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Archive for outubro, 2012

30
out

A fábrica de mulheres de Cindy Sherman

Autorretrato de Cindy Sherman.

Cindy Sherman tornou-se famosa pelas imagens que faz de si mesma. Embora seja a protagonista de todas elas, essas fotografias não cabem na definição autorretrato: mostram, ao invés de sua verdadeira face, personagens construídos e incorporados por ela que suscitam uma série de reflexões. Ao longo de sua carreira, explorou de forma eloquente e provocadora a construção da identidade contemporânea na arte através de representações elaboradas a partir de uma ilimitada oferta de imagens (em revistas, programas de televisão, filmes, internet e imagens clássicas). Este ano, ao receber uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), Sherman foi definitivamente festejada como uma das mais influentes e relevantes artistas da cena atual. Na previsão da curadora, Eva Respini, em um futuro breve será comparada a nomes como Andy Warhol e Pedro Almodóvar.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Com imagens ambíguas e ecléticas, Sherman desenvolveu um estilo único. Não é responsável apenas pela fotografia, mas pelo conceito e pela construção de todas essas imagens, da produção ao figurino, da maquiagem às locações, da idealização à performance. Por esse aspecto de sua obra, o professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Raul Krebs a utilizou como referência em uma aula de Projeto. Ao elaborarem seus trabalhos de conclusão, os estudantes podem muitas vezes se deparar com a dificuldade de, além de toda a responsabilidade dos cliques, terem de assumir múltiplas funções. Além disso, defende Raul, Sherman pode servir de inspiração pelo fato de que transformou o olhar fotográfico. “Ela fotografou a vida cotidiana e fez autorretratos sob lentes ‘femininamente distorcidas’, produzindo imagens por vezes grotescas e delicadas ao mesmo tempo”, desvenda.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Ao escolher sua própria figura como foco de suas imagens, Sherman utiliza-se como meio para enviar uma mensagem, tecendo comentários sobre uma série de questões do mundo moderno, como a visão estereotipada do sexo feminino e o papel do artista. Nascida em 1957 em Nova Jersey, estudou artes na State University College at Buffalo. Desiludida com as limitações da pintura, migrou para a fotografia no final do curso. Foi após a graduação que mudou-se para Nova Iorque, no final dos anos 1970, e começou a tirar fotos de si mesma em um loft alugado, dando vazão à veia camaleônica que a tornaria conhecida. A inspiração para as personagens foram atrizes de filmes B, arquétipos da mulher, dona de casa, prostituta, professora, dançarina. Intituladas Untitled Film Stills, foram consideradas grotescas e perturbadoras por muita gente. Mostravam, com um misto de imaginação e ficção, aquela que se tornaria uma de suas prerrogativas: a arte na fotografia não precisa ser esteticamente agradável.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Para muitos, também, trata-se de um trabalho que critica a sociedade contemporânea por obrigar seus membros a escolherem personas e estereótipos a serem vividos diariamente ao invés de estimulá-los na busca por sua verdadeira identidade. Com um arsenal de perucas, roupas, próteses e adereços, Sherman altera seu físico de forma hábil, criando uma infinidade de quadros vivos e personagens intrigantes, por vezes com doses de humor. Para Raul, vale a pena conferir seu trabalho por se tratar de algo altamente relevante pra fotografia no mundo: “Ela influenciou e influencia muito a fotografia de hoje. Mantém-se atual e pode inspirar tanto sonhos quanto fotografias. Talvez as duas coisas juntas”.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

26
out

“Se você consegue sentir o cheiro da rua olhando para a foto, é uma fotografia de rua” Bruce Gilden

Retrato de Bruce Gilden. 1998.

Nascido em 1946 e membro da Magnum desde 1998, Bruce Gilden é um fotógrafo de rua conhecido por tirar fotos muito de perto. De acordo com o próprio, quanto mais velho ele fica, mais ele se aproxima.

Se a cidade de Nova Iorque é uma das grandes protagonistas desse blog, sede da cena vanguardista que buscava legitimar a fotografia como arte nos anos 1920 e, ainda hoje, um dos pontos mais efervescentes para amantes do ofício, Gilden é certamente um nome cujo trabalho é quase inexorável da cidade: sua inspiração é justamente a complexidade da grande metrópole moderna. Nascido e criado no Brooklyn, desenvolveu um olho afiado para observar comportamentos e padrões urbanos. Estudou Sociologia, mas seu interesse em fotografia cresceu após assistir o longa Blow-Up (1966), de Michelangelo Antonioni. A partir daí, começou a estudar à noite (e a sério) na New York School of Arts.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

Sua curiosidade e fascinação por personagens fortes e peculiaridades individuais está presente em seu trabalho desde o início da carreira. Seu primeiro grande projeto, no qual trabalhou até 1986, tinha como foco Coney Island e os figurões que desfilam pela legendária praia nova-iorquina. Nos primórdios, Gilden também se dedicou a fotografar New Orleans no famoso festival Mardi Gras. Saiu da cidade em 1984 para trabalhar no Haiti, instigado principalmente pelos rituais de vudu.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

Em junho de 1998, Gilden integrou o time da Magnum e voltou às raízes, reaproximando-se dos espaços urbanos, em especial das ruas de Nova Iorque. Esse trabalho culminou na publicação Facing New York (1992), e, mais tarde, em A Beautiful Catastrophe (2005). Mais perto do que nunca de seus assuntos, estabeleceu um estilo expressivo e teatral que muitas vezes parece ao público uma vasta “comédia dos costumes”. Para ele, Manhattan mudou fundamentalmente desde que começou a fotografar. Nas palavras dele, está mais homogênea do que em 1981, “o lugar era mais maluco. Hoje, parece a Disney”.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

Em um vídeo publicado no YouTube, é possível desvendar seu método. Ele literalmente surpreende os retratados com o flash e a câmera no meio da rua. “As pessoas acham que eu não estou as fotografando, porque é muito rápido, parece que minha intenção é clicar o que está atrás delas”, explica. Para Gilden, o uso do flash é importante porque ele ajuda a visualizar seus sentimentos em relação a cidade: a energia, o stress, o movimento. “O que vejo são muitas pessoas andando totalmente perdidas em seus pensamentos. Elas não estão pretando atenção”. Sobre a predileção pelo preto e branco, é enfático: “Eu vejo em preto e branco”.

Recentemente, seu projeto After the Off, com textos do escritor irlandês Dermot Healey, explorou a Irlanda rural e sua mania de corridas de cavalos. Outro livro com enfoque estrangeiro, Go, consiste um olhar penetrante no lado escuro do Japão, com seus moradores de rua, quadrilhas e máfia, ocasionalmente contornados por clássicos clichês visuais da cultura nipônica.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

24
out

Zé Paiva lança o livro “Expedição Natureza: Tocantins”

Retrato de Zé Paiva. Foto: Henrique Wallau/Espm-Sul.

Depois de desvendar e eternizar em imagens a flora e a fauna de Santa Catarina (2005) e Rio Grande do Sul (2008), o fotógrafo de natureza e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Zé Paiva focou seu projeto “Expedição Natureza” em um novo território brasileiro rico em belezas naturais: Tocantins. O resultado de 62 dias descobrindo o estado com sua câmera rendeu mais de 10 mil imagens, e 156 fazem parte do livro Expedição Natureza: Tocantins (2012), que será lançado em sessão de autógrafos no dia 25 de outubro no Palácio Araguaia, sede do governo do Tocantins. No mesmo dia e local, o fotógrafo inaugura a exposição, com 47 imagens sob curadoria de Rosely Nakagawa, em exibição até o dia 25 de novembro.

Tocantins é o mais novo dos estados brasileiros – foi fundado apenas em 5 de outubro de 1981 –, mas há nele muito o que fotografar, como os mosaicos de vegetação mais conservados do país e a gigantesca Bacia Tocantins-Araguaia. A ideia, Paiva conta, surgiu durante uma viagem de férias, quando visitava o estado junto com a autora dos textos, a doutora em gestão ambiental Adriana Dias Trevisan. Ainda de acordo com ele, o objetivo da obra era unir ciência e arte, ciência nas informações do texto e arte na interpretação autoral dos lugares visitados.

Vista aérea do Parque Nacional do Araguaia, Rio Javaes e Ilha do Bananal, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.

Garça-moura (Ardea cocoi) no Rio Javaes, Parque Nacional do Araguaia, Pium, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.

Um pouco dessa interpretação autoral, que, nas palavras de Paiva, consiste em “redesenhar a ecologia dos estados brasileiros”, pode ser vista, também, no blog que criou para registrar o universo dessas expedições, http://expedicaotocantins.wordpress.com. Nele, Paiva conta mais sobre a caminhada com ênfase na história das imagens e no contexto no qual foram feitas. Tudo sem poupar detalhes particulares da experiência, em primeira pessoa. É possível familiarizar-se com os personagens encontrados e com uma rotina que envolve episódios como o encontro de um bando de macacos-prego e de abacaxis minúsculos, que mais parecem miniaturas.

No livro, o leitor conhecerá unidades de conservação como o Parque Nacional do Araguaia, o Parque Estadual do Jalapão, o Parque Estadual do Cantão, a Estação Ecológica da Serra Geral, o Parque Estadual da Serra da Cangalha (ainda em fase de criação), o Monumento Natural de Árvores Fossilizadas e a Reserva Extrativista do Extremo Norte. A obra também será lançada em outros locais do Brasil, chegando em Porto Alegre no dia 12 de novembro. Por aqui, o autor receberá o público para uma sessão de autógrafos a partir das 20h na loja FNAC.

Morro do Fumo, Estacao Ecologica da Serra Geral, Rio da Conceicao, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.

Chuva no Rio Javaes, Parque Nacional do Araguaia, Pium, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.