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Archive for agosto, 2012

31
ago

“Não façam arte pensando no mercado”, Miguel Rio Branco

Miguel Rio Branco. Foto: Ana Branco / Agência O GLOBO

Brasileiro nascido na Espanha, Miguel Rio Branco é um dos fotógrafos que melhor entrelaça fotografia artística e documental — e está entre os poucos que integram a célebre e internacional Magnum Photos. Correspondente da agência desde 1980, construiu sua identidade na busca pessoal por criar recortes da realidade ricos em poesia. Pintor, diretor de cinema e criador de instalações multimídia, encontrou na fotografia seu principal meio de expressão e, desde então, publica e expõe seu trabalho em lugares de todo o mundo. Atualmente, vive e trabalha no Rio de Janeiro, mas sua obra pertence a importantes acervos privados e públicos nacionais e do exterior.

Foto: Miguel Rio Branco

Foto: Miguel Rio Branco

Nascido em 1946 em Las Palmas de Gran Canaria, filho de um diplomata brasileiro em atividade, Rio Branco cresceu entre Espanha, Portugal, Brasil, Suiça e Estados Unidos. Iniciou sua carreira na pintura em 1964 com uma exposição em Berna, na Suiça. Em 1966, estudou no New York Institute of Photography e dois anos depois na Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro. Com essa formação, dirigiu filmes experimentais e trabalhou como diretor de fotografia e câmera para cineastas como Gilberto Loureiro e Júlio Bressane, atuando paralelamente como fotógrafo documental. Logo que começou a mostrar suas fotos, destacou-se pela predileção por cores saturadas e pelo alto contraste de suas imagens preto e branco, tornando-se conhecido e adotando a fotografia como ferramenta principal de trabalho. Favorecido pelo contexto das artes visuais da época, que aceitava cada vez mais o valor da imagem fotográfica além de mero registro, foi um dos pioneiros no Brasil ao dar carga poética ao fotojornalismo. A ênfase de Rio Branco ao olhar pessoal o rendeu prêmios importantes como o francês Kodak de la Critique Photographique, em 1982.

Foto: Miguel Rio Branco

Foto: Miguel Rio Branco

No museu de arte contemporânea e jardim botânico de Inhotim, em Minas Gerais, ganhou um pavilhão com seu nome, construído para abrigar parte de sua produção. É lá que se encontra, por exemplo, uma de suas primeiras e mais importantes séries, Maciel (1979), realizada no decadente Pelourinho baiano dos anos 1970. Mesmo analisadas à parte, essas fotografias e vídeos são um bom exemplo de sua obra e identidade, já que revelam mais questões subjetivas do que aspectos objetivos daquele cenário. Conferir seus eróticos registros de prostitutas causa desconforto e maravilhamento: nelas, nas imagens e nas personagens, há tanta beleza quanto miséria. Um dos vídeos exibidos da mostra também diz muito sobre seu método: “Esse filme foi gravado de forma rudimentar. As questões técnicas não me interessam, mas sim a emoção, a ideia e a criação. A criação não é ligada a nada além de si mesmo”, disparou, no Paraty em Foco de 2011.

Foto: Miguel Rio Branco

Foto: Miguel Rio Branco

Ao revisitar o material justamente para expô-lo em Inhotim, o artista voltou-se novamente para essa que é uma de suas temáticas essenciais: a poética do feminino. Assim, reuniu imagens de contextos e épocas diversas para a mostra La Mécanique des Femmes (2012) (“A Mecânica da Mulher”, em livre tradução), que contem desde trabalhos que remetem à tradição pictórica ocidental de nus femininos e até outros que exploram questões sociais como a submissão da mulher. Rio Branco conta que a exposição, que ficou em cartaz até o final de junho no Rio de Janeiro, é a primeira de uma série que vai desenvolver suas observações sobre questões de gênero contemporâneas.

Foto: Miguel Rio Branco

Foto: Miguel Rio Branco.

Rio Branco também é conhecido por suas fortes opiniões. No Paraty em Foco do ano passado, mostrou uma visão desmistificada acerca da função social do fotojornalismo: “A fotografia humanitária que vai mudar o mundo é um blefe. Ela funciona por um tempo, e não vai atingir um muitas pessoas. Além disso, a questão da imagem está absolutamente deturpada. Vivemos em um mundo em que tudo é marketing”, analisou. Além disso, afirmou que a fotografia se liga a realidades que nem sempre se quer ter contato e discorreu sobre os momentos em que sentiu frustração: “Depois de um certo tempo, você não usa a fotografia para mostrar o mundo. Usa a fotografia para mostrar você”.

Rio Branco também é autor dos livros “Dulce Sudor Amargo” (1985), “Nakta” (1996), “Miguel Rio Branco”, “Silent Book” (1997) e “Entre os Olhos, o Deserto” (2001).

Foto: Miguel Rio Branco.

Foto: Miguel Rio Branco.

Ponto Cego
De 5 de setembro a 11 de novembro o Santander Cultural de Porto Alegre sediará a exposição Ponto Cego, que reúne mais de cem criações de Miguel Rio Branco. Com entrada franca, a mostra contempla obras de seus 50 anos de carreira que celebram sua multiplicidade de estilos e seu domínio de cores. A curadoria é do crítico de arte Paulo Herkenhoff.

Santander Cultural Porto Alegre
Rua Sete de setembro, 1028
Centro Histórico. Porto Alegre/RS.
Tel. 51 3287 5500
De terça a sábado, das 10h às 19h
Domingos e feriados, das 13h às 19h

20
ago

6ª edição do FestFotoPoa começa amanhã

Amanhã, dia 21 de agosto, terá início a 6ª edição de um dos mais importantes eventos do calendário fotográfico do Estado: o Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, mais conhecido como FestFoto. A pauta desse ano do evento é “A Experiência Coletiva” e pretende debater movimentos importantes dos campos da pintura, música, cinema, literatura, teatro que se consolidaram através dessas experiências em grupo, fazendo a história da arte no século 20 se fundir com a própria história da humanidade. A fotografia, pensada dentro desse contexto, frequenta todos os campos da arte e da documentação social, sempre como uma prática democrática. Afinal, está presente tanto nos salões da grande arte quanto na intimidade familiar, percorrendo as mais diversas formas de experiência coletiva.

Fotógrafa homenageada: Nair Benedicto

Nair Benedicto. Foto: Gustavo Tissot.

O fotógrafo homenageado da edição deste ano é Nair Benedicto, que tem sua produção voltada para temáticas sociais, especialmente as que envolvem crianças, mulheres, populações indígenas e ecologia. Jornalista formada em Comunicações pela USP, participou de várias exposições nacionais e internacionais como fotógrafa e editora e teve seu trabalho publicado em jornais e revistas brasileiras e estrangeiras.

Mulheres do Sisal Bahia. Foto: Nair Benedicto.

Foto: Nair Benedicto.

Tem fotos integrando os acervos do MOMA – Museu de Arte Moderna de Nova York, do SMITHSONIAN de Washington, do MAM-Museu de Arte Moderna em São Paulo e no Rio de Janeiro, do Patrimônio Histórico da Cidade de São Paulo, e da coleção Pirelli-MASP. Além disso, é uma das fundadoras da Agência F.4 e do Nafoto-Núcleo dos Amigos da Fotografia, cuja atuação permitiu a abertura de museus importantes, como o Masp. O evento começará com a abertura de sua exposição.

Convidado Internacional: Josef Koudelka

Retrato de Josef Koudelka.

Em 1968, o tcheco Josef Koudelka, na época com 30 anos, não tinha experiência com fotojornalismo, clicando peças de teatro e a vida de famílias ciganas de forma despretensiosa. Foi em 21 de agosto que sua vida passou por uma mudança radical, bem como a de seu pais. Naquela noite, que amanhã completa 44 anos, os tanques do Pacto de Varsóvia invadiram Praga, encerrando o curto período de liberdade política da Tchecoslováquia. No meio do caos representado pela invasão soviética, Koudelka foi para as ruas com sua câmera e acabou entrando na história por documentar historicamente a Primavera de Praga.

Primavera em Praga. Foto: Josef Koudelka.

Primavera em Praga. Foto: Josef Koudelka.

A data de abertura de sua exposição é 6 de novembro, às 19h. Com apoio da Fundação Aperture e da Magnum Photos.

O evento ainda contará com oficinas, seminários, palestras, lançamentos e etc. Confira a programação completa, que ainda está em construção, no site oficial.

16
ago

“Maddie on things”, por Theron Humphrey

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

Ao percorrer os Estados Unidos para um ambicioso projeto fotográfico, o fotógrafo Theron Humphrey deu início a outra inciativa autoral, paralela e bem mais despretensiosa. “Maddie on things” (algo como “Maddie nas coisas”) mostra sua fotogênica parceira de viagem, a cadela Maddie, da raça Coonhound, posando em cima de lugares estranhos e incomuns. Ao conferí-la equilibrando-se entre carrinhos de supermercado, no topo de uma grande pilha de malas coloridas ou embaixo da ponte Golden Gate, lembramos imediatamente do artista William Wegman. Fotógrafo, pintor e cineasta, tem as séries fotográficas com cães da raça Weimaraner como seu trabalho mais conhecido.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

Wegman fotografava seus cães, em especial o primeiro deles, Man Ray, em poses que pareciam dirigidas — bem como as imagens que Humprey faz de sua Maddie. A ideia surgiu justamente da predileção natural da cachorrinha por escalar lugares difíceis e se apoiar em estruturas improváveis. Nas palavras do autor, a ideia pode ser definida divertidamente como “um projeto supersério sobre cachorros e física”.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

A iniciativa começou quando Humphrey decidiu visitar todos os 50 estados dos Estados Unidos durante o período de um ano. Intitulado “This Wild Idea” (“esta ideia selvagem”, em livre tradução), o projeto tinha como objetivo contar histórias através de fotografias, e em cada um dos 365 de viagem ele conversaria com um personagem americano diferente. Com a ferramenta de financiamento colaborativo Kickstarter, Humphrey conseguiu verba para dar início a jornada, tendo Maddie como sua fiel companheira. Para ele, trata-se de uma maneira de utilizar a fotografia para celebrar a vida cotidiana.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

Nascido e criado no Sul dos Estados Unidos, Humphrey estudou nas Appalachian Mountains, onde começou a fotografar de forma autodidata. Apaixonado pelas possibilidades que atividade o traria se adotada como profissão, formou-se no Savannah College of Art and Design e começou a trabalhar com fotografia comercial em estúdio até, um belo dia, sentir que deveria clicar outros assuntos e com outros propósitos — e aí nasceu “This Wild Idea”. Ao todo, foram mais de 63 milhas percorridas e quase 100 mil imagens.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

As fotografias que compõem o projeto estão disponíveis no site oficial, mas mesmo com inúmeros acessos e com mais de seis mil fãs no Facebook, foram as fotografias de sua cachorra que fizeram mais sucesso, protagonizando postagens em blogs e matérias sites do mundo inteiro. Semelhanças com a popularidade das imagens dos cães de William Wegman na época em que foram feitas não são mera coincidência.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.

"Maddie on things". Foto: Theron Humphrey.