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Archive for janeiro, 2012

23
jan

Simplicidade surrealista: o parisiense Eugène Atget

Eugène Atget, 1927. Foto: Berenice Abbott.

Hoje aclamado como um dos mais importantes fotógrafos da história, o francês Engène Atget não gozou deste prestígio em vida — provavelmente por realizar um trabalho à frente de seu tempo. Nascido em 1857, foi pioneiro ao desviar o olhar do ser humano: retratava o vazio das ruas e esquinas de Paris, sua cidade natal, e objetos comuns, mas desprendidos de suas funções e de sua aura original.

Cul-de-sac-Fiacre, 81 rue Saint-Martin. Foto: Eugène Atget

Órfão de pai e mãe, foi criado e educado por um tio. Após tornar-se marinheiro por um período de tempo e passar três anos em um conservatório, tentou a sorte como ator para dar vazão à sua alma de artista. Partiu com uma pobre companhia de teatro em 1981, atuando nos subúrbios de Paris. Desiludiu-se alguns anos depois e, em 1889, passou a se dedicar a pintura, ofício responsável por lhe fazer desenvolver a capacidade de observação que o tornaria fotógrafo.

Ancien collège de Chanac, 12 rue de Bièvre. Foto: Eugène Atget.

Influenciado pelo surrealismo e desprezando a fotografia em seu formato convencional, aos 40 anos de idade, foi precursor do gênero moderno na capital francesa. Por conhecer cada canto da cidade, inaugurou a fotografia urbana: especializou-se em retratos do cotidiano e postais. Sua rotina como fotógrafo, que durou 25 anos, fazia-o carregar pela cidade cerca de 15kg de equipamento diariamente, com sua enorme câmera, um tripé de madeira e uma caixa de placas fotográficas de 18x24cm.

Jardin des Tuileries, ruines des Tuileries. Foto: Eugène Atget.

Uma das mais fortes marcas da estética de Atget se explica no fato de que ele pensava em suas fotos como modelos para pinturas — e vendê-las para artistas plásticos era a fonte de seu sustento. Como seu objetivo era produzir um material simples que servisse para a arte alheia, não existem traços de manipulações ou virtuosismos. O tema era abordado de forma crua e a feiura não era embelezada. Evitava os monumentos e a charmosa vida noturna, procurava a Paris ainda não representada nem idealizada: a real. Entre 1898 e 1910, Atget também trabalhou para arquitetos, decoradores e editores de livros.

Hôtel de Roquelaure, juillet 1906 sculpture par Injalbert, 1889. Foto: Eugène Atget.

Como definiu a escritora e editora alemã Camille Recht, a maioria dos escritores e críticos da época nada sabia sobre aquele homem que passava seu tempo percorrendo ateliês com suas fotos e as vendendo por alguns centavos. Nas palavras dela, “ele atingiu o polo da extrema maestria, mas na amarga modéstia de um grande artista que viveu na sombra [...]. Por isso, muitos julgam ter descoberto aquele polo que Atget alcançara antes deles”.

Rue des barres, 1898. Foto: Eugène Atget.

Em 1926, a nova-iorquina Berenice Abbott, assistente de Man Ray, recolheu suas mais de quatro mil imagens e 10 mil negativos para a edição de uma publicação com curadoria de Camille. As imagens escolhidas foram expostas no mesmo ano no Museu de Arte Moderna dos EUA sob o título La Révolution Surrealiste.

A l'homme armé 25 rue des blancs-monteaux. Foto: Eugène Atget.

Ainda que aclamado pelos artistas de vanguarda norte-americanos, o sucesso chegou tardiamente. Atget morreu pobre e solitário na cidade onde viveu toda a sua vida, Paris, um ano depois de sua primeira e única exposição.

18
jan

Estudo de caso: Luiz Barth e Ricardo Chaves comentam foto de Wilton de Souza Junior

Wilton de Souza Junior, fotógrafo do jornal O Estado de S. Paulo, venceu o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha. Sua foto de Dilma Rousseff durante cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ), venceu na categoria Fotografia. Publicada na edição de 21 de agosto de 2011 do Estadão, a imagem em questão cria um tipo de ilusão de ótica: no segundo plano, um militar empunha uma espada que parece transpassar a presidente brasileira.

O resultado foi anunciado pela Agência Efe e pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Enquanto o júri da Efe justificou a escolha destacando “a habilidade do fotógrafo para captar um instante de perfeita sincronização cujo resultado produz supresa”, nós aproveitamos para inaugurar uma nova categoria no blog: o estudo de caso. Nela, convidamos professores do Centro de Fotografia da ESPM-Sul para comentar imagens como a que protagoniza o post em questão. Para esta primeira edição, os profissionais escolhidos foram Luiz Barth, mestre em Artes Plásticas que leciona Composição, e o professor e fotojornalista Ricardo Chaves, o Kadão.

Barth começa apontando que captar um instante como este exige, sim, uma certa dose de sorte. “O enquadramento e a composição estão ótimos, com Dilma inclinada, quase caindo, quebrando a simetria e criando um ‘desconforto’”, analisa. Este recurso, definido como “o desastre eminente”, que prende o olhar do espectador, é um artifício utilizado por ilustradores e fotógrafos para chamar a atenção. Além disso, Barth aponta um detalhe interessante na imagem: o senso de humor.

Kadão destaca que embora as redações sempre tentem utilizar as fotos como verdades definitivas, provavalmente pelo fato de que isso corrobora o jornalismo afirmativo, a fotografia é subjetiva: “Ela é uma representação, um símbolo, um recorte da realidade”. A foto em questão é um ótimo exemplo disso, já que interessa por mostrar simbolicamente o delicado momento político vivido pela presidente. “É uma realidade que no fundo é uma ilusão, uma situação subjetiva. É uma representação de um estado de espírito que a nação percebe”.

Segundo Kadão, se o momento presidencial fosse positivo, a imagem provavelmente não seria publicada, o que também evidencia se tratar de um exercício subjetivo: “É uma decisão política de aproveitamento, que depende tanto da publicação quanto do contexto socio-político”. Para ele, a foto também atesta que além de um bom fotógrafo, Wilton é um jornalista competente, atento às notícias e ao mundo que o cerca. Captou um momento que não dependia apenas de sorte e editou bem, escolheu a melhor foto: a que coincidia com o que o jornal queria.

16
jan

Os novos ciganos britânicos, por Iain McKell

Há dez anos o inglês Iain McKell fotografa o estilo de vida de ciganos. Sem relação genética com os povos ciganos originais, os grupos que documenta são nômades por opção, e não por herança. Seu estilo de vida é marcado por ideais de liberdade, natureza e simplicidade. Em 2009, McKell tornou-se conhecido ao fotografar a modelo Kate Moss em meio a uma dessas comunidades para um editorial de moda da V Magazine.

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Em 1986, grupos pós-punk contrários as políticas propostas por Margareth Tacher, símbolo do neoliberalismo, saíram de Londres e rumaram para o interior inglês. Iain seguiu esta nova geração de viajantes, assistindo sua transformação em uma tribo hibrida de anarquistas rurais. Nos últimos dez anos, documentou a vida de pessoas de todas as idades, alguns solitários, outros, membros de famílias completas. O estilo de vestir e a estética dos acampamentos são retratados por McKell sob uma romântica palheta de cores.

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

É como “descaradamente românticos”, também, que ele define seus retratos: “Meu interesse é em seus rostos, suas almas, suas histórias. Eu queria capturá-los mostrando carinho e afeto”, explica. Uma das motivações de seu trabalho foi ajudar essas comunidades a enfrentar o preconceito, algo que está na rotina de seus deslocamentos. “Quero abrir a mente das pessoas. Elas estão sempre com medo do que não entendem”.

O resultado dessa década de trabalho está no livro The New Gypsies (2011) e foi exposto na galeria Clic, em Nova Iorque.