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Archive for outubro, 2011

21
out

Fernando Bueno: um fotógrafo, várias trajetórias

Fernando Bueno por Dudu Contursi

O fotógrafo gaúcho Fernando Bueno se interessou por fotografia ainda nos tempos de colégio, quando realizou um dos cursos práticos na área que o Anchieta, na Capital, oferecia. Com mais ou menos 16 anos, tornou-se o documentarista oficial das tradicionais viagens da família. Suas fotos eram sempre aprovadas, ele se aprimorava e, quando passou no vestibular de Comunicação Social na PUCRS, resolveu tentar um estágio na editoria de fotografia do jornal Zero Hora. Conseguiu. Era o ano de 1973 e, a partir daí, aos 18 anos, ele não parou mais — ainda que tenha transitado entre outros gêneros além do fotojornalismo.

Foto: Fernando Bueno

Mais por uma questão de negócio do que por uma opção artística, Fernando deixou a ZH em 1975 para montar seu próprio estúdio, migrando para o mercado da Publicidade. Como em quase todos os estúdios da época, fez um trabalho que mesclava fotografia comercial e jornalística, prestando serviço para todos os veículos impressos que tinham sucursal por aqui.

Foto: Fernando Bueno

Foto: Fernando Bueno

A próxima mudança entre as várias transições radicais e significativas de sua carreira se deu em 1978, quando ele ajudou a implantar no Sul do Brasil o The Image Bank, banco de imagens pioneiro por essas bandas. “Quando começou, ninguém entendia o que era. Hoje, ninguém vive sem, é uma indústria de 6 bilhões de dólares”, explica. Um exemplo desse crescimento vertiginoso da área pode ser ilustrado pela própria trajetória da empresa, que, em 2001, foi comprada pela multinacional Getty Images. Bueno deixou a gerência, mas ainda colabora com o grupo como freelancer.

Foto: Fernando Bueno

A trajetória de Fernando também passa pela educação, ou melhor, é permeada por ela. O fotógrafo sempre apreciou lecionar e aprender, ministrou a cadeira de Fotografia Publicitária na PUC em 1997 e 1998 e sempre incentivou a troca entre fotógrafos, algo que ele considerava raro quando entrou no mercado. “Fiz vários workshops fora do Brasil e sempre acreditei que deveríamos fazer algo semelhante, algo com ‘blablabla’ e prática, com comparações, comentários, com base para que se discuta o trabalho de quem participa”.

Foto: Fernando Bueno

Essa vontade impulsionou a criação do Canela Workshops em 2002, evento, segundo seu idealizador, pioneiro no Brasil. Residente da cidade serrana, apresentou o projeto à prefeitura local inspirado por festivais fotográficos semelhantes realizados em regiões pequenas e turísticas da Inglaterra e dos Estados Unidos. A inciativa, bem sucedida, trouxe ao Rio Grande do Sul grandes nomes nacionais e internacionais e durou quatro anos. Em 2012, será realizada novamente e com uma nova proposta:

“Lá, vamos lançar o projeto da criação de um centro de excelência em fotografia”, entrega Fernando. O local inovador já tem nome e endereço: Canela Instituto de Artes Visuais e Fotografia, e será construído no antigo cassino de Canela, hoje em ruínas. Entre as futuras iniciativas e recursos do espaço está a criação da primeira biblioteca de fotografia especializada no Brasil, laboratórios de fotografia digital e analógica, estúdios, cinema e, o fundamental na opinião de Bueno: uma área enorme de preservação de acervo. “Um centro de TI vai cuidar de um problema comum a todos os fotógrafos, o armazenamento de arquivos. Ele vai preservar a memória da fotografia contemporânea brasileira, não a do século passado. O foco será o trabalho de quem está vivo, depois a gente parte para os mortos”, afirma, com humor.

Foto: Fernando Bueno

Pela formação do fotógrafo Fernando Bueno e de seu irmão (o escritor e historiador Eduardo Bueno, o Peninha), é possível deduzir que os dois cresceram em um ambiente estimulante intelectualmente, o que ele confirma: “Nosso pai, o Milton, tinha uma biblioteca enorme. Eduardo diz que leu tudo, eu nem cheguei a metade, mas sempre li bastante”, conta. O elo entre os dois irmãos é forte e hoje toma forma na Buenas Ideias, que surgiu para administrar os direitos de autor do Peninha e evoluiu para uma editora de projetos especiais. “Com o sucesso de vendas do Eduardo, passamos a ser contatados por uma série de empresas interessadas em fazer projetos ligados a sua história ou a história do Brasil”. Dois deles receberam o prêmio de excelência gráfica da Abrigaf/RS, A Paixão do Brasil e Maracanã 60 Anos, feitos para o Clube dos Treze. A dupla também tem três livros sobre a grande paixão dos autointitulados “BluesBrothers”, o Grêmio. “Dois deles escrevemos juntos, coisa rara”, observa Fernando.

Foto: Fernando Bueno

Em fase de manutenção, o site oficial de Fernando vale a visita pela imagem da capa: um recorte panorâmico de sua vida. A foto não é colagem nem montagem, foi um cenário feito em seu estúdio de Canela. “Escolhi objetos que tinham a ver com a minha história e a minha relação com minha família: meu irmão, minha mulher, Liliana, e meu filho, Gustavo”. Na imagem também estão charutos, fragmentos de viagens, a extinta galeria PB e C e, é claro, ingressos de jogos do Grêmio.

14
out

O nu coletivo segundo Spencer Tunick

Fotógrafo Spencer Tunick em ação, Australia 2010. Foto: Tim Wimborne/Reuters

Fotógrafo Spencer Tunick em ação, Australia 2010. Foto: Tim Wimborne/Reuters

O artista americano Spencer Tunick documenta a reunião de pessoas nuas em espaços públicos desde 1992. Suas instalações reúnem dezenas, centenas ou milhares de voluntários e suas fotografias são um registro desses encontros.

Cidade do México, 2007. Foto: Spencer Tunick

Em 1994, organizou 75 instalações temporárias nos Estados Unidos e, desde então, reúne voluntários em países no mundo inteiro. Seu recorde foi alcançado na Cidade do México, onde fotografou cerca de 18 mil pessoas. Foi preso por fotografar uma modelo nua em Nova Iorque, em 2005, e já foi tema de três documentários da HBO: Naked States, Naked World e Positively Naked.

Dusseldorf, 2006. Foto: Spencer Tunick

A filosofia de Tunick parte do princípio de que juntos, e sem suas roupas, os indivíduos formam novas imagens. Como o próprio descreve, os corpos se estendem e se incorporam à paisagem como uma substância. Seu trabalho mexe com os conceitos de sexualidade, nudez e privacidade, além de ser, em um só tempo, efêmero e permanente — já que se utiliza de instalações e fotografia.

Switzerland Aletsch Glacier, 2007. Foto: Spencer Tunick

Em setembro deste ano, Tunick realizou sua primeira produção no Oriente Médio, “Mar Nu”, que reuniu mais de mil pessoas em uma praia da costa israelense. O trabalho integra uma campanha internacional a favor do reconhecimento do Mar Morto como uma das sete maravilhas naturais do mundo. O fotógrafo também já trabalhou em parceria com ativistas do Greenpeace, em 2007, na Suíça, quando criou uma escultura viva com 600 pessoas para alertar o mundo sobre os perigos do aquecimento global.

Centro de Arte Contemporânea, New Castle 2005. Foto Spencer Tunick

O artista esteve no Brasil em 2002, quando participou da Bienal de São Paulo. Na ocasião, 1500 pessoas foram fotografadas por ele no no parque do Ibirapuera. De megafone na mão, o artista dirigiu os presentes com o auxilio de uma tradutora. As fotos foram expostas na galeria nova-iorquina I-20 em 2003.

Albright Knox art gallery. Foto: Spencer Tunick

Spencer Hot Springs, New Mexico 2001. Foto Spencer Tunick

11
out

Lunara e a Porto Alegre esquecida

Placa de Vidro original. Foto: Eneida Serrano

Ao concluir o curso de Jornalismo na UFRGS, em 1974, Eneida Serrano descobriu o trabalho de um fotógrafo que já conhecia de nome, ou melhor, de codinome: Lunara, pseudônimo de Luiz do Nascimento Ramos. Logo de início, as imagens chamaram a sua atenção, mas não apenas pela qualidade técnica em tempos de poucos recursos fotográficos: “Eram fotos com equilíbrio harmonioso e, principalmente, uma temática humanista”. Nas palavras dela, tratava-se de um autor de bem com a vida e encantado com a fotografia.

Sono Pesado. Foto: Lunara

Comerciante, Lunara viveu em Porto Alegre entre os anos 1867 e 1937 e foi responsável por eternizar cenas cotidianas representativas do início da modernização da capital gaúcha. Retratou com delicadeza fragmentos da chegada e da integração de imigrantes e ex-escravos ao Estado, além de outras cenas e cenários da Capital do início do século XX. A prainha da Tristeza, a Cascatinha, as lavadeiras e os pescadores do arroio Dilúvio — então riacho Ipiranga — estão entre algumas das paisagens por ele retratadas. Eneida destaca Sono Pesado e O Lago como as mais famosas.

O Lago. Foto: Lunara.

Ao contrário de seu amigo e colega no primeiro fotoclube da cidade, Virgilio Calegari, Lunara teve sempre a fotografia como hobbie, e nunca como profissão. Por se manter afastado dos estúdios, onde os retratos prometiam grande rentabilidade, exercitou seu olho jornalístico. Na definição do jornalista Pinto da Rocha publicada no jornal Gazeta do Comércio em 1903, com a linguagem rebuscada da época, “[Lunara] tem sobre todos os seus brilhantes colegas a qualidade superior de descobrir na natureza os melhores assuntos e de saber vê-los através da objetiva com uma perfeição inexcedível de arte”.

Foto: Lunara

De acordo com Eneida, a revelação das chapas era feita em uma improvisada câmara escura em um dos cantos da casa. Mesmo que eterno amador, sem clientes e sempre escolhendo o objeto de suas lentes, Lunara ganhou concursos fotográficos, incluindo um prêmio internacional, e publicou no periódico francês Revue de Photographie em 1922.

Foto: Lunara

Ainda não havia nenhuma pesquisa publicada sobre o assunto quando Eneida começou a sua busca pelas origens da fotografia gaúcha e conheceu Lunara. Durante o processo, encontrou Áureo, primogênito do fotógrafo. Ligou para todos os Ramos da lista telefônica até encontrá-lo e descobrir, com emoção, que residia na mesma quadra de sua casa. Ali, ela encontrou preciosos documentos, álbuns e chapas de vidro; ele, alguém que poderia divulgar o pouco que restava do trabalho de seu pai, guardado com carinho e cuidado.

Foto: Lunara

Eneida levou cinco anos para fazer a primeira exposição (em 1979, no Museu de Comunicação Social) e 21 para publicar o livro “Lunara, Amador 1900″, de 2001, mas valeu a pena. “Ficou como eu queria. Sinto-me honrada e acho que cumpri a missão”, orgulha-se. Na obra, constam algumas das crônicas escritas por Lunara aos 22 anos e publicadas no jornal Atleta. Para Eneida, os textos anunciam o estilo que ele desenvolveria na fotografia, com bom humor, leveza e sensibilidade artística.

Foto: Lunara

“Sempre que pego uma daquelas chapas de vidro, ou que digitalizo as imagens do Lunara, tenho a emoção de estar dando continuidade a um trabalho muito especial. E com meios que ele certamente se espantaria!
Eneida Serrano, pesquisadora e editora de “Lunara, amador, 1900″ (2001)

Foto: Lunara

Foto: Lunara

Foto: Lunara