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Archive for agosto, 2012

16
ago

“Maddie on things”, por Theron Humphrey

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

Ao percorrer os Estados Unidos para um ambicioso projeto fotográfico, o fotógrafo Theron Humphrey deu início a outra inciativa autoral, paralela e bem mais despretensiosa. “Maddie on things” (algo como “Maddie nas coisas”) mostra sua fotogênica parceira de viagem, a cadela Maddie, da raça Coonhound, posando em cima de lugares estranhos e incomuns. Ao conferí-la equilibrando-se entre carrinhos de supermercado, no topo de uma grande pilha de malas coloridas ou embaixo da ponte Golden Gate, lembramos imediatamente do artista William Wegman. Fotógrafo, pintor e cineasta, tem as séries fotográficas com cães da raça Weimaraner como seu trabalho mais conhecido.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

Wegman fotografava seus cães, em especial o primeiro deles, Man Ray, em poses que pareciam dirigidas — bem como as imagens que Humprey faz de sua Maddie. A ideia surgiu justamente da predileção natural da cachorrinha por escalar lugares difíceis e se apoiar em estruturas improváveis. Nas palavras do autor, a ideia pode ser definida divertidamente como “um projeto supersério sobre cachorros e física”.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

A iniciativa começou quando Humphrey decidiu visitar todos os 50 estados dos Estados Unidos durante o período de um ano. Intitulado “This Wild Idea” (“esta ideia selvagem”, em livre tradução), o projeto tinha como objetivo contar histórias através de fotografias, e em cada um dos 365 de viagem ele conversaria com um personagem americano diferente. Com a ferramenta de financiamento colaborativo Kickstarter, Humphrey conseguiu verba para dar início a jornada, tendo Maddie como sua fiel companheira. Para ele, trata-se de uma maneira de utilizar a fotografia para celebrar a vida cotidiana.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

Nascido e criado no Sul dos Estados Unidos, Humphrey estudou nas Appalachian Mountains, onde começou a fotografar de forma autodidata. Apaixonado pelas possibilidades que atividade o traria se adotada como profissão, formou-se no Savannah College of Art and Design e começou a trabalhar com fotografia comercial em estúdio até, um belo dia, sentir que deveria clicar outros assuntos e com outros propósitos — e aí nasceu “This Wild Idea”. Ao todo, foram mais de 63 milhas percorridas e quase 100 mil imagens.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

As fotografias que compõem o projeto estão disponíveis no site oficial, mas mesmo com inúmeros acessos e com mais de seis mil fãs no Facebook, foram as fotografias de sua cachorra que fizeram mais sucesso, protagonizando postagens em blogs e matérias sites do mundo inteiro. Semelhanças com a popularidade das imagens dos cães de William Wegman na época em que foram feitas não são mera coincidência.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

 

14
ago

Mestres da Fotografia: Edward Weston

Retrato de Edward Weston.

Se digitarmos “Edward Weston” no mecanismo de busca deste blog, encontraremos seu nome em postagens sobre diversos outros fotógrafos. Muitos deles conviveram com ele de forma direta, fazendo parte da cena vanguardista nova-iorquina da década de 1920. Outros integram o grupo intensamente inspirado. Reconhecido como um dos mestres da fotografia do século 20, tem em seu legado milhares de imagens cuidadosamente compostas e impressas que influenciam profissionais do meio por quase um século.

Utilizando câmeras de grande formato e luz natural, ou apenas a iluminação disponível, registrou paisagens e objetos de forma pictórica, dando ares abstratos a conchas, pedras, dunas, alimentos. Para muitos, construía suas imagens com o objetivo de elevá-las ao nível da poesia — e sempre de forma sensual. A exploração da sutileza de tons e do design escultural das formas fizeram com que suas obras se tornassem uma referência de estudo dentro da prática fotográfica. Como dito pelo também fotógrafo Ansel Adams, “Weston é, no sentido real, um dos poucos artistas criativos de nosso tempo. Ele recria a matéria e as forças da natureza, fazendo com que suas formas representem a unidade fundamental do mundo. Seu trabalho ilumina a jornada interna do homem até a perfeição do espírito”.

Foto: Edward Weston.

Artichoke. Foto: Edward Weston.

Americano nascido em Hightland Park, Illinois, e criado em Chicago, ganhou sua primeira câmera ainda na escola, uma Bull’s Eye #2, presente de seu pai em 1902. Começou a fotografar nos parques da cidade nos intervalos de seu trabalho como garoto de recados e vendedor. Em 1906, viajou para California, onde trabalhou de porta em porta como retratista. Nos anos seguintes estudou fotografia na Illinois College of Photography e passou verões em estúdios fotográficos até começar a operar em seu próprio, de 1911 a 1922. Rapidamente bem sucedido e premiado, passou a se sentir cada vez mais insatisfeito com seu trabalho depois de ver uma exibição de arte moderna na San Francisco World’s Fair, em 1915. Em 1920, fez os primeiros experimentos com as semi-abstrações que se tornariam uma de suas marcas.

Shell. Foto: Edward Weston.

Pepper. Foto: Edward Weston.

Em 1922, viajou para Nova Iorque, onde conheceu Alfred Stieglitz, Paul Strand, Georgia O’Keeffe e Charles Sheeler. Na época, visitou a usina de aço ARMCO, em Ohio, e fez imagens despretensiosas que simbolizariam um ponto de virada em sua carreira. Altamente realistas, representavam uma renúncia ao pictorialismo com uma nova ênfase no abstrato, nos detalhes, nas texturas e na nitidez. Mais tarde, escreveu em um de seus diários: “A câmera deve ser usada para a gravação da vida, para revelar a substância e a essência da coisa em si, seja ela de aço polido ou de carne palpitante”.

Mudou-se para a Cidade do México em 1923, onde abriu um estúdio com sua aprendiz e amante Tina Modotti. Muitos de seus mais conhecidos retratos de nus, paisagens e close-ups de formas da natureza foram feitos nesta época. Além de Modotti, que se tornaria uma renomada fotógrafa, Weston tornou-se amigo de artistas da Renascença Mexicana como Rivera, Siqueiros e Orozco, e todos o encorajaram a manter a direção estilística que tomava. Em 1924, abandonou o foco suave por completo e começou seu estudo preciso das formas naturais. Retornou a California em definitivo no ano de 1926.

Foto: Edward Weston.

Foto: Edward Weston.

Em parceria com seu filho Brett, abriu um estúdio em São Francisco em 1928, e no ano seguinte mudou-se para Carmel, onde começou a fotografar na área da praia de Point Lobos. Foi um dos membros fundadores do grupo f/64, em 1932, de fotógrafos como Ansel Adams, Willard Van Dyke, Imogen Cunningham e Sonya Noskowiak. A proposta do grupo para a fotografia artística estava sintetizada em seu nome, termo que designa a menor abertura da maioria das lentes fotográficas para as câmeras de grande formato. Defensores da imagem direta, não manipulada, têm suas fotografias caracterizadas por grande realismo, profundidade de campo e composição rigorosa. Em 1928, também, foi publicado The Art of Edward Weston, com cerca de 40 fotografias. Na mesma época começou sua série de nus e dunas feitas em Oceano, na Califórnia, que estão entre seus mais conhecidos ensaios.

Foto: Edward Weston.

Foto: Edward Weston.

Weston tornou-se o primeiro fotógrafo a receber uma bolsa da Fundação Guggenheim para trabalho experimental, em 1936, e começou a sentir os sintomas do Mal de Parkinson dez anos depois, época em que o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque realizou uma grande retrospectiva de sua carreira, com 300 cópias de seu trabalho. Em 1948, tirou sua última fotografia em Point Lobos. Morreu em primeiro de janeiro de 1958 em sua casa em Carmel. Suas cinzas foram espalhadas na Plebby Beach, Point Lobos.

 

9
ago

A sombra da luz e a primeira aula

Foto: Schari Kozak.

Nos dias 4 e 7 de agosto, os alunos das turmas A e B aprovados no exame de admissão para o Módulo Avançado do Curso Anual de Fotografia da ESPM-Sul tiveram sua aula inaugural, marcando o início da nova etapa. As boas vindas ficaram a cargo do professor coordenador, Manuel da Costa, que falou sobre questões referentes ao curso e à prova, provocando um debate acerca das perguntas com maior número de erros.

Além disso, Manuel enfatizou que nessa etapa se inicia a disputa entre os dois eixos de formação da identidade de um fotógrafo: técnica e estilo. Para o professor, trata-se de uma batalha fictícia: “O mais importante de tudo são as suas escolhas, mas a grande questão é que se a técnica for somada ao estilo, as chances de vocês atingirem sucesso em suas imagens com menos desperdício de tempo e energia acabam sendo maiores”, explicou. Enquanto a técnica assusta, já que os estudantes entram em contato com conceitos e termos até então desconhecidos, o estilo não tem como ser ensinado, apenas provocado. Manuel também explicou que se o primeiro porfólio apresentado pelos alunos serviu apenas para que os professores soubessem em que nível cada um deles estava, os critérios para as próximas avaliações começariam, agora, a serem fixados — e de forma transparente. No lugar da avaliação subjetiva entram novas expectativas e níveis de exigência.

Foto: Schari Kozak.

Para encerrar sua fala, o professor contou aos alunos a principal surpresa que a edição deste ano do curso reserva: aqueles que tiverem destaque em seus trabalhos de conclusão serão presenteados com um curso imersivo e uma exposição no Espaço Cultural da ESPM-Sul com direito à divulgação do trabalho. Assim, aperfeiçoam questões técnicas e ainda ganham visibilidade.

Depois, foi a vez dos professores Guilherme Lund, Leopoldo Plentz e Raul Krebs darem início as aulas de Projeto, que com referências de diversas áreas e exercícios práticos preparam os alunos para a construção do trabalho de conclusão. O trio enfatizou que a montagem física do próximo portfólio será feita sob sua orientação, com dicas, também, sobre o formato e a melhor forma de apresentá-lo. Lund iniciou falando sobre as saídas previstas no programa, como a visita à Sul Fotos, bureau de impressão onde é possível conhecer de perto alguns processos importantes, e à Bolsa de Arte, talvez a melhor galeria de Porto Alegre. O calendário também inclui uma visita ao jornal Zero Hora e ao estúdio de Clóvis Dariano.

Foto: Schari Kozak.

A sombra da luz

Depois, Plentz iniciou a apresentação do primeiro trabalho, que possui um forte componente de provocação. “Partindo do princípio de que a luz é a matéria prima da fotografia, e que o absolutamente iluminado é o oposto da escuridão, a sombra e a luz, o claro e o escuro, fazem parte da essência de uma mesma coisa”, introduziu. Foi proposto, assim, o tema: A sombra da luz. Nas palavras do professor, a interpretação é tão livre que o nome poderia até mesmo ser escrito com crase (à sombra da luz) ou com “h” (há sombra da luz).

Foto: Schari Kozak.

Presentes em todas as religiões, a luz e a sombra estão arraigadas a uma série de conceitos. Na pintura, uma das características do expressionismo do século IXX é o fato de que os artistas finalmente saíram de seus ateliês, justamente para explorar a iluminação natural. Um expoente dessa escola, Monet, possui trabalhos que mostram o mesmo assunto tratado de forma diferente através de possíveis interpretações da luz.

Vale destacar que o branco é representado por tons de cinza: sem eles, as formas e volumes não seriam visíveis. Se uma luz mais intensa iluminasse esses tons, detalhes não tão pequenos passariam despercebidos. Para estimular e inspirar os alunos a explorarem o tema, foram passadas alguns trabalhos de turmas anteriores, além de referências consagradas. Citamos algumas:

Charles Harbutt – “Blind Boy”

"Blind Boy". Foto: Charles Harbutt.

A imagem acima, de um dos legendários membros da Magnum Photos, foi mostrada por Plentz como uma das primeiras a impactá-lo. Enigmática, retrata uma criança cega tateando a luz, provavelmente pela diferença de temperatura. “Essa informação é relevante para que se compreenda a imagem, o que levanta uma outra questão: até que ponto a fotografia é autosuficiente? A legenda e o título são meramente complementares ou possuem maior importância?”, provocou.

Cartier-Bresson – “Girl Running White Building Shadows” (1961)

"Girl Running White Building Shadows". Foto: Henri Cartier-Bresson.

Lund contou aos alunos uma de suas mais recentes descobertas: o fato de que a maioria das imagens do renomado fotojornalista Henri Cartier-Bresson não possuem sombra. Algumas das raras excessões foram selecionadas pelos professores e mostradas em aula, como a foto acima, a clássica imagem de uma menina correndo em Sinos, na Grécia, em 1961. Além da possibilidade de não se tratar de uma predileção do artista, deve-se considerar o fato de que ele era inglês: morava em uma região na qual, de fato, nunca houve muito sol.

Dentro desse assunto, Leopoldo levantou que se trata, também, de uma opção do fotógrafo, já que tecnicamente trabalhar com luz e sombra é complicado. “Fotografar em um dia nublado é mais fácil, a luz é mais suave. Isso lembra o trabalho de Felizardo [Furtado], que prefere a luz difusa já que seu interesse na fotografia é retratar a maior quantidade de detalhes possível”, explica.

Além disso, o fato de que existem imagens em que a sombra é um fator determinante na composição (se mantida, conta-se uma história; se cortada, conta-se outra), remete ao conceito de “instante decisivo” de Cartier-Bresson.

Guy Bourdin 

Foto: Guy Bourdin.

Krebs contou que Bourdin, que ganhou uma exposição em Porto Alegre no ano passado (como falamos aqui), era diretor de arte antes de se tornar um fotógrafo, passando a trabalhar com moda, publicidade e editoriais até se tornar o que o professor definiu como “um dos maiores especialístas em página dupla dos anos 1960″. Na aula em questão, foi trazido como um bom exemplo do uso de cor na abordagem do tema: suas fotos abusam de coloridos e contrastes, mas não dispensam o uso estratégico da sombra como um elemento da composição.

Tim Noble & Sue Webster

"Real life is rubbish" de Tim Noble e Sue Webster

O trabalho dessa dupla de artistas londrinos se assemelha às instalações da artista japonesa Kumi Yamashita: tratam-se de esculturas com lixo organizadas de tal forma que sua projeção resulta em novas e diferentes figuras. Assim, a sombra de latas amassadas, caixas velhas e restos inorgânicos ganha formas surpreendentes e cheias de significado.

Aos alunos que buscam mais referências, ou apenas aos interessados pela temática, vale conferir as postagens anteriores, algumas delas justamente sobre a aula em questão:

A Sombra da Luz: os trabalhos dos alunos e a importância da experimentação

A Sombra da Luz – Primeira aula

Gjon Mili, o fotógrafo que brincava com a luz