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Archive for junho, 2012

25
jun

Google Street View Edition por Aaron Hobson

Foto: Susan Sabo - Retrato de Aaron Hobson

Criado em 2007, época em que contemplava apenas algumas cidades norte-americanas, o Google Street View disponibiliza vistas panorâmicas de diversos lugares do mundo. As imagens são coletadas por veículos, exceto em ruas estreitas e lugares que não podem ser acessados por carros, nos quais a empresa utiliza bicicletas. Por serem captadas do nível do solo, é possível navegar pelos locais clicados como quem caminha pelas ruas, de diversos ângulos e em qualquer direção. Em uma época em que a tecnologia é cada vez mais presente na produção artística, esse recurso foi utilizado pelo fotógrafo Aaron Hobson em um controverso e inusitado projeto fotográfico, batizado por ele de Google Street View Edition.

Foto: Aaron Hobson - Winnebago in disguise on Sanday Island in the North Sea, Scotland.

Foto: Aaron Hobson - There is a shitstorm brewing above the dirt roads of Pawtella, Tasmania.

Quando foi chamado para produzir um filme em Los Angeles, cidade com a qual era pouco familiar, decidiu usar o site para conhecer as locações. Encantado com a eficiência da ferramenta, acabou apaixonado, também, pela forma como as imagens eram feitas, por seu imprevisível e muitas vezes melancólico resultado. Hobson tem uma predileção por fotografias panorâmicas e logo começou a explorar outros lugares do mundo, maravilhado com a possibilidade de viagem virtual. Quanto mais encontrava semelhanças com sua terra em lugares remotos, mais empenhado ficava em explorar outros, selecionando aqueles que mais combinavam com seu apelo estético e narrativo, normalmente de regiões distantes das grandes sociedades. O projeto, constantemente atualizado, contempla mais de três anos de coleta.

Foto: Aaron Hobson - Okinawa Prefecture, Japan.

Foto: Aaron Hobson - Prejmer, Romania

Depois de selecionadas, as imagens são ampliadas e corrigidas — algumas passam por montagens por contemplarem cliques de mais um ângulo. Hobson ajusta o contraste, a luz e as sombras e ocasionalmente dá um tom mais pastel e etéreo às cores. Para ele, trata-se de uma forma de transformar as imagens do Google em imagens suas, de dar sua identidade à produção. Em sua defesa a possíveis questionamentos sobre essa apropriação, tem um retorno positivo da empresa e possui os direitos sobre as imagens. Entre os lugares contemplados estão países como Espanha, França, Japão, Itália e Brasil — o que inclui um clique da cidade rio-grandense de Bagé.

Foto: Aaron Hobson – A choo choo running underneath street view in Bagé, Brazil.

Foto: Aaron Hobson - São João, Brazil.

Hobson cresceu em uma vizinhança pobre em Pittsburg, na Pensilvânia, e descobriu a fotografia como um meio de lidar com seus pensamentos e sentimentos. Hoje, vive no campo, em uma das regiões menos habitadas dos Estados Unidos. Suas imagens são marcadas por uma aura cinematográfica, contam histórias, tem uma narrativa — daí o nome de seu site, “The Cinemascapist”. Elas tornaram-se conhecidas primeiramente na internet, passando posteriormente a figurar em galerias de lugares como Nova Iorque, Londres e Los Angeles. Em 2008, recebeu mensão honrosa no International Photography Awards e em 2009 venceu o Prix de la Photographie de Paris.

Foto: Aaron Hobson - Google Street View car self-portrait #2, Taiwan.

Foto: Aaron Hobson - Saint-Nicolas-de-la-Grave, France.

12
jun

“Os olhos trafegam em sentimentos, não em pensamentos” Walker Evans

Walker Evans Portrait.

Walker Evans (1903-1975) é um dos mais influentes artistas do século 20, além de ser considerado o progenitor do fotojornalismo documental. Suas imagens elegantes e claras inspiraram gerações e gerações de artistas, de Robert Frank a Keith Arnatt. Para muitos, Evans tinha a habilidade de ver o momento presente como se ele já fizesse parte do passado, transformando cenas em arte duradoura.

Couple at Coney, 1928. Foto: Walker Evans.

License Photo Studio, 1934. Foto: Walker Evans.

Durante cinquenta anos, retratou com olhos de poeta e precisão de cirurgião expressões vernaculares da cultura americana moderna: cafés baratos, quartos simples, ruas centrais de pequenas cidades, povos indígenas na beira das estradas. Nascido em Missouri, nos Estados Unidos, Evans desenvolveu seu interesse por pintura e fotografia ainda na infância, época em que clicava sua família e seus amigos com uma Kodak de pequeno porte. Na adolescência, largou a faculdade para mudar-se para Nova Iorque e começou a trabalhar em livrarias, seduzido pela possibilidade de passar o dia lendo obras dos artistas que amava, T. S. Eliot, D. H. Lawrence, James Joyce, Charles Baudelaire, Gustave Flaubert e E.E. Cummins. Em 1927, depois de um ano estudando em Paris e escrevendo suas próprias histórias e ensaios, retornou a Nova Iorque decidido a se tornar um escritor. No entanto, também passou a direcionar seus impulsos estéticos para a fotografia, onde implantou o que amava na literatura: lirismo, ironia, descrição incisiva e estrutura narrativa.

Lunchroom Window, 1929. Foto: Walker Evans.

Foto: Walker Evans.

Suas primeiras fotografias revelam a influência do modernismo europeu, estilo do qual se afastou para se aproximar do realismo, que enfatiza o papel do espectador e o poder poético de temas comuns. Em 1935, aceitou o emprego que consolidaria sua identidade: foi convidado pelo governo dos Estados Unidos para fotografar uma comunidade de reassentamento do governo construída para mineiros de carvão desempregados. Por esse trabalho, acabou tornando-se o “especialista de informação” da Ressettlement Administration (RA), depois chamada de Farm Security Administration (FSA), uma instituição criada com o objetivo de combater a pobreza rural, uma das principais consequências da Grande Depressão.

Sharecropper's Family, 1935. Foto: Walker Evans.

Foto: Walker Evans.

Ao lado de fotógrafos como Dorothea Lange, Evans foi incumbido da documentação da vida de moradores de cidades pequenas, com o objetivo de demonstrar como o governo estava se esforçando para melhorar a vida daquelas comunidades. Mostrando pouca preocupação ideológica em seguir os itinerários sugeridos, Evans viu a pauta como uma oportunidade de retratar a essência da vida americana. Suas fotografias de estradas, arquitetura, igrejas rurais, barbearias e cemitérios revelam um respeito profundo por essas tradições, muitas vezes negligenciadas nas grandes cidades. Desde suas primeiras aparições em jornais, revistas e livros no final da década de 1930, essas imagens icônicas entraram na consciência coletiva do povo americano, enraizando-se profundamente na memória do período da Depressão.

Foto: Walker Evans.

Foto: Walker Evans.

No verão de 1936, ainda trabalhando para a FSA, foi enviado com o escritor James Agee para fazer uma reportagem sobre as famílias de arrendatários rurais do Alabama. A matéria não saiu, mas as fotografias e o texto foram publicados no livro Let Us Now Praise Famous Men (1941), que detalha a vida de três grupos de agricultores em meio a pobreza rural. É desse ensaio o retrato de Allie Mae Burroughs, um dos símbolos da Grande Depressão.

Allie Mae Burroughs. Foto: Walker Evans.

Alabama Tenant Farmer, 1936. Foto: Walker Evans.

Evans deixou a FSA em 1938, ano em que o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) exibiu Walker Evans: American Photographs. Foi a primeira mostra individual do museu dedicada a um fotógrafo. No mesmo período, Evans passou a esconder uma Contax 35mm em seu casaco para fotografar pessoas nos metrôs nova-iorquinos. O objetivo era mostrá-las sem disfarces, expostas e indefesas. Em suas palavras, “ainda mais do que em quartos isolados (onde há espelhos), os rostos das pessoas estão em repouso nu no metrô”. Oitenta e nove dessas fotografias seriam transformadas em livro sob o título Many are Called (1966) décadas depois.

Foto: Walker Evans.

Foto: Walker Evans.

Leitor e escritor apaixonado, passou a fazer parte da equipe da Time em 1945. Pouco depois, tornou-se editor na Fortune, onde permaneceu até 1965 — ano em que se tornou professor de design gráfico na Universidade de Yale. Em 1973, Evans passou a trabalhar com a inovadora Polaroid SX-70. As qualidades da câmera casavam perfeitamente com sua busca por uma visão concisa e poética do mundo. Com ela, voltou-se para temas perenes: cartazes, sinais, letras, formas.

5
jun

Crônicas de um fotojornalista americano

Alec Soth Portrait.

Navegando livremente entre a fotografia editorial e o trabalho autoral, Alec Soth consolidou-se como um dos mais importantes artistas americanos contemporâneos. Faz parte do legendário grupo Magnum Photos e já exibiu seu trabalho em galerias e museus dos Estados Unidos e da Europa.

2006. Série Broken Manual. Foto: Alec Soth.

The Arkansas Cajuns backup bunke. Série Broken Manual. Foto: Alec Soth.

1999. Série Broken Manual. Foto: Alec Soth.

2008. Série Broken Manual. Foto: Alec Soth.

Nascido em Mineápolis e educado em Nova Iorque, Soth atraiu a atenção da critica pela primeira vez com a série Sleeping by the Mississippi (2004). Sua inspiração foi o trabalho da fotógrafa Diane Arbus, que em toda sua obra se dedicou à outra face do American Dream. Para clicar os retratos e paisagens que o livro contempla, Soth viajou durante meses pelos estados em que se encontra o maior rio da América do Norte. Algumas imagens foram parar na Bienal Whitney de 2004 e uma delas, “Charles”, foi usada no poster da mostra. Nesse trabalho, tornou-se evidente aquela que seria uma de suas principais características: a tentativa de encontrar uma maneira subjetiva de contar histórias. Em seus livros, cada uma de suas imagens conduz a próxima, formando uma narrativa.

Série Sleeping by the Mississipi. Foto: Alec Soth.

Jimmies Apartment, 2002. Série Sleeping by the Mississipi. Foto: Alec Soth.

Lenny, 2002. Série Sleeping by the Mississipi. Foto: Alec Soth.

Herman's Bad, 2002. Série Sleeping by the Mississipi. Foto: Alec Soth.

Seu diferencial também consiste no fato de que utiliza uma câmera de grande formato 8 x 10, que exige mais tempo para a captação das imagens — muitos atribuem a isso a intensa relação que o artista estabelece com seus objetos. Para Soth, é nessa troca que se encontra o cerne de seu trabalho: sua fotografia está diretamente ligada à forma como cada assunto lhe toca. O artista também conta que quando fotografa pessoas costuma ficar nervoso, deixando os modelos mais confortáveis com sua falta de tato.

Entre suas publicações mais conhecidas está Niagara (2006), uma referência as cascatas que separam o Canada dos Estados Unidos. Diferente de seus primeiros trabalhos, a obra explora o amor e os relacionamentos em um lugar que o fotógrafo considera cheio de paixão. A parte técnica foi feita de forma híbrida: os negativos em grande formato foram digitalizados e posteriormente impressos.

Série Niagra. Foto: Alec Soth.

Best Western, 2005. Série Niagra. Foto: Alec Soth.

Nicholas, 2005. Série Niagra. Foto: Alec Soth.

Melissa, 2005. Série Niagra. Foto: Alec Soth.

Vale lembrar que sua obra autoral é pautada pelo povo, as paisagens e a cultura americana: o território estado-unidense é sempre direta ou indiretamente protagonista. Em Las Days of W. (2008), 36 fotografias representam a exaustidão americana nos últimos anos do governo de George W. Bush. Em sua crônica imagética, militares, civis e objetos inanimados passam uma sensação de completo esgotamento.

Além do trabalho autoral artístico, Soth fotografa para publicações como a The New York Times Magazine, Fortune e Newsweek.

Priscila. Série The Last Days of W. Foto: Alec Soth.

Série The Last Days of W. Foto: Alec Soth.

Série The Last Days of W. Foto: Alec Soth.

Akele. Série The Last Days of W. Foto: Alec Soth.