se ao cristianismo, explicando-o como um fenômeno político, ritual e espiritual.

 

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Seu interesse por religião o levou, em 2000, a iniciar um projeto sobre Animismo no qual procurou descobrir como um ritual irracional havia reemergido em um mundo cada vez mais definido pela ciência e a tecnologia. Abandonou a empreitada em 2002, no aniversário dos atentados às Torres Gêmeas, para começar um projeto de longo prazo sobre o choque de religiões, definidas, segundo ele, mais pela cultura do que pela fé. Para Abbas, essas crenças revisitadas ganham formatos de ideologia e são fontes das lutas estratégicas mais emblemáticas do mundo contemporâneo.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

De 2008 a 2010, viajou pelo mundo do Budismo, fotografando-o com o mesmo olhar cético que marcou todo o seu trabalho e que pautaria, também, um projeto similar sobre Hinduísmo iniciado no ano passado e ainda em andamento.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.