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Archive for janeiro, 2012

30
jan

Por trás das fotografias: arquivando lendas fotográficas

Tim Mantoani autografando sua obra.

Apenas lendo ou ouvindo descrições, podemos lembrar das imagens mais icônicas já tiradas na história da fotografia. Mas é possível recordar seus autores com tanta facilidade? Enquanto poucas pessoas conhecem o nome por trás desses registros, uma parcela ainda menor já viu o rosto dos responsáveis por eles. Pensando no fato de que não são as câmeras que fazem fotos, e sim pessoas que dedicaram suas vidas a isso, o fotógrafo Tim Mantoani criou um audacioso projeto: Behind Photographs: Archiving Photographic Legends (algo como “Por trás das fotografias: arquivando lendas fotográficas”).

"Cats Story tirada para a National Geographic. O diretor Thomas Kennedy me pediu para fotografar uma história inteira sobre 'Gatos'. Ele não queria que fosse convencional! Então resolver essa tarefa foi muito divertido. O Russian Blue Cat e as pernas da bailarina foram inspirados em George Balanchine - ele usou a ideia dos gatos 'pousando' sempre na ponta das patas para ensinar seus dançarinos." – Karen Kuehn.

Durante cinco anos, Mantoani fez mais de 150 retratos de fotógrafos segurando alguma imagem icônica de sua autoria, sempre motivado pela sensação de que eles não haviam recebido o crédito merecido. Em tempos em que todos têm boas câmeras nos bolsos e bilhões de fotos circulam livremente na internet, ele gostaria de fazer o público entender que as imagens não simplesmente acontecem. Nas palavras dele, sem essas pessoas e seu conhecimento de fotografia, aqueles momentos não estariam eternizados ali para nossa apreciação.

"Eu olhei para essa menina durante 17 anos e finalmente a encontrei em 2002. O nome dela é Sharbat Gula." Steve McCurry.

Já conhecido por seus retratos, Mantoani trabalha em São Diego, nos Estados Unidos, como fotógrafo comercial e editorial. Para esse projeto, desafiou suas habilidades ao fazer os retratos em enormes Polaroids de formato 20×24 — uma plataforma difícil em inúmeros aspectos. Apenas alguns poucos exemplares destas câmeras ainda existem e o filme é caríssimo: cerca de 200 dólares por foto. Ao longo da execução o preço dos filmes subiu ainda mais e alguns fotógrafos faleceram, o que mudou a relação de Mantoani com o projeto, já que a importância de cada imagem como um documento histórico se tornava cada vez maior. “Chegamos em um ponto da história em que estamos perdendo tanto os meios de fotografar quanto os fotógrafos”, define.

“Era para ser uma foto de abertura da matéria de capa da Rolling Stone sobre o Nirvana, juntamente com a divulgação do álbum “In Utero”, minha primeira Polaroid (com negativo) foi, de longe, a mais emotiva e reveladora do seu espírito. Dois meses depois, Kurt cometeu suicídio com um tiro na cabeça. Essa foto tornou-se a capa da edição em memória a Kurt.” Mark Seliger

Em cada uma das polaroids, o fotógrafo retratado escreveu a próprio punho uma mensagem sobre sua história. Outra curiosidade importante do processo é o fato de que, enquanto o digital permite que se trabalhe com a imagem após o clique, a técnica utilizada o forçou a voltar às suas raízes, aumentando a pressão de produzir uma imagem de qualidade antes mesmo de expor o filme. Outro ponto interessante é que algumas sessões funcionaram como mini-workshops, justamente pela experiência de cada fotógrafo. Steve McCurry, por exemplo, fez sugestões, mas insistindo que ele deveria fazer o que queria. Mantoani seguiu os conselhos feliz, considerando sua fonte.

"A magia da fotografia acontece quando você não vê o que virá em seguida." Brian Smith.

Tim afirma que o projeto, finalmente publicado em livro, é o primeiro passo para a construção e a difusão deste arquivo. Futuramente, quer transformá-lo em uma exposição. E fixa, de preferência: “Quero criar este acervo para que, algum dia, quando os fotógrafos se forem, meus netos possam apreciar suas fotografias, mas também saber como eles eram”.

Behind Photographs - Edição Especial.

27
jan

Gjon Mili, o fotógrafo que brincava com a luz

Gjon Mili no seu estúdio em Nova Iorque, 1983.

O fotógrafo Gjon Mili nasceu na Albânia, em 1904, mas mudou-se para os Estados Unidos aos 15 anos de idade. Uma década depois, começou a trabalhar como fotógrafo freelancer na Revista Life, onde permaneceu pelo resto de sua vida. Em 45 anos de profissão, viajou por lugares do mundo inteiro retratando celebridades, artistas, esportes, shows, arte e arquitetura.

Billie Holiday cantando 'Fine & Mellow' com Cozy Cole, James P. Johnson, 1941. Foto: Gjon Mili.

St. John's Defeating Bradley, 1951. Foto: Gjon Mili.

Alfred Hitchcock dirigindo Joseph Cotten e Teresa Wright em 'Shadow of a Doubt', 1942. Foto: Gjon Mili.

Com conhecimentos em engenharia, Mili sempre foi um fotógrafo autodidata. Nos anos 1930, em parceria com Harold Edgerton do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, foi pioneiro no uso de flash fotográfico para a captação de imagens (na época, o recurso era utilizado apenas para interesses científicos). Mili passou a utilizar luz estroboscópica para captar diversas cenas em uma única exposição — e usou essa técnica para estudar o movimento de bailarinos, malabaristas, patinadores e músicos. Esses estudos culminaram no vídeo Jammin’ The Blues, dirigido por ele e lançado pela Warner Bros. Usando imagens multiplicadas, o filme mostrou músicos de Jazz de maneira inédita, que muito lembra suas fotografias.

Gene Krupa, 1941. Foto: Gjon Mili.

Do it this way, 1943. Foto: Gjon mili.

Nude descending staircase, 1942. Foto: Gjon Mili.

Mili foi um dos precursores do light painting (ou “pintura com luz”), junto com Frank Gilbreth e Man Ray, que já haviam explorado a técnica em 1914 e 1935, respectivamente. Tudo começou quando, em 1940, colocou pequenas luzes nas botas de patinadores e deixou o obturador aberto. O resultado foi um ensaio que inspiraria ninguém menos que Pablo Picasso. Ao ser enviado ao sul da França para fotografá-lo, em 1949, mostrou-lhe as fotos e criou sua mais famosa série utilizando o recurso, Picasso’s Light Drawings (algo como “Os desenhos de luz de Picasso”). Imediatamente inspirado, o pintor espanhol pegou uma lanterna e fez desenhos no ar enquanto Mili fotografava. A mais famosa dessas imagens é Picasso Draws a Centaur (“Picasso Desenha um centauro”).

Picasso light painting, 1949. Foto: Gjon Mili.

Picasso draws a centaur, 1949. Foto: Gjon Mili.

Running Man, por Picasso. Foto: Gjon Mili.

Trecho do filme “Jammin’ the Blues”, dirigido por Gjon Mili.

25
jan

A arquitetura do tempo, por Hiroshi Sugimoto

Self-portrait, 2003. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Nascido em 1948, o fotógrafo Hiroshi Sugimoto cresceu em Tóquio, no Japão, onde se formou em Políticas e Sociologia. Em 1974, graduou-se no Art Center College of Art and Design de Los Angeles, estabelecendo-se em Nova Iorque pouco depois. Suas fotografias foram fortemente influenciadas pela obra de Marcel Duchamp, bem como os movimentos Dadaísta e Surrealista. Com quase 30 anos de atuação, seu trabalho é marcado por um desejo de mostrar a transitoriedade da vida, o conflito entre a existência e a morte. Nas palavras dele, o tempo é um conceito abstrato que não pode ser mostrado de maneira direta.

Diana Princess of Wales, 1999. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Pope John Paul II, 1999. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Fidel Castro, 1999. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Além de aclamado pelas características conceituais e filosóficas de suas fotografias, o uso de câmeras de grande formato e exposições extremamente longas garantiram sua reputação como um fotógrafo de grande habilidade técnica. Em suas imagens, geralmente em preto e branco, paisagens ganham uma atmosfera sombria, objetos pequenos parecem gigantescos, cinemas se transformam em combinações de formas geométricas e pessoas se mostram alheias ao tempo e ao espaço.

Gemsbok, 1982. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Gorilla, 2004. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Hyena Jackel Vulture, 1976. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Em uma de suas mais famosas séries, Theatres (1978), Sugimoto fotografou salas de cinema e drive-ins antigos dos Estados Unidos, sempre durante a transmissão de um longa metragem. O projetor é a única fonte de luz e, devido a longa exposição, quase sempre equivalente ao tempo de duração do filme, as pessoas e os demais elementos em movimento na sala de cinema não aparecem nas fotos, deixando que a tela luminosa no centro da composição e os detalhes da arquitetura sejam os protagonistas em todas as imagens.

Movie Theatre Canton Palace, Ohio, 1980. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Movie Theatre Akron Civic, Ohio, 1980. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Tri City Drive-In, 1993. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Em 1980, Sugimoto começou a trabalhar em uma série de fotos do mar e do horizonte que mais tarde seria intitulada Seascapes. Uma dessas fotografias, Boden sea, ilustrou a capa de dois álbuns musicais, Claro (2001), do grupo finlandês Brothomstates e No line on the horizon (2009), do U2.

Boden Sea, 1993. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Ligurian Sea, Saviore, 1982. Foto: Hiroshi Sugimoto.

North Atlantic Ocean, Cape Breton Island, 1996. Foto: Hiroshi Sugimoto.