Skip to content

Archive for fevereiro, 2012

29
fev

A câmera não é o escudo emocional do fotojornalista

Vencedora do World Press Photo 2011. Foto: Samuel Aranda.

No início de fevereiro, o fotógrafo espanhol Samuel Aranda, 33 anos, foi anunciado como o grande vencedor do 55º World Press Photo. O retrato que o representou na disputa foi tirado dentro de uma mesquita utilizada como hospital durante a Primavera Árabe no Iêmen. Nele, uma mulher totalmente coberta por uma burca dá conforto a um familiar ferido. Na semana passada, Aranda visitou a família que protagoniza a imagem para agradecê-la.

Para Ricardo Chaves (o Kadão), fotojornalista e professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul, a imagem remete a uma Madona (do italiano Madonna, o nome dado às representações artísticas da Virgem Maria, um tema tradicional na arte sacra cristã) e à Pietá, última e inacabada escultura de Michelangelo. Para ele, trata-se de uma fotografia simbólica que mostra de forma universal uma mulher dando conforto a um homem. “À sua maneira, a imagem ajuda a humanizar algo que sempre rende majoritariamente fotos horríveis, a guerra”, interpreta. Para o júri do evento, a fotografia simboliza, também, toda uma região: o Iêmen, o Egito, a Tunísia, a Síria e todos os locais e pessoas envolvidos com a Primavera Árabe, nome pelo qual ficaram conhecidos os protestos no Oriente Médio e no norte da África que derrubaram antigos ditadores e marcaram o ano de 2011.

Pietá, escultura de Michelangelo.

Sobre a visita à família, Kadão a considera mais do que justa. Para ele, é natural que Samuel se sinta sensibilizado. O mito de que os fotógrafos são pessoas frias, insensíveis, que usam a câmera como escudo emocional e que não sofrem nem percebem o perigo das situações que cobrem não passa de, nas palavras dele, balela. “O fotógrafo sente muito tudo que está acontecendo ao seu redor, ele apenas está preso em uma experiência profissional”, explica. De acordo com ele, eles estão condicionados a fotografar da mesma forma que um piloto dirige e um médico opera: “Fazemos nosso trabalho mesmo em condições adversas, mais por hábito do que por qualquer outra coisa”, desmistifica.

Fatima Al-Qaws e seu filho, Zayed, segundo à esquerda, com a família, em casa, no Iêmen. Foto: Samuel Aranda.

Por experiência própria, Kadão afirma que a maioria dos fotógrafos sai de uma cobertura como essa totalmente transformado. “Mesmo as minhas menores pautas que envolviam a vida e a morte afetaram profundamente meu emocional. Quem é jornalista lida com isso muito de perto, não apenas na guerra. No Brasil, por exemplo, os fotojornalistas registram a morte no trânsito todos os dias”, exemplifica.

A conversa que deu origem a este post fez com que Kadão lembrasse da história do fotógrafo Kevin Carter. Em 1993, no Sudão, ele registrou uma das mais icônicas imagens da história do fotojornalismo: um abutre postado atrás de uma subnutrida criança do sexo masculino, parecendo esperar por sua morte. Essa metáfora para a fome que assolava o país africano o rendeu um prêmio Pulitzer, mas o deixou sob intensa pressão. A opinião pública julgava que o fotógrafo poderia, ou deveria, ter feito alguma coisa para ajudar o menino. Muitos atribuem seu suicídio, em 1994, a este fato. Kadão acha que não.

Foto de Kevin Carter vencedora do Pulitzer

O livro The Bang Bang Club (2003) conta a história dele e de outros fotógrafos que registraram os conflitos entre as facções negras da África do Sul nos últimos anos do Apartheid. Kadão, que leu a publicação, interpreta que Kevin já tinha, sim, problemas emocionais, e que o episódio em questão — somado às coberturas que havia feito anteriormente — foi apenas um catalisador da depressão que o levou ao suicídio.

Samuel Aranda, ex-fotógrafo da AFP, trabalhava para o jornal New York Times quando tirou a foto vencedora do WPP. Recebeu como prêmio 13 mil dólares e uma câmera Canon.

27
fev

Emmet Gowin e a fotografia como adaptação poética da vida

Emmet Gowin Portrait

Nascido em 1941, Emmet Gowin cresceu no sul do estado norte-americano de Virginia. Começou a fotografar em 1961, no Richmond Professional Institute, e graduou-se no Rhode Island School of Design.

Danville, Virginia, 1967. Foto: Emmet Gowin.

Nancy, 1969. Foto: Emmet Gowin.

Emmet ganhou atenção pela primeira vez com uma série de retratos muito íntimos de sua esposa, Edith, e, mais tarde, de seus filhos. Inspirado pelas fotografias que Harry Callahan, seu professor em Rhode Island, fazia de sua companheira, Gowin passou a fotografar Edith em vários momentos da vida cotidiana. Ao contrário de seu mestre, que priorizava a abstração e os aspectos formais, Emmet traça uma visão mais ampla da vida familiar. Por toda a carreira, utilizou majoritariamente câmeras de grande formato, o que o levou a apreciar, também, experimentos óticos e de câmera escura. O uso de lentes 4 x 5 e 8 x 10 o ajudou a adicionar dramaticidade às imagens.

Nancy Twine and Cloth Construction, 1971. Foto: Emmet Gowin.

Edith, Ruth and Mae. Foto: Emmet Gowin.

Novas experiências e mudanças no ambiente familiar, como o crescimento dos filhos, ajudaram-no a se aventurar em outros assuntos. A partir dos anos 1980, retratou paisagens da Europa, a devastação e a beleza do monte St Helens, em Washington, o vazio assustador do grego Petra e, mais recentemente, áreas de testes nucleares, grandes projetos agrícolas, mineradoras e despejos de resíduos tóxicos. Esses temas foram abordados por ele com a mesma proximidade amorosa que é vista nas fotos de sua família. Além disso, muitos críticos de arte, como a jornalista Sally Gall, ressaltam o fato de que Emmet chamou a atenção para questões ambientais e políticas sem nunca parecer arrogante.

Mount St. Helens Area Washington, 1980. Foto: Emmet Gowin.

Copper Ore Tailing, Globe, Arizona, 1988. Foto: Emmet Gowin.

Hoje, mora com sua esposa e seus filhos em uma pequena cidade da Pensilvania. Lecionou fotografia na Universidade de Princeton até 2009, ano em que se aposentou. Seu trabalho foi publicado em inúmeros livros, incluindo Emmet Gowin: Photographs (1976), Emmet Gowin Photographs (1966-1983) e o mais famoso deles Changing the Earth: Aerial Photographs (2002).

Edith and Elijah, 1968. Foto: Emmet Gowin.

Nancy, 1967. Foto: Emmet Gowin.

24
fev

Documentário “O Caminho da Praia” ganha teaser

Como já contamos aqui, no inverno de 2011 os fotógrafos Marcelo Curia e Anderson Astor partiram em uma jornada a pé pelo sul da costa brasileira. Tratava-se do início de um projeto intitulado O Caminho da Praia, que busca retratar todo litoral gaúcho, do balneário de Torres até o Arroio Chuí. O objetivo da dupla é ampliar a consciência local sobre este pedaço do país e auxiliar em sua documentação.

Os registros da aventura envolveram — e ainda envolvem, já que o projeto está em andamento — fotografia, vídeo e texto. Durante a viagem, todos os passos foram publicados em um blog, atualizado muitas vezes em condições adversas. Depois de cerca de 30 dias longe de casa, mais de um milhão de passos e alguns quilos perdidos, os dois começaram a organizar todo o material coletado para transformá-lo em um documentário, um livro e uma exposição. O primeiro já ganhou um teaser, realizado pela Joner Produções:

Marcelo Curia é autor do livro História de Pescador (2001) e colabora regularmente para revistas como National Geographic Brasil, Viagem e Turismo e Globo Rural. Anderson Astor é ex-aluno do curso de Fotografia Digital Avançada na ESPM-Sul, graduado em 2010. Freelancer, cursou Artes Plásticas na UFRGS e já publicou nos jornais Zero Hora e Correio do Povo, além deem veículos de livre circulação.