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Archive for junho, 2012

1
jun

Kamra-e-Faoree: uma câmera em extinção

Photographers, photojournalists and others.

As Kamra-e-Faoree (“câmera instantânea”, em persa), que chegaram no Afeganistão no início do século XX, foram usadas para preservar memórias no país durante gerações. Com suas enormes caixas adornadas com fotografias, os responsáveis por elas eram, até recentemente, uma visão comum nas ruas de Cabul. Sobreviveram à proibição temporária de seu trabalho pelo regime talibã, mas é difícil que sobrevivam à força com que se impõem as novas tecnologias: vê-los trabalhando é algo extremamente raro atualmente, e é possível que, em um futuro próximo, esses remanescentes desapareçam por completo. Cada vez menos pessoas dominam os processos de construção e utilização dessa tradicional ferramenta, que não usa filme, mas, sozinha, permite a captura e a fixação da imagem em papel fotográfico.

Peshar, Pakistan, Afghan refigee camp, 1984.

Kabul, 1996.

Khwaja Bahauddin, a Northern Alliance held toen near the Tajik border, 2001.

Com o objetivo de preservar esse registro, Lukas Birk, artista austríaco, e Sean Foley, etnógrafo irlandês, criaram o Afghan Box Camera Project, financiado de forma colaborativa via Kickstarter. No site do projeto, há informações sobre a história da fotografia no Afeganistão, galerias de imagens, portfólios de fotógrafos, links externos e tutoriais detalhados que explicam como construir e utilizar sua própria câmera. A dupla descobriu a kamra-e-faoree em viagens de pesquisa ao país e logo percebeu que os dispositivos estavam sendo substituídos por seus descendentes digitais. De forma gradual, caíam em desuso entre os fotógrafos, sem condições de arcar com os custos do reabastecimento do material. Ao ver a situação de quem executa o ofício nas ruas de Cabul, temeram que a arte não mais fosse transmitida através das famílias, correndo o risco de morrer com seus últimos representantes.

Foto: Qalam Nabi.

Foto: Qalam Nabi.

Foto: Mia Muhammed.

As câmeras afegãs remetem às câmeras Lambe-Lambe conhecidas por aqui — não apenas por sua história, que passou da popularidade à obsolescência, mas por seu mecanismo. Ambas as caixas contém um mini-laboratório em seu interior, funcionando da mesma forma. O principal vídeo no site do projeto mostra o trabalho de um dos dois remanescentes de Cabul: Qalam Nabi, que desde os 11 anos trabalha com sua “câmera instantânea” nas ruas da capital. Em sete minutos, Nabi mostra com destreza como se dá o processo de captação e revelação da imagem. A caixa de madeira, simples e à prova de luz, contém uma lente fotográfica em uma extremidade. Em seu interior, uma placa de vidro fosco móvel é a responsável pelo foco, e sobre ela fica o papel fotográfico. Depois de exposto à luz, o papel é colocado em um produto químico revelador e, posteriormente, no fixador — ambos dispostos em diferentes recipientes no fundo da caixa. Uma vez que o papel está imerso no fixador, a caixa pode ser aberta para a retirada do negativo. O fotógrafo, então, repete o processo fotografando a imagem negativa para gerar uma imagem positiva e entregá-la ao cliente.