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Archive for outubro, 2012

30
out

A fábrica de mulheres de Cindy Sherman

Autorretrato de Cindy Sherman.

Cindy Sherman tornou-se famosa pelas imagens que faz de si mesma. Embora seja a protagonista de todas elas, essas fotografias não cabem na definição autorretrato: mostram, ao invés de sua verdadeira face, personagens construídos e incorporados por ela que suscitam uma série de reflexões. Ao longo de sua carreira, explorou de forma eloquente e provocadora a construção da identidade contemporânea na arte através de representações elaboradas a partir de uma ilimitada oferta de imagens (em revistas, programas de televisão, filmes, internet e imagens clássicas). Este ano, ao receber uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), Sherman foi definitivamente festejada como uma das mais influentes e relevantes artistas da cena atual. Na previsão da curadora, Eva Respini, em um futuro breve será comparada a nomes como Andy Warhol e Pedro Almodóvar.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Com imagens ambíguas e ecléticas, Sherman desenvolveu um estilo único. Não é responsável apenas pela fotografia, mas pelo conceito e pela construção de todas essas imagens, da produção ao figurino, da maquiagem às locações, da idealização à performance. Por esse aspecto de sua obra, o professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Raul Krebs a utilizou como referência em uma aula de Projeto. Ao elaborarem seus trabalhos de conclusão, os estudantes podem muitas vezes se deparar com a dificuldade de, além de toda a responsabilidade dos cliques, terem de assumir múltiplas funções. Além disso, defende Raul, Sherman pode servir de inspiração pelo fato de que transformou o olhar fotográfico. “Ela fotografou a vida cotidiana e fez autorretratos sob lentes ‘femininamente distorcidas’, produzindo imagens por vezes grotescas e delicadas ao mesmo tempo”, desvenda.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Ao escolher sua própria figura como foco de suas imagens, Sherman utiliza-se como meio para enviar uma mensagem, tecendo comentários sobre uma série de questões do mundo moderno, como a visão estereotipada do sexo feminino e o papel do artista. Nascida em 1957 em Nova Jersey, estudou artes na State University College at Buffalo. Desiludida com as limitações da pintura, migrou para a fotografia no final do curso. Foi após a graduação que mudou-se para Nova Iorque, no final dos anos 1970, e começou a tirar fotos de si mesma em um loft alugado, dando vazão à veia camaleônica que a tornaria conhecida. A inspiração para as personagens foram atrizes de filmes B, arquétipos da mulher, dona de casa, prostituta, professora, dançarina. Intituladas Untitled Film Stills, foram consideradas grotescas e perturbadoras por muita gente. Mostravam, com um misto de imaginação e ficção, aquela que se tornaria uma de suas prerrogativas: a arte na fotografia não precisa ser esteticamente agradável.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Para muitos, também, trata-se de um trabalho que critica a sociedade contemporânea por obrigar seus membros a escolherem personas e estereótipos a serem vividos diariamente ao invés de estimulá-los na busca por sua verdadeira identidade. Com um arsenal de perucas, roupas, próteses e adereços, Sherman altera seu físico de forma hábil, criando uma infinidade de quadros vivos e personagens intrigantes, por vezes com doses de humor. Para Raul, vale a pena conferir seu trabalho por se tratar de algo altamente relevante pra fotografia no mundo: “Ela influenciou e influencia muito a fotografia de hoje. Mantém-se atual e pode inspirar tanto sonhos quanto fotografias. Talvez as duas coisas juntas”.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

Foto: Cindy Sherman.

26
out

“Se você consegue sentir o cheiro da rua olhando para a foto, é uma fotografia de rua” Bruce Gilden

Retrato de Bruce Gilden. 1998.

Nascido em 1946 e membro da Magnum desde 1998, Bruce Gilden é um fotógrafo de rua conhecido por tirar fotos muito de perto. De acordo com o próprio, quanto mais velho ele fica, mais ele se aproxima.

Se a cidade de Nova Iorque é uma das grandes protagonistas desse blog, sede da cena vanguardista que buscava legitimar a fotografia como arte nos anos 1920 e, ainda hoje, um dos pontos mais efervescentes para amantes do ofício, Gilden é certamente um nome cujo trabalho é quase inexorável da cidade: sua inspiração é justamente a complexidade da grande metrópole moderna. Nascido e criado no Brooklyn, desenvolveu um olho afiado para observar comportamentos e padrões urbanos. Estudou Sociologia, mas seu interesse em fotografia cresceu após assistir o longa Blow-Up (1966), de Michelangelo Antonioni. A partir daí, começou a estudar à noite (e a sério) na New York School of Arts.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

Sua curiosidade e fascinação por personagens fortes e peculiaridades individuais está presente em seu trabalho desde o início da carreira. Seu primeiro grande projeto, no qual trabalhou até 1986, tinha como foco Coney Island e os figurões que desfilam pela legendária praia nova-iorquina. Nos primórdios, Gilden também se dedicou a fotografar New Orleans no famoso festival Mardi Gras. Saiu da cidade em 1984 para trabalhar no Haiti, instigado principalmente pelos rituais de vudu.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

Em junho de 1998, Gilden integrou o time da Magnum e voltou às raízes, reaproximando-se dos espaços urbanos, em especial das ruas de Nova Iorque. Esse trabalho culminou na publicação Facing New York (1992), e, mais tarde, em A Beautiful Catastrophe (2005). Mais perto do que nunca de seus assuntos, estabeleceu um estilo expressivo e teatral que muitas vezes parece ao público uma vasta “comédia dos costumes”. Para ele, Manhattan mudou fundamentalmente desde que começou a fotografar. Nas palavras dele, está mais homogênea do que em 1981, “o lugar era mais maluco. Hoje, parece a Disney”.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

Em um vídeo publicado no YouTube, é possível desvendar seu método. Ele literalmente surpreende os retratados com o flash e a câmera no meio da rua. “As pessoas acham que eu não estou as fotografando, porque é muito rápido, parece que minha intenção é clicar o que está atrás delas”, explica. Para Gilden, o uso do flash é importante porque ele ajuda a visualizar seus sentimentos em relação a cidade: a energia, o stress, o movimento. “O que vejo são muitas pessoas andando totalmente perdidas em seus pensamentos. Elas não estão pretando atenção”. Sobre a predileção pelo preto e branco, é enfático: “Eu vejo em preto e branco”.

Recentemente, seu projeto After the Off, com textos do escritor irlandês Dermot Healey, explorou a Irlanda rural e sua mania de corridas de cavalos. Outro livro com enfoque estrangeiro, Go, consiste um olhar penetrante no lado escuro do Japão, com seus moradores de rua, quadrilhas e máfia, ocasionalmente contornados por clássicos clichês visuais da cultura nipônica.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

New York City. Foto: Bruce Gilden.

24
out

Zé Paiva lança o livro “Expedição Natureza: Tocantins”

Retrato de Zé Paiva. Foto: Henrique Wallau/Espm-Sul.

Depois de desvendar e eternizar em imagens a flora e a fauna de Santa Catarina (2005) e Rio Grande do Sul (2008), o fotógrafo de natureza e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Zé Paiva focou seu projeto “Expedição Natureza” em um novo território brasileiro rico em belezas naturais: Tocantins. O resultado de 62 dias descobrindo o estado com sua câmera rendeu mais de 10 mil imagens, e 156 fazem parte do livro Expedição Natureza: Tocantins (2012), que será lançado em sessão de autógrafos no dia 25 de outubro no Palácio Araguaia, sede do governo do Tocantins. No mesmo dia e local, o fotógrafo inaugura a exposição, com 47 imagens sob curadoria de Rosely Nakagawa, em exibição até o dia 25 de novembro.

Tocantins é o mais novo dos estados brasileiros – foi fundado apenas em 5 de outubro de 1981 –, mas há nele muito o que fotografar, como os mosaicos de vegetação mais conservados do país e a gigantesca Bacia Tocantins-Araguaia. A ideia, Paiva conta, surgiu durante uma viagem de férias, quando visitava o estado junto com a autora dos textos, a doutora em gestão ambiental Adriana Dias Trevisan. Ainda de acordo com ele, o objetivo da obra era unir ciência e arte, ciência nas informações do texto e arte na interpretação autoral dos lugares visitados.

Vista aérea do Parque Nacional do Araguaia, Rio Javaes e Ilha do Bananal, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.

Garça-moura (Ardea cocoi) no Rio Javaes, Parque Nacional do Araguaia, Pium, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.

Um pouco dessa interpretação autoral, que, nas palavras de Paiva, consiste em “redesenhar a ecologia dos estados brasileiros”, pode ser vista, também, no blog que criou para registrar o universo dessas expedições, http://expedicaotocantins.wordpress.com. Nele, Paiva conta mais sobre a caminhada com ênfase na história das imagens e no contexto no qual foram feitas. Tudo sem poupar detalhes particulares da experiência, em primeira pessoa. É possível familiarizar-se com os personagens encontrados e com uma rotina que envolve episódios como o encontro de um bando de macacos-prego e de abacaxis minúsculos, que mais parecem miniaturas.

No livro, o leitor conhecerá unidades de conservação como o Parque Nacional do Araguaia, o Parque Estadual do Jalapão, o Parque Estadual do Cantão, a Estação Ecológica da Serra Geral, o Parque Estadual da Serra da Cangalha (ainda em fase de criação), o Monumento Natural de Árvores Fossilizadas e a Reserva Extrativista do Extremo Norte. A obra também será lançada em outros locais do Brasil, chegando em Porto Alegre no dia 12 de novembro. Por aqui, o autor receberá o público para uma sessão de autógrafos a partir das 20h na loja FNAC.

Morro do Fumo, Estacao Ecologica da Serra Geral, Rio da Conceicao, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.

Chuva no Rio Javaes, Parque Nacional do Araguaia, Pium, Tocantins, Brasil. Foto: Zé Paiva.

19
out

Antropologia poética: Cristina García Rodero

Autorretrato de Cristina Garcia Rodero.

Nascida em 1949 em Puertollano, na Espanha, Cristina García Rodero é autora de importantes ensaios documentais e jornalísticos, valiosos por sua abordagem original, por sua veia antropológica e principalmente pela qualidade estética, responsável por torná-los mais do que meros registros. Pintora por formação, graduou-se na Universidade de Madri e se tornou professora. Por anos, a fotografia foi apenas um hobby: era somente em seu tempo livre que pesquisava e fotografava festas populares, religiosas e pagãs, ao redor da Espanha. O resultado desses anos de trabalho informal foi publicado em España Oculta (1989), que ganhou o prêmio “Book of the Year” no Arles Festival of Photography. A partir daí, Cristina tornou-se membro da Vu, onde está há mais de 15 anos, e, em 2009, integrou o time da Magnum, tornando-se a primeira fotógrafa espanhola da agência.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Fascinada por diferentes culturas, Rodero viaja o mundo para descobrir novos povos e suas tradições particulares. Durante quatro anos, foi diversas vezes ao Haiti, onde documentou romarias, orações e rituais de vudu, produzindo uma série de imagens extremamente expressivas. Publicadas em Rituals in Haiti (2001), exibido pela primeira vez em 2001, na Bienal de Veneza, são algumas dessas fotografias que ilustram este post.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Cristina também é autora do maior acervo fotográfico da Espanha. Em um repertório de mais de 200 mil fotografias, mostra sempre o espanhol como protagonista, ora de um local idealizado e tradicional, ora de cenários grotescos e assustadores. Os detalhes são sempre explorados de forma intuitiva, sem preconceitos ideológicos ou caráter político. Em suas palavras, o trabalho é fruto da tentativa de clicar o que há de verdadeiro, mágico e misterioso da alma popular na Espanha: “[...] os momentos mais intensos e mais amplos nas vidas desses personagens são tão simples quanto irresistíveis, com toda a sua força interior”.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Em entrevista à estudante Prakriti Bhanot, da Escola Internacional da Madri, Cristina falou sobre suas influências, afirmando que o francês Robert Doisneau é seu fotógrafo favorito, seguido por Henri Cartier-Bresson e William Klein. “Eles tiram as fotos do fundo do coração das crianças, pessoas e ruas”, define. À pedido da entrevistadora, a fotógrafa também deu um conselho aos jovens fotógrafos: saírem por seus países e conhecerem outros mundos, expondo-se ao inesperado e às diferenças. “Eles vão ver culturas e pessoas diversas e aprender que todos possuímos os mesmos anseios e medos, além de aprenderem mais sobre o que eles mesmos possuem. E o quanto estão perdendo”.

“Eu gosto de cores, bem como gosto de fotos em preto e branco. Cores adicionam sensualidade e felicidade. Em P&B, há um certo mistério porque é diferente da realidade. As cores nos distraem, e perdemos a profundidade”  Cristina García Rodero

Foto: Cristina Garcia Rodero.

Foto: Cristina Garcia Rodero.

17
out

Kadão entre os melhores do fotojornalismo brasileiro

Retrato de Ricardo "Kadão" Chaves. Foto: Dudu Contursi.

Em sua quarta edição, o livro O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro reúne imagens de importantes repórteres fotográficos do país, muitas delas premiadas no Brasil e no exterior, contemplando registros que vão de fatos cotidianos a acontecimentos marcantes. Entre os profissionais que assinam a versão 2012 do anuário, encontra-se o professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Ricardo Chaves, o Kadão, autor do ensaio Vidas Ausentes, publicado no jornal Zero Hora em 14 de novembro de 2010.

Finalista do Prêmio Esso em 2011, a reportagem mostra quartos vazios, mas com objetos e pertences de jovens do Rio Grande do Sul que tiveram a vida interrompida por acidentes de trânsito. Kadão conta que a ideia surgiu do diretor de redação da época, Ricardo Stefanelli, inspirado por uma matéria do The New York Times que mostrava quartos de soldados americanos mortos na Guerra do Iraque. “Ele achou o ensaio bastante interessante, impactante, e resolveu adaptar para a nossa guerra, a guerra do trânsito, a que mais mata gente no Brasil”, relembra. Convertendo as estatísticas em histórias particulares, a reportagem trouxe a tona a transformação na vida dos pais após a tragédia.

Vidas Ausentes. Foto: Ricardo "Kadão" Chaves.

Vidas Ausentes. Foto: Ricardo "Kadão" Chaves.

Kadão considera a matéria uma das mais duras de sua carreira. Desafiada a encontrar quartos de vitimas do trânsito mantidos intactos pelos pais, a repórter que assina o texto, Kamila Almeida, entrou em contato com mais de 100 famílias até encontrar pessoas que preservassem o quarto de seus filhos quase exatamente como eles haviam deixado – e que ainda estivessem dispostas a falar sobre o assunto. No jornal impresso, foi publicada apenas a imagem, uma por página, com uma pequena legenda. Mas, Kadão conta, aproveitando as novas mídias, os dois acharam que deveriam pegar um depoimento dos pais. “Como acreditamos que seria cruel editar um vídeo explorando a dor da pessoa, solucionamos com um slideshow, gravando depoimentos e cobrindo com fotografias. Eu não achei que seria tão difícil fazer, mas muitas vezes acabávamos o trabalho abraçados aos pais, chorando junto”.

Com apoio do Grupo RBS e Fundação Thiago Gonzaga, o ensaio foi transformado em conteúdo para a prevenção de acidentes e exposição itinerante. Depois de 30 dias no Shopping Iguatemi, na Capital, passou por diversas cidades gaúchas em 2011. Criado em 2008, O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro tem como objetivo servir como referência dentro e fora do país. Além de homenagear os fotojornalistas que labutam no cotidiano das redações, busca preservar seus melhores cliques para que sirvam de exemplo aos profissionais iniciantes. A edição deste ano contempla mais de 200 imagens de 96 repórteres fotográficos de revistas, jornais e agências do Brasil.

Na última quinta-feira, 11 de outubro, Kadão realizou sua já tradicional aula na sede de Zero Hora, jornal no qual iniciou sua carreira no fim dos anos 1960 e onde, hoje, trabalha há 20 anos. Os alunos puderam conhecer na prática a rotina de trabalho de um fotojornalista dentro da redação: como são organizadas as pautas, a compra de imagens em agências, o arquivo de fotografias do jornal, etc.

Foto: Camilo Santa Helena.

Foto: Camilo Santa Helena.

 

11
out

As jornadas políticas, sociais e religiosas de Abbas

Autorretrato de Abbas Attar.


“Minha fotografia é um reflexo que ganha vida na ação e leva à meditação. A espontaneidade – o momento suspenso – intervém durante a ação, no visor ocular” Abbas Attar

Em sua biografia no site da Magnum Photos, agência que integra desde os anos 1980, Abbas Attar é descrito como um fotógrafo nato. Iraniano radicado em Paris, dedica boa parte de sua existência à documentação da vida política e social em sociedades em conflito. O corpo principal de seu trabalho consiste na cobertura de guerras e revoluções em Biafra, Bangladesh, Irlanda do Norte, Vietnã, Oriente Médio, Chile, Cuba e África do Sul durante o Apartheid.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Nascido em 1941, Abbas foi membro da Sipa, de 1971 a 1973, e da Gamma, de 1974 a 1980. Ingressou na Magnum em 1981, tornou-se um membro em 1985 e, hoje, é o vice-presidente da sede parisiense da agência. Para muitos, o que mais chama a atenção em suas imagens é o rigor da composição, que parece sempre cuidadosamente elaborada, mesmo em situações extremas. Tal precisão consiste em uma das mais controversas e emblemáticas características do Fotojornalismo: espanta tanto pela crueza quanto pela beleza quase ofensiva que consegue conferir ao caos.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

De 1978 a 1980, Abbas fotografou a revolução no Irã, para onde voltou em 1997 após 17 anos de expatriação voluntária. Seu livro Iran Diary 1971-2002(2002) é uma interpretação crítica da história do local, clicada e escrita como um diário pessoal. Durante esses anos de exílio, viajou constantemente. Entre 1983 e 1986, ingressou em uma jornada pelo México com a intenção de “fotografar um país da mesma maneira que alguém escreveria um romance sobre ele”. O resultado foi a exibição e o livro Return to Mexico: Journeys Beyond the Mask (1992) (algo como “Retorno ao México: Jornadas Através da Máscara”, em livre tradução), que ajudou a delinear ainda mais precisamente sua estética fotográfica. Nas palavras dele, ao contrário do escritor, que possuí a palavra, o fotógrafo é possuído por sua fotografia, pelos limites da realidade que deve transcender se não quiser se tornar seu prisioneiro.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Abbas sempre possuiu uma preocupação fundamental com a questão da religião. De 1987 a 1994, seu foco foi o ressurgimento do Islã em todo o mundo. O livro e a subsequente exposição Allah O Akbar: A Journey Through Militant Islam (1994), focados no Islã militante, passaram por 29 países e quatro continentes, atraindo ainda mais atenção mundial após os ataques de 9/11 por jihadistas islâmicos nos Estados Unidos. Faces of Christianity: A Photographic Journey (2000), obra posterior, voltou-se ao cristianismo, explicando-o como um fenômeno político, ritual e espiritual.

 

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Seu interesse por religião o levou, em 2000, a iniciar um projeto sobre Animismo no qual procurou descobrir como um ritual irracional havia reemergido em um mundo cada vez mais definido pela ciência e a tecnologia. Abandonou a empreitada em 2002, no aniversário dos atentados às Torres Gêmeas, para começar um projeto de longo prazo sobre o choque de religiões, definidas, segundo ele, mais pela cultura do que pela fé. Para Abbas, essas crenças revisitadas ganham formatos de ideologia e são fontes das lutas estratégicas mais emblemáticas do mundo contemporâneo.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

De 2008 a 2010, viajou pelo mundo do Budismo, fotografando-o com o mesmo olhar cético que marcou todo o seu trabalho e que pautaria, também, um projeto similar sobre Hinduísmo iniciado no ano passado e ainda em andamento.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

Foto: Abbas Attar / Magnum.

9
out

Raul Krebs vence o NY Photo Awards

Retrato de Raul Krebs.

O fotógrafo e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul Raul Krebs está entre os grandes vencedores do NY Photo Awards 2012, premiação internacional que desde 2008 celebra o trabalho de fotógrafos profissionais e amadores de diversas áreas. Depois de receber menção honrosa em todas as edições anteriores do prêmio, e ficar entre os finalistas no ano passado, Krebs é o autor da melhor foto na categoria Advertising.

“Body Shirt”, algo como “camiseta corpo”, foi feita há cerca de um ano pela DCS em uma campanha para Cintia Gym, uma academia com serviços de personal trainer. De acordo com Krebs, trata-se de uma peça feita com a intenção de se sobressair: o objetivo era justamente inscrevê-la em festivais. “O projeto foi focado em Cannes, o desejo era dar visibilidade para a agência”, relembra. A direção de arte foi feita por João Pedro Vargas e a bem sucedida pós-produção pelo estúdio M1. As duas versões do anúncio foram inscritas, mas a masculina foi a grande vencedora.

Body Shirt. Foto: Raul Krebs.

Body Shirt. Foto: Raul Krebs.

A execução da imagem foi relativamente rápida, o foco estava na pré e na pós-produção. Para Raul, o desenho de luz é o que melhor imprime sua assinatura na foto, além de se tratar de uma de suas melhores características. Foi necessário enfatizar tanto a anatomia dos músculos, a beleza do corpo, quanto considerar a futura existência do cabide e de elementos da camiseta. “A pós-produção foi extremamente bem sucedida por preservar a luz e a textura da pele. Esse tratamento pode tanto ajudar o trabalho do fotógrafo quanto comprometer. Neste caso, auxiliou”, afirma. Krebs ainda ressalta que a pré-produção, feita de forma coletiva, foi extremamente importante, em especial no momento de escolha dos corpos que seriam clicados. Para ele, a criação foi forte e a execução, sem falsa modéstia, impecável.

Raul conta que mesmo que a sensação de estar entre os finalistas e as menções honrosas fossem ótimas, ganhar o prêmio foi totalmente diferente. “Surgem matérias em blogs internacionais, meu portfólio entrou em sites especializados… Tenho acesso a outros tipos de público e de clientes, além de sair no livro [powerHouse Magazine: The Future of Contemporary Photography, que será lançado em 2013. Isso sem falar que se trata de um prêmio internacional”, comemora.

As imagens vencedoras estão expostas na The powerHouse Arena, em Nova Iorque, até amanhã. Como fotógrafo publicitário, Raul já recebeu outros diversos prêmios e participou de livros e anuários. Foi finalista do Prêmio Conrado Wessel de Fotografia Publicitária em 2005 e 2006 e já foi eleito o Fotógrafo do Ano no Salão da Propaganda ARP em 1996 e 2004.

5
out

As nuances de Tepito, por Adriana Zehbrauskas

Retrato de Adriana Zehbrauskas.

Nascida em São Paulo, Adriana Zehbrauskas é uma das mais importantes fotógrafas brasileiras. Formada em Comunicação – e em Linguística e Fonética pela Sorbonne, em Paris –, trabalhou no jornal Folha de São Paulo durante 11 anos, nos quais viajou extensivamente pelo Brasil e o mundo. Agora, mora na Cidade do Mexico, onde trabalha como freelancer e contribui regularmente para importantes veículos, como The Guardian e The New York Times. São as imagens de um de seus mais importantes e recentes ensaios feitos por lá, Tepito (2011), que ilustram este post.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Localizado no coração da Cidade do México, Tepito concentra em dez quarteirões milhares de contradições. Formando um mosaico de cores gritantes, comércio, crime, vendedores ambulantes, traficantes e cidadãos comuns disputam espaço em ruas estreitas e de leis próprias. Conhecido como “Barrio Bravo”, o local possui uma longa tradição de desafio à autoridade e péssima reputação por conta de seus altos índices de violência. É considerado, para muitos, um mundo à parte, caótico e sem leis – e costumam dizer que os moradores de lá têm mais dificuldade em conseguir empregos. De forma clara, crua e com extrema definição, as imagens de Zehbrauskas revisitam seus personagens e cenários de forma extremamente próxima, quase íntima, penetrando em um mundo onde forasteiros costumam dificuldade de entrar.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas..

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Para inúmeros moradores de outros cantos da cidade, trata-se da visão do inferno. Um bairro onde a pirataria é tão comum que o próprio conceito de autenticidade parece sem sentido; onde entregas de drogas são feitas por meninos que fumam charutos e apenas um tipo de policial é temido: o honesto. Além de captar esse segmento mais gritante da essência de Tepito, as imagens de Zehbrauskas retratam lados menos conhecidos da vizinhança. Gerações nascidas e criadas no local ainda apresentam orgulhosos vestígios de um tempo em que tudo era diferente. Durante muitos anos, ainda sem alto influxo de traficantes e outros criminosos, Tepito era uma comunidade conhecida por características bem diferentes das que chamam a atenção hoje em dia. Sua comunidade era intensamente unida, amiga e trabalhadora. Clubes esportivos, igrejas e galerias de arte de outrora que ainda resistem representam o que resta dessa era.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Em seus cliques, Zehbrauskas capta, também, um dos mais fortes elementos sociais da vida cotidiana no local: a religião. Por lá, crenças católicas tradicionais cedem espaço ao poderoso culto da Santa Muerte, esqueleto feminino macabro cujas origens remetem à era pré-colombiana do México. Adorada tanto por membros do crime organizado quanto por cidadãos comuns, é a ela que os moradores oram. Seja pela recuperação de pertences roubados, da saúde ou de familiares sequestrados.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

Tepito. Foto: Adriana Zehbrauskas.

2
out

CCMQ sedia Nephilins, de Paula Fiori com curadoria de Clóvis Dariano

Paula Fiori. Foto: Schari Kozak.

A Casa de Cultura Mário Quintana (CCMQ) sedia até o dia 21 de outubro a exposição Nephilins, de Paula Fiori com curadoria de Clóvis Dariano. Formada em 2010 pelo Centro de Fotografia da ESPM-Sul, Paula teve seu trabalho selecionado no 2º Prêmio IEAVi de incentivo à produção de artes visuais. As imagens, expostas na Fotogaleria Virgílio Calegari, revisitam a história de Porto Alegre ao retratarem as estátuas construídas no fim do século 19 e início do século 20 localizadas no Centro da Capital.

Atlante Jovem. Foto: Paula Fiori.

Atlante do Velho Mundo. Foto: Paula Fiori.

Nascida em Erechim, Paula sempre teve a fotografia como meio de expressão, de compreensão da realidade e, em suas palavras, até mesmo de crescimento pessoal. Foi depois de 18 anos em seu ramo de origem, a Terapia Ocupacional, que decidiu optar em definitivo pela fotografia como profissão. Na época, estudava no Centro de Fotografia na ESPM-Sul e começava a entrar em contato com o reduto multifacetado do ofício, com seus inúmeros meios de atuação. Além da fotografia artística, inclinou-se para o fotojornalismo. Trabalhou durante quatro anos no staff do Palácio Piratini atendendo ao Governo do Estado e, justamente em meio a agitada rotina desse serviço, encontrou tempo e inspiração para fotografar as estátuas de Nephilins.

Guardião. Foto: Paula Fiori.

Guerreiro. Foto: Paula Fiori.

“O projeto estava em seu subconsciente”, conta Paula, “quando era criança, visitava Porto Alegre com meus pais e eles se hospedavam na Casa de Cultura Mario Quintana, na época, ainda Hotel Majestic”. Ao passear pela Rua da Praia de mãos dadas com a mãe, impressionava-se com o semblante, a roupa e o tamanho das estátuas que adornavam o Centro Histórico. “Por que elas eram assim? Pareciam deuses, anjos, eram misteriosas, emblemáticas. Não havia nada parecido com elas na minha cidade”, relembra. Agora, é justamente na CCMQ que sua visão e interpretação dessas estátuas está exposta.

Quando o período do TCC no Curso Avançado de Fotografia se aproximou, Paula optou por esse conteúdo cheio de significado, já orientada por Clóvis Dariano, e iniciou sua pesquisa histórica. Entre os especialistas da área com os quais teve contato, destaca o professor Arnoldo Doberstein, cuja tese de doutorado foi exclusivamente sobre a estatuária porto-alegrense. “Se eu já gostava das estátuas, foi aí que terminei de me apaixonar. Elas realmente não estão ali por acaso, bem como seu conteúdo prático. Tudo nelas, do tecido da roupa à pose, tem um por quê”.

Portal de Demetér. Foto: Paula Fiori.

Portal de Hermes. Foto: Paula Fiori.

Pertencentes à herança do Positivismo, teoria do sociólogo francês Auguste Comte que teve excepcional adesão no Rio Grande do Sul, essas estátuas foram construídas seguindo a lógica de industrialização e progresso que marcou a transição para o século 20 no mundo. Vibrantes com a implantação da República, os gaúchos detentores do poder econômico e político faziam da arquitetura um meio tanto de autoafirmação quanto de comunicação com a classe subordinada. Como conta Paula, as estátuas eram equivalentes aos outdoors de hoje. Nelas, as figuras de semideuses eram feitas para os próprios poderosos se vangloriarem. Já aquelas que carregam mundos nas costas representavam a classe trabalhadora – daí seu rosto sereno, de resignação e plenitude, em contraste com o físico, repleto de músculos, força de trabalho. Em suas imagens, Paula as descontextualiza para que sejam percebidas em toda a sua magnitude e com todos os detalhes que foram cuidadosamente projetadas para ter. A fim de conseguir a definição necessária para mostrar tais características, só pôde fotografar em dias nublados, com luz natural difusa.

Gaia. Foto: Paula Fiori.

Ariadne. Foto: Paula Fiori.

O nome Nephilins, termo proveniente do latim, tem diversos significados e foi escolhido por um em especial: gigantes. “Na época, a lógica de construção pedia que elas fossem feitas em escala colossal, maiores em relação à estrutura em que estavam sendo fixadas”, conta. Para Paula, o nome também reafirma que elas eram tão gigantes em sua concepção espacial quanto em seu significado. Mais tarde, quando Porto Alegre é tomada por arranha-céus e torna-se uma metrópole de prédios suntuosos no estilo parisiense, a estatuária é abandonada. Extremamente deterioradas, elas resistem até hoje como legado histórico. E gigantes, mesmo sem nenhum programa de restauro ou reparo.

Com uma generosa dose de gratidão, Paula também faz do nome um tributo a Dariano e Manuel da Costa, definidos por ela como seus “Nephilins maiores”, professores e fontes de inspiração.

Nephilins, por Paula Fiori
Exposição do 2º Prêmio IEAVi – Incentivo à produção de Artes Visuais
Local: Fotogaleria Virgílio Calegari (7º andar)
Visitação: até 21 de outubro, segundas, a partir das 14h; de terças a sextas, das 9h e sábados, domingos e feriados, das 12h, com encerramento sempre 21h.