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Archive for janeiro, 2012

30
jan

Por trás das fotografias: arquivando lendas fotográficas

Tim Mantoani autografando sua obra.

Apenas lendo ou ouvindo descrições, podemos lembrar das imagens mais icônicas já tiradas na história da fotografia. Mas é possível recordar seus autores com tanta facilidade? Enquanto poucas pessoas conhecem o nome por trás desses registros, uma parcela ainda menor já viu o rosto dos responsáveis por eles. Pensando no fato de que não são as câmeras que fazem fotos, e sim pessoas que dedicaram suas vidas a isso, o fotógrafo Tim Mantoani criou um audacioso projeto: Behind Photographs: Archiving Photographic Legends (algo como “Por trás das fotografias: arquivando lendas fotográficas”).

"Cats Story tirada para a National Geographic. O diretor Thomas Kennedy me pediu para fotografar uma história inteira sobre 'Gatos'. Ele não queria que fosse convencional! Então resolver essa tarefa foi muito divertido. O Russian Blue Cat e as pernas da bailarina foram inspirados em George Balanchine - ele usou a ideia dos gatos 'pousando' sempre na ponta das patas para ensinar seus dançarinos." – Karen Kuehn.

Durante cinco anos, Mantoani fez mais de 150 retratos de fotógrafos segurando alguma imagem icônica de sua autoria, sempre motivado pela sensação de que eles não haviam recebido o crédito merecido. Em tempos em que todos têm boas câmeras nos bolsos e bilhões de fotos circulam livremente na internet, ele gostaria de fazer o público entender que as imagens não simplesmente acontecem. Nas palavras dele, sem essas pessoas e seu conhecimento de fotografia, aqueles momentos não estariam eternizados ali para nossa apreciação.

"Eu olhei para essa menina durante 17 anos e finalmente a encontrei em 2002. O nome dela é Sharbat Gula." Steve McCurry.

Já conhecido por seus retratos, Mantoani trabalha em São Diego, nos Estados Unidos, como fotógrafo comercial e editorial. Para esse projeto, desafiou suas habilidades ao fazer os retratos em enormes Polaroids de formato 20×24 — uma plataforma difícil em inúmeros aspectos. Apenas alguns poucos exemplares destas câmeras ainda existem e o filme é caríssimo: cerca de 200 dólares por foto. Ao longo da execução o preço dos filmes subiu ainda mais e alguns fotógrafos faleceram, o que mudou a relação de Mantoani com o projeto, já que a importância de cada imagem como um documento histórico se tornava cada vez maior. “Chegamos em um ponto da história em que estamos perdendo tanto os meios de fotografar quanto os fotógrafos”, define.

“Era para ser uma foto de abertura da matéria de capa da Rolling Stone sobre o Nirvana, juntamente com a divulgação do álbum “In Utero”, minha primeira Polaroid (com negativo) foi, de longe, a mais emotiva e reveladora do seu espírito. Dois meses depois, Kurt cometeu suicídio com um tiro na cabeça. Essa foto tornou-se a capa da edição em memória a Kurt.” Mark Seliger

Em cada uma das polaroids, o fotógrafo retratado escreveu a próprio punho uma mensagem sobre sua história. Outra curiosidade importante do processo é o fato de que, enquanto o digital permite que se trabalhe com a imagem após o clique, a técnica utilizada o forçou a voltar às suas raízes, aumentando a pressão de produzir uma imagem de qualidade antes mesmo de expor o filme. Outro ponto interessante é que algumas sessões funcionaram como mini-workshops, justamente pela experiência de cada fotógrafo. Steve McCurry, por exemplo, fez sugestões, mas insistindo que ele deveria fazer o que queria. Mantoani seguiu os conselhos feliz, considerando sua fonte.

"A magia da fotografia acontece quando você não vê o que virá em seguida." Brian Smith.

Tim afirma que o projeto, finalmente publicado em livro, é o primeiro passo para a construção e a difusão deste arquivo. Futuramente, quer transformá-lo em uma exposição. E fixa, de preferência: “Quero criar este acervo para que, algum dia, quando os fotógrafos se forem, meus netos possam apreciar suas fotografias, mas também saber como eles eram”.

Behind Photographs - Edição Especial.

27
jan

Gjon Mili, o fotógrafo que brincava com a luz

Gjon Mili no seu estúdio em Nova Iorque, 1983.

O fotógrafo Gjon Mili nasceu na Albânia, em 1904, mas mudou-se para os Estados Unidos aos 15 anos de idade. Uma década depois, começou a trabalhar como fotógrafo freelancer na Revista Life, onde permaneceu pelo resto de sua vida. Em 45 anos de profissão, viajou por lugares do mundo inteiro retratando celebridades, artistas, esportes, shows, arte e arquitetura.

Billie Holiday cantando 'Fine & Mellow' com Cozy Cole, James P. Johnson, 1941. Foto: Gjon Mili.

St. John's Defeating Bradley, 1951. Foto: Gjon Mili.

Alfred Hitchcock dirigindo Joseph Cotten e Teresa Wright em 'Shadow of a Doubt', 1942. Foto: Gjon Mili.

Com conhecimentos em engenharia, Mili sempre foi um fotógrafo autodidata. Nos anos 1930, em parceria com Harold Edgerton do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, foi pioneiro no uso de flash fotográfico para a captação de imagens (na época, o recurso era utilizado apenas para interesses científicos). Mili passou a utilizar luz estroboscópica para captar diversas cenas em uma única exposição — e usou essa técnica para estudar o movimento de bailarinos, malabaristas, patinadores e músicos. Esses estudos culminaram no vídeo Jammin’ The Blues, dirigido por ele e lançado pela Warner Bros. Usando imagens multiplicadas, o filme mostrou músicos de Jazz de maneira inédita, que muito lembra suas fotografias.

Gene Krupa, 1941. Foto: Gjon Mili.

Do it this way, 1943. Foto: Gjon mili.

Nude descending staircase, 1942. Foto: Gjon Mili.

Mili foi um dos precursores do light painting (ou “pintura com luz”), junto com Frank Gilbreth e Man Ray, que já haviam explorado a técnica em 1914 e 1935, respectivamente. Tudo começou quando, em 1940, colocou pequenas luzes nas botas de patinadores e deixou o obturador aberto. O resultado foi um ensaio que inspiraria ninguém menos que Pablo Picasso. Ao ser enviado ao sul da França para fotografá-lo, em 1949, mostrou-lhe as fotos e criou sua mais famosa série utilizando o recurso, Picasso’s Light Drawings (algo como “Os desenhos de luz de Picasso”). Imediatamente inspirado, o pintor espanhol pegou uma lanterna e fez desenhos no ar enquanto Mili fotografava. A mais famosa dessas imagens é Picasso Draws a Centaur (“Picasso Desenha um centauro”).

Picasso light painting, 1949. Foto: Gjon Mili.

Picasso draws a centaur, 1949. Foto: Gjon Mili.

Running Man, por Picasso. Foto: Gjon Mili.

Trecho do filme “Jammin’ the Blues”, dirigido por Gjon Mili.

25
jan

A arquitetura do tempo, por Hiroshi Sugimoto

Self-portrait, 2003. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Nascido em 1948, o fotógrafo Hiroshi Sugimoto cresceu em Tóquio, no Japão, onde se formou em Políticas e Sociologia. Em 1974, graduou-se no Art Center College of Art and Design de Los Angeles, estabelecendo-se em Nova Iorque pouco depois. Suas fotografias foram fortemente influenciadas pela obra de Marcel Duchamp, bem como os movimentos Dadaísta e Surrealista. Com quase 30 anos de atuação, seu trabalho é marcado por um desejo de mostrar a transitoriedade da vida, o conflito entre a existência e a morte. Nas palavras dele, o tempo é um conceito abstrato que não pode ser mostrado de maneira direta.

Diana Princess of Wales, 1999. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Pope John Paul II, 1999. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Fidel Castro, 1999. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Além de aclamado pelas características conceituais e filosóficas de suas fotografias, o uso de câmeras de grande formato e exposições extremamente longas garantiram sua reputação como um fotógrafo de grande habilidade técnica. Em suas imagens, geralmente em preto e branco, paisagens ganham uma atmosfera sombria, objetos pequenos parecem gigantescos, cinemas se transformam em combinações de formas geométricas e pessoas se mostram alheias ao tempo e ao espaço.

Gemsbok, 1982. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Gorilla, 2004. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Hyena Jackel Vulture, 1976. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Em uma de suas mais famosas séries, Theatres (1978), Sugimoto fotografou salas de cinema e drive-ins antigos dos Estados Unidos, sempre durante a transmissão de um longa metragem. O projetor é a única fonte de luz e, devido a longa exposição, quase sempre equivalente ao tempo de duração do filme, as pessoas e os demais elementos em movimento na sala de cinema não aparecem nas fotos, deixando que a tela luminosa no centro da composição e os detalhes da arquitetura sejam os protagonistas em todas as imagens.

Movie Theatre Canton Palace, Ohio, 1980. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Movie Theatre Akron Civic, Ohio, 1980. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Tri City Drive-In, 1993. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Em 1980, Sugimoto começou a trabalhar em uma série de fotos do mar e do horizonte que mais tarde seria intitulada Seascapes. Uma dessas fotografias, Boden sea, ilustrou a capa de dois álbuns musicais, Claro (2001), do grupo finlandês Brothomstates e No line on the horizon (2009), do U2.

Boden Sea, 1993. Foto: Hiroshi Sugimoto.

Ligurian Sea, Saviore, 1982. Foto: Hiroshi Sugimoto.

North Atlantic Ocean, Cape Breton Island, 1996. Foto: Hiroshi Sugimoto.

23
jan

Simplicidade surrealista: o parisiense Eugène Atget

Eugène Atget, 1927. Foto: Berenice Abbott.

Hoje aclamado como um dos mais importantes fotógrafos da história, o francês Engène Atget não gozou deste prestígio em vida — provavelmente por realizar um trabalho à frente de seu tempo. Nascido em 1857, foi pioneiro ao desviar o olhar do ser humano: retratava o vazio das ruas e esquinas de Paris, sua cidade natal, e objetos comuns, mas desprendidos de suas funções e de sua aura original.

Cul-de-sac-Fiacre, 81 rue Saint-Martin. Foto: Eugène Atget

Órfão de pai e mãe, foi criado e educado por um tio. Após tornar-se marinheiro por um período de tempo e passar três anos em um conservatório, tentou a sorte como ator para dar vazão à sua alma de artista. Partiu com uma pobre companhia de teatro em 1981, atuando nos subúrbios de Paris. Desiludiu-se alguns anos depois e, em 1889, passou a se dedicar a pintura, ofício responsável por lhe fazer desenvolver a capacidade de observação que o tornaria fotógrafo.

Ancien collège de Chanac, 12 rue de Bièvre. Foto: Eugène Atget.

Influenciado pelo surrealismo e desprezando a fotografia em seu formato convencional, aos 40 anos de idade, foi precursor do gênero moderno na capital francesa. Por conhecer cada canto da cidade, inaugurou a fotografia urbana: especializou-se em retratos do cotidiano e postais. Sua rotina como fotógrafo, que durou 25 anos, fazia-o carregar pela cidade cerca de 15kg de equipamento diariamente, com sua enorme câmera, um tripé de madeira e uma caixa de placas fotográficas de 18x24cm.

Jardin des Tuileries, ruines des Tuileries. Foto: Eugène Atget.

Uma das mais fortes marcas da estética de Atget se explica no fato de que ele pensava em suas fotos como modelos para pinturas — e vendê-las para artistas plásticos era a fonte de seu sustento. Como seu objetivo era produzir um material simples que servisse para a arte alheia, não existem traços de manipulações ou virtuosismos. O tema era abordado de forma crua e a feiura não era embelezada. Evitava os monumentos e a charmosa vida noturna, procurava a Paris ainda não representada nem idealizada: a real. Entre 1898 e 1910, Atget também trabalhou para arquitetos, decoradores e editores de livros.

Hôtel de Roquelaure, juillet 1906 sculpture par Injalbert, 1889. Foto: Eugène Atget.

Como definiu a escritora e editora alemã Camille Recht, a maioria dos escritores e críticos da época nada sabia sobre aquele homem que passava seu tempo percorrendo ateliês com suas fotos e as vendendo por alguns centavos. Nas palavras dela, “ele atingiu o polo da extrema maestria, mas na amarga modéstia de um grande artista que viveu na sombra [...]. Por isso, muitos julgam ter descoberto aquele polo que Atget alcançara antes deles”.

Rue des barres, 1898. Foto: Eugène Atget.

Em 1926, a nova-iorquina Berenice Abbott, assistente de Man Ray, recolheu suas mais de quatro mil imagens e 10 mil negativos para a edição de uma publicação com curadoria de Camille. As imagens escolhidas foram expostas no mesmo ano no Museu de Arte Moderna dos EUA sob o título La Révolution Surrealiste.

A l'homme armé 25 rue des blancs-monteaux. Foto: Eugène Atget.

Ainda que aclamado pelos artistas de vanguarda norte-americanos, o sucesso chegou tardiamente. Atget morreu pobre e solitário na cidade onde viveu toda a sua vida, Paris, um ano depois de sua primeira e única exposição.

18
jan

Estudo de caso: Luiz Barth e Ricardo Chaves comentam foto de Wilton de Souza Junior

Wilton de Souza Junior, fotógrafo do jornal O Estado de S. Paulo, venceu o Prêmio Internacional de Jornalismo Rei da Espanha. Sua foto de Dilma Rousseff durante cerimônia na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ), venceu na categoria Fotografia. Publicada na edição de 21 de agosto de 2011 do Estadão, a imagem em questão cria um tipo de ilusão de ótica: no segundo plano, um militar empunha uma espada que parece transpassar a presidente brasileira.

O resultado foi anunciado pela Agência Efe e pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Enquanto o júri da Efe justificou a escolha destacando “a habilidade do fotógrafo para captar um instante de perfeita sincronização cujo resultado produz supresa”, nós aproveitamos para inaugurar uma nova categoria no blog: o estudo de caso. Nela, convidamos professores do Centro de Fotografia da ESPM-Sul para comentar imagens como a que protagoniza o post em questão. Para esta primeira edição, os profissionais escolhidos foram Luiz Barth, mestre em Artes Plásticas que leciona Composição, e o professor e fotojornalista Ricardo Chaves, o Kadão.

Barth começa apontando que captar um instante como este exige, sim, uma certa dose de sorte. “O enquadramento e a composição estão ótimos, com Dilma inclinada, quase caindo, quebrando a simetria e criando um ‘desconforto’”, analisa. Este recurso, definido como “o desastre eminente”, que prende o olhar do espectador, é um artifício utilizado por ilustradores e fotógrafos para chamar a atenção. Além disso, Barth aponta um detalhe interessante na imagem: o senso de humor.

Kadão destaca que embora as redações sempre tentem utilizar as fotos como verdades definitivas, provavalmente pelo fato de que isso corrobora o jornalismo afirmativo, a fotografia é subjetiva: “Ela é uma representação, um símbolo, um recorte da realidade”. A foto em questão é um ótimo exemplo disso, já que interessa por mostrar simbolicamente o delicado momento político vivido pela presidente. “É uma realidade que no fundo é uma ilusão, uma situação subjetiva. É uma representação de um estado de espírito que a nação percebe”.

Segundo Kadão, se o momento presidencial fosse positivo, a imagem provavelmente não seria publicada, o que também evidencia se tratar de um exercício subjetivo: “É uma decisão política de aproveitamento, que depende tanto da publicação quanto do contexto socio-político”. Para ele, a foto também atesta que além de um bom fotógrafo, Wilton é um jornalista competente, atento às notícias e ao mundo que o cerca. Captou um momento que não dependia apenas de sorte e editou bem, escolheu a melhor foto: a que coincidia com o que o jornal queria.

16
jan

Os novos ciganos britânicos, por Iain McKell

Há dez anos o inglês Iain McKell fotografa o estilo de vida de ciganos. Sem relação genética com os povos ciganos originais, os grupos que documenta são nômades por opção, e não por herança. Seu estilo de vida é marcado por ideais de liberdade, natureza e simplicidade. Em 2009, McKell tornou-se conhecido ao fotografar a modelo Kate Moss em meio a uma dessas comunidades para um editorial de moda da V Magazine.

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Em 1986, grupos pós-punk contrários as políticas propostas por Margareth Tacher, símbolo do neoliberalismo, saíram de Londres e rumaram para o interior inglês. Iain seguiu esta nova geração de viajantes, assistindo sua transformação em uma tribo hibrida de anarquistas rurais. Nos últimos dez anos, documentou a vida de pessoas de todas as idades, alguns solitários, outros, membros de famílias completas. O estilo de vestir e a estética dos acampamentos são retratados por McKell sob uma romântica palheta de cores.

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

Foto: Iain McKelly

É como “descaradamente românticos”, também, que ele define seus retratos: “Meu interesse é em seus rostos, suas almas, suas histórias. Eu queria capturá-los mostrando carinho e afeto”, explica. Uma das motivações de seu trabalho foi ajudar essas comunidades a enfrentar o preconceito, algo que está na rotina de seus deslocamentos. “Quero abrir a mente das pessoas. Elas estão sempre com medo do que não entendem”.

O resultado dessa década de trabalho está no livro The New Gypsies (2011) e foi exposto na galeria Clic, em Nova Iorque.

12
jan

O cão é o melhor amigo de William Wegman

Desde os anos 1970 o norte-americano William Wegman trabalha artisticamente em diversos suportes, com suas fotografias, pinturas e vídeos. Seus trabalhos mais famosos são as séries fotográficas com cães da raça Weimaraner. O artista também é considerado pioneiro na videoarte: produz pequenos clipes experimentais, também protagonizados por seus cachorros.

Retrato de William Wegman. Foto: Tim Mantoani.

A intenção original de Wegman era construir uma carreira como pintor, tornando-se mestre em Artes. Já como professor da Universidade de Califórnia, comprou o primeiro e mais famoso de seus cães, Man Ray — uma homenagem ao fotógrafo homônimo. Logo, ele se tornou o elemento mais marcante de suas fotografias e, de tão popular, foi nomeado o “homem do ano” pela revista Village Voice em 1982.

Red Toy, 2006. Foto: William Wegman.

Spring, 2002. Foto: William Wegman.

Com a morte do cão, Wegman demorou anos até ter coragem para substituí-lo. Acabou comprando Fay Ray, também da raça Weimaraner, batizada em homenagem à famosa atriz de cinema. Com a primeira ninhada de Fay, em 1989, a família cresceu, abraçando seus filhos Battina, Crooky e Chundo e, mais tarde, os netos (bisnetos e tataranetos) Chip, filho de Battina; Bobbin, filho de Chip; e Penny, filha de Bobbin.

Canon Aside, 2000. Foto: William Wegman.

Entabled, 1988. Foto: William Wegman.

Wegman fotografa seus cães em poses que parecem dirigidas, muitas vezes enfeitados e com adereços. É importante não se deixar enganar pelo toque de humor presente em seu trabalho: uma possível interpretação é a de que ao inserir seus cachorros em um universo particular dos homens, encarnando muitas vezes o estilo de vida americano, Willian satiriza com a nossa realidade, e não com os cães. De forma espirituosa, suas fotografias tecem um comentário divertido sobre os elementos absurdos de nosso cotidiano.

Ethiopia, 2005. Foto: William Wegman.


Game Board. Foto: William Wegman.

Outro dos aspectos interessantes de seu trabalho é que, ao mesmo tempo em que ele se tornou respeitado no mundo inteiro e ganhou coleções permanentes em museus, suas imagens também têm forte apelo popular. Seus cães apareceram em livros, anúncios publicitários, filmes e programas de TV (como Vila Sésamo e Saturday Night Live).

Leaf Line, 2005. Foto: William Wegman.

Ray, 2006. Foto: William Wegman.

11
jan

Mestres da Fotografia de Moda: Erwin Blumenfeld

Diferente de alguns fotógrafos que descobrem seus dotes na adolescência ou na idade adulta, o alemão radicado nos Estados Unidos Erwin Blumenfeld começou a fotografar ainda criança, em Berlim. Nascido em 1897, mudou-se para Holanda em 1918, onde se envolveu com o movimento Dadaísta. Nesta época começou a dar seus primeiros passos significativos como fotógrafo e produziu uma série de colagens que incluia um deboche de Aldof Hitler.

Autorretrato de Erwin Blumenfeld, 1945.

Erwin costumava afirmar que sua carreira começou quase que por acidente. Para financiá-la, abriu uma loja de artigos de couro em que as paredes escondiam um estúdio de fotografia totalmente equipado. Não demorou muito para que ele construísse um forte diferencial neste ofício, mixando imagens elegantes com técnicas complexas e originais nas quais se destacavam o uso de solarização e espelhos. Em 1936, já casado, mudou-se para Paris com sua família e levou seu portfólio profissional e pessoal (que incluía nus e imagens de arquitetura) para as revistas Vogue e Harper’s Bazaar, sendo bem recebido em ambas.

Doe Eye of Jean Patchett Cover for Vogue, 1950. Foto: Erwin Blumenfeld.

 

Audrey Hepburn, 1952. Foto: Erwin Blumenfeld.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, passou por um campo de concentração francês como estrangeiro, mas acabou sendo autorizado a viajar para os Estados Unidos, onde, alguns anos depois, ganharia cidadania americana e se tornaria o fotógrafo de moda mais bem pago do mundo.

Red Cross for Vogue, 1945. Foto: Erwin Blumenfeld.

 

Fashion College, 1950. Foto: Erwin Blumenfeld.

Foi em Nova Iorque que fortaleceu definitivamente seu estilo. Alguns de seus recursos técnicos favoritos eram solarização, seda molhada e uso de sombras e reflexos com ângulos elaboradamente planejados. Enquanto em sua obra pessoal predomina o preto e branco, seu trabalho comercial é majoritariamente colorido, influenciado pela pintura clássica e moderna.

Powder Box, 1944. Foto: Erwin Blumenfeld.

 

Revolving, 1950. Foto: Erwin Blumenfeld.

Blumenfeld faleceu em Roma em 1969. Detalhes de sua vida são descritos de forma picaresca em sua autobiografia, escrita de 1955 a 1969 e publicada em 1998 sob o título “Einbildungsroman, Eichborn Verlag” (algo como “Romance de fantasia”). Originalmente em alemão, foi traduzida para os idiomas francês, inglês e holandês. Um aspecto menos conhecido de sua carreira é que ele costumava fazer filmes experimentais. Um deles pode ser assistido abaixo:

9
jan

As cores da natureza por Eliot Porter

Artista com forte interesse ambiental e científico, além de senso gráfico afiado, Eliot Porter é um fotógrafo conhecido por dar cores à natureza quando os registros ambientais ainda eram monocromáticos. Nascido em Chicago, nos Estados Unidos, herdou do pai o amor pela ciência e da mãe a simpatia por causas sociais. Ganhou sua primeira câmera em 1911, aos 10 anos, e desde então tornou-se um fotógrafo amador, tendo como principal desafio retratar passarinhos.

Retrato de Eliot Porter de 1952. Foto: Laura Gilpin.

Após formar-se em Engenharia Química e Medicina, começou a trabalhar com pesquisa biomédica na Universidade de Harvard, mas nunca abandonou a fotografia. Estimulado pelo irmão, o pintor realista Fairfield Porter, e pelos artistas e fotógrafos Alfred Stieglitz e Ansel Adams, dedicou-se cada vez mais a fotografar as paisagens do norte da Inglaterra. Em 1938, Stieglitz o convidou para expor pela primeira vez, em uma galeria nova-iorquina e junto com veteranos. Devido ao sucesso, Porter largou a Medicina. Quase que imeditamente, abandonou, também, o preto e branco.

Rock-eroded stream bed, 1971. Foto: Eliot Porter.

 

Foto: Eliot Porter

 

Lichens on a rock, 1972. Foto: Eliot Porter.

Os curadores do museu texano Amon Carter, onde seu portfólio completo e seus arquivos pessoais estão em permanente exposição, afirmam que ele foi o grande responsável por introduzir a cor na fotografia de natureza. Ao fazê-lo, criou uma nova maneira de ver o mundo que, hoje, já se tornou lugar comum. Porter começou a usar as cores em 1939, bem antes de seus colegas de profissão. Seu objetivo inicial era captar o vôo dos pássaros com mais precisão e plasticidade, logo ampliando seu foco para as belezas da natureza em geral.

Foto: Eliot Porter.

 

Dead Leaves, 1968. Foto: Eliot Porter.

 

Foto: Eliot Porter.

Seus mais de 50 anos de carreira, com 25 livros publicados, incluíram passagens por diversos lugares do mundo e a construção de uma sólida reputação, com um trabalho que empolgou ambientalistas e atraiu a atenção de museus. Já no final de sua vida, o livro Caos: a criação de uma nova ciência (1987), de James Gleick, fez com que ele reexaminasse todo o seu trabalho sob o contexto da Teoria do Caos. Ambos colaboraram em um projeto lançado em 1990, ano da morte de Porter, intitulado Nature’s Chaos, combinando suas imagens com um novo ensaio de Gleick.

Beech and bare trees, 1967. Foto: Eliot Porter.

 

Foto: Eliot Porter.

6
jan

“Eu também não entendo! Eu apenas fotografo.”

A frase acima traduz o sentimento de Jan Saudek ao ser questionado, no início de sua carreira, por pessoas que não entendiam o que suas fotografias expressavam, o que ele queria comunicar. Na realidade, o fotógrafo tcheco não queria que suas fotos fossem compreendidas, queria que elas fossem apreciadas:

Retrato de Jan Saudek.

“(…) as pessoas do meu país, adolescentes sem barba, mães com dois filhos, homens adultos sugados pela indústria, a jovem menina que está sempre se olhando no espelho… são eles que sabem. Não quero instruí-los com ‘articismos’, quero dizê-los que são lindos e que é com honra e humildade que apresento a eles minhas fotos.”

My mother, 1979. Foto: Jan Saudek.

Beautiful girl I loved, 1994. Foto: Jan Saudek.

Saudek nasceu em Praga, em 1935. Ainda na infância, perdeu sua família, morta no campo de concentração nazista Theresienstadt durante a Segunda Guerra Mundial. Viveu anos em um campo para crianças localizado nos arredores da Polônia e sobreviveu, junto com seu irmão.

Coca-Cola, 1971. Foto: Jan Saudek.

Aos 15 anos, passou a trabalhar em uma loja de impressão, mas foi logo chamado para o serviço militar. De lá, saiu com o desejo de tornar-se fotógrafo, inspirado e encorajado pelo influente curador americano Hugh Edwards. Viajou para os Estados Unidos e, ao retornar, foi forçado a trabalhar clandestinamente em um porão, evitando a atenção da polícia secreta. Na época, já fotógrafo, começou a preencher sua obra com temas eróticos e libertários, usando, explícita ou implicitamente, símbolos de corrupção, poder e inocência.

New York, New York!, 1985. Foto: Jan Saudek.

A partir da década 1970, começou a se tornar conhecido na República Tcheca. Publicou seu primeiro livro de imagens em 1983 e um ano depois foi autorizado pelo governo comunista a abandonar seu emprego informal, presenteado com um visto que o permitia trabalhar como artista. Desde então, seu único problema com a polícia foi quando alguns de seus negativos foram apreendidos, em 1987.

Pavla, the first Time and the last, 1978. Foto: Jan Saudek.

Suas imagens parecem ser feitas em cenários provenientes do mundo dos sonhos. Seja em preto e branco ou em cores saturadas (Saudek pinta à mão as fotografias em tom sépia), seu trabalho têm uma atmosfera nostálgica recheada de elementos contemporâneos. Há certa influência dos retratos feitos em estúdio por fotógrafos eróticos em meados do século XIX, bem como das obras do pintor Balthus e do fotógrafo francês Bernard Faucon.

120 km/h, 1975. Foto: Jan Saudek.

Enquanto seus primeiros cliques são cheios de referências à infância, muitos dos posteriores mostram o crescimento da criança até a chegada da idade adulta — durante anos, muitas de suas imagens foram refeitas, com os mesmos personagens em poses, cenários e figurinos similares. A religião e a dualidade entre o feminino e o masculino também são temas constantes em sua obra. Certos países do Ocidente tentaram censurá-lo nos anos 1990, classificando seu trabalho como puramente pornográfico. No fim das contas, apenas aumentaram sua popularidade.

St. Christopher, 2002. Foto: Jan Saudek.

“O artista também não compreende. Ele é um idiota, criando em função de um tipo de necessidade”
Jan Saudek

5
jan

Sobre delicadeza e plasticidade

Membro fundador do grupo vanguardista f/64 e conhecida por suas fotografias de nus, cenas urbanas e temas botânicos, a americana Imogen Cunningham nasceu em 1883, em Portland. Sua primeira câmera fotográfica foi comprada aos 18 anos, mas o interesse não durou muito e a peça foi vendida pouco depois.

Auto-retrato, 1909.

O desejo de tornar-se fotógrafa voltou em 1906, quando conheceu e maravilhou-se com o trabalho de Gertrude Kasebier. Assim, aconselhada por um professor, cursou Química na Universidade de Washington, em Seattle. A construção de uma base acadêmica forte foi fundamental para a qualidade e o rigor técnico de seus trabalhos. Para pagar as despesas, trabalhou como secretária e fez slides para o departamento de botânica. Seu trabalho de conclusão, intitulado “Processos Modernos de Fotografia”, fez sucesso e foi traduzido para outros idiomas.

Leaf Pattern, 1929. Foto: Imogen Cunningham.

Depois da graduação, Imogen trabalhou no estúdio de retratos de Edward S. Curtis, onde aprendeu as técnicas de impressão em platina e familiarizou-se com o lado prático da fotografia. Interrompeu a atividade em 1909, quando a fraternidade a que era vinculada no período universitário a presenteou com uma bolsa de estudos na Technische Hochshule, em Dresden, na Alemanha. Ao retornar, abriu seu próprio, e rapidamente bem sucedido, estúdio de retratos.

Frida Kahlo, 1931. Foto: Imogen Cunningham.

Imogen era a única fotógrafa entre os membros fundadores da Sociedade de Artistas de Seattle, realizando constantes exposições na cidade. Suas fotografias retratavam com suavidade cenas românticas – que, às vezes, eram protagonizadas por ela e seus amigos. Na época, publicou o artigo “A fotografia como uma profissão para mulheres”, incitando a classe feminina a construir carreiras. Nas palavras dela, não para superar os homens, mas para tentar fazer algo por si mesmas.

Two Girls In Shadows, 1944. Foto: Imogen Cunningham.

Quando casou-se, mais precisamente após o nascimento do primeiro de seus três filhos, Imogen mudou-se para a Califórnia. Seu marido, Roi Partridge, posou para uma série de fotografias de nus aclamadas pela crítica, mas rejeitadas pelo público. Cunningan só revisitaria o tema passados mais de 50 anos.

Depois de um longo período fotografando apenas seus familiares e as flores de seu jardim, Imogen aceitou sua primeira missão comercial, para o Ballet Adolph Bohn. Na mesma época, viu seu reconhecimento crescer, expondo no prestigioso Film and Foto Exhibition de Stuttgart, na Alemanha, e em museus de arte de Berkeley e São Francisco. Seus retratos da bailarina Martha Graham foram publicados na Vanity Fair, que a convidou para trabalhar como retratista de personalidades.

Martha Graham IV, 1931. Foto: Imogen Cunningham.

Foi em 1932 que fundou, em parceria com outros fotógrafos — entre eles Ansel Adams, Edward Weston e Willard Van Dyke —, o grupo f/64. Seu objetivo era alcançar a “fotografia pura”, sem derivados de qualquer outra forma de arte, dispensando artifícios técnicos ou de composição e a defendendo como uma legítima e auto-suficiente manifestação artística. A ênfase do coletivo era a busca de imagens nítidas, com imensa profundidade de campo — daí a origem do nome, f/64, abertura mínima do diafragma de lentes fotográficas.

Eikos Hands, 1971. Foto: Imogen Cunningham.

Nos anos 1940, passou a fotografar cenários urbanos como um projeto pessoal, paralelo ao trabalho comercial e à fotografia de estúdio. Na mesma década, tornou-se professora da California School of Fine Arts. Cunningham continuou fotografando até pouco antes de sua morte, em junho de 1976, aos 93 anos.

Imogen Cunningham e Twinka Thiebaud durante aula de fotografia de nu, em 1974. Foto: Judy Dater.

2
jan

O espírito de nosso tempo sob as lentes de Andreas Gursky

Retrato de Andreas Gursky

É possível dizer que Andreas Gursky aprendeu fotografia três vezes. Nascido em 1955 como o único filho de um bem sucedido fotógrafo comercial, cresceu em Dusseldorf, na Alemanha, aprendendo os truques do ramo antes mesmo de completar o Ensino Médio. No final dos anos 1970, passou dois anos na Folkwagschule, a Escola Folkwang, onde Otto Steinert havia criado um centro de treinamento para fotógrafos profissionais – em especial fotojornalistas. Por lá, Gursky entrou em contato com a tradição documental da fotografia, que, calcada na observação, se distanciava da fotografia comercial.

Pyongyang V, 2007 Foto: Andreas Gursky

Nos anos 1980, começou a estudar na Staatliche Kunstakademie, em sua cidade natal, onde graças a artistas como Joseph Beuys, Sigmar Polke e Gerhard Richter, tornou-se parte do foco da vibrante Alemanha no cenário pós-guerra. Lá, entrou em contato com o mundo das artes e com o método rigoroso de Bernd e Hilla Becher, fotógrafos que alcançaram destaque dentro do movimento de arte conceitual no país.

Kuwait Stock Exchange, 2008 Foto: Andreas Gursky

Quando Gursky começou a ganhar destaque, suas fotografias eram interpretadas como uma extensão da estética de seus professores. Na maturidade foi que a gama completa de sua educação refletiu na produção fotográfica, fazendo com que ele superasse os mestres — ao menos na opinião do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o MoMA, responsável pela curadoria de algumas de suas exposições. Suas fotografias, grandes, vigorosas e ricas em cores e detalhes, constituem, ainda de acordo com informações MoMA, uma das conquistas mais originais e complexas do nosso tempo.

99 Cent II, 2001 Foto: Andreas Gursky

Foi a partir dos anos 1990 que o fotógrafo inclinou seu foco para elementos representativos da identidade coletiva contemporânea — que pode ser definida em alemão, sua língua original, como zeitgeist, o “espírito de nosso tempo”. Na busca por caminhos para retratá-lo, traçou uma rota internacional que incluiu cidades como Hong Kong, Cairo, Nova Iorque, Tóquio, Estocolmo, Chicago, Paris, Cingapura e Brasília. Sob suas lentes, o mundo do fim do século passado é multifacetado, gigantesco, hightech, efêmero, expansivo e global. Dentro dele, o indivíduo anônimo é apenas um entre muitos.

The Rhine II atingiu o recorde como a fotografia mais cara do mundo. A imagem, leiloada na Christie's, foi arrematada por US$ 4,338 milhões.