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Archive for julho, 2011

27
jul

Conheça Izan Petterle, professor do curso de Fotografia Editorial Exploratória

Izan Petterle, fotógrafo da National Geographic Brasil.

Em setembro deste ano, o Centro de Fotografia da ESPM-Sul disponibilizará uma raríssima oportunidade de aprendizado fotográfico: Izan Petterle, fotógrafo da National Geographic Brasil desde a entrada da publicação no país, há 11 anos, ministrará o curso Fotografia Editorial Exploratória, que será marcado por uma expedição fotográfica seguindo os mesmos preceitos que consagraram a National Geographic como a melhor revista do gênero no mundo. O objetivo é justamente capacitar os alunos aos procedimentos técnicos e práticos das saídas de campo vinculadas ao mercado editorial, em especial ao da publicação em que trabalha o professor. A pauta a ser coberta é a seguinte: Alegrete, a capital dos Farrapos.

Foto: Izan Petterle

No currículo de Izan estão quatro Prêmios Abril de Jornalismo e dois prêmios Best Edit, honraria concedida pelos editores norte-americanos da National Geographic para o melhor ensaio fotográfico produzido entre todas as edições internacionais – e suas duas mais recentes conquistas em ambos os prêmios são deste ano. Petterle promove workshops e cursos sempre marcados por saída de campo e sua paixão por ensinar parece quase tão forte quanto a por fotografia, o que se percebe em alguns dos “conselhos” publicados em seu blog. Izan acredita, por sua própria experiência, que a melhor maneira de construir uma carreira em fotografia documental é ter uma outra atividade econômica que permita custear a primeira fase da formação profissional. Nesse período de árduo trabalho e muito estudo, é atrás da câmera que a magia acontece: o que interessa é desenvolver um olhar apurado. Conversamos com o professor sobre como foi sua trajetória e sobre o que esperar do curso:

Foto: Izan Petterle

Como vai ser a rotina dos alunos em Alegrete? O curso tem um programa definido?
Em primeiro lugar, não se trata de um curso normal, regular. O que ele vai proporcionar para quem o fizer é uma verdadeira experiência em campo da National Geographic. A programação não será fixa em Alegrete. Vamos sair de Porto Alegre no dia 14, exatamente no começo da Semana Farroupilha, que se encerra no dia 21. A cidade fica com uma série de acampamentos crioulos em volta dos CTGs da cidade, vamos vistá-los, bem como os bailes e algumas fazendas (até existe a possibilidade de ficarmos em uma delas). Os piquetes, as carreiras, a chama crioula, é tudo muito legal de registrar. As madrugadas, o nascer dos dias, são oportunidades fotográficas imperdíveis. O gaúcho acorda muito cedo, vamos amanhecer com o pessoal, acompanhá-los fazendo o fogo, botando os cavalos na mangueira, tomando chimarrão. Para fotógrafos, é a Disney. Um playground maravilhoso. Em Manoel Viana, município vizinho, os desfiles não são no mesmo dia que em Alegrete, então temos grandes chances de fazer uma cobertura por lá também.

Foto: Izan Petterle

Vamos fazer algumas imagens bem emblemáticas da cidade. Durante a Revolução Farroupilha, Alegrete foi a terceira capital do Estado a ser decretada. Ainda hoje, é o maior município em extensão daqui, e os moradores locais tem aquela coisa de se sentirem na mais gaúcha das cidades. A viagem toda vai ser relacionada a isso. Por mais que a gente tente fazer uma programação prévia, é como a vida de um fotógrafo, muita coisa se descobre por lá, na hora, e temos que estar preparados para o imprevisto, teremos que contar com uma boa dose de improviso. Nas horas de folga, já vamos fazer um trabalho de pré-edição, fazer uma limpeza por lá mesmo, analisar à noite aquilo produzido durante o dia.

Foto: Izan Petterle

Tu és alegretense, certamente tens uma relação especial com a cidade, e com o ato de fotografá-la. Tuas primeiras fotos foram dela?
Nasci e fui criado lá, mas comecei a fotografar em Porto Alegre nos anos 1970, quando fui estudar na Capital. Cheguei aqui em 1972, estudei no Rosário e ingressei no curso de Veterinária da UFRGS em 1975. Quando passei no vestibular, meu avô me mandou dinheiro para comprar um Fusca, mas eu gostava tanto de fotografia que gastei quase toda a quantia com um equipamento Pentax Spotmatic. Com os 400 dólares que sobraram, fui para Machu Picchu fotografar. Casei em 1978, voltei a morar em Alegrete e depois fui para o Mato Grosso, vivendo 15 anos na Chapada dos Guimarães. Trabalhava como produtor rural, criava cavalos e fotografava apenas para mim, imagens da natureza e da minha família…

Foto: Izan Petterle

E quando a coisa começou a ficar mais séria?
Eu tive aquele grande estalo, aquela virada, só em 1994, quando uma amiga que é musicista estava vendo as minhas fotos e disse que gostaria de levá-las para uma apresentação multimídia em um de seus shows. A performance era nos Estados Unidos, no Planetário de San Francisco, que fica na California Academy of Science. Ela me convidou para ir junto e eu aceitei. Quando, depois do show, recebi uma penca de elogios do diretor do lugar, me caiu a ficha. Em San Francisco mesmo investi em um equipamento maravilhoso e depois de voltar para Mato Grosso passei a me dedicar à natureza, quilombolas e indígenas.
Em 1997, Water Firmo, famoso fotógrafo do Rio de Janeiro e curador da Funarte, estava vendo portfólios e, ao dar uma olhada no meu, motivou minha ida a São Paulo. Como nossos filhos já estavam adolescentes e a gente já pensava em dar uma mudada na vida, fomos em direção a São Paulo e ao Rio de Janeiro. Aproveitei para dar início ao meu projeto pessoal. De 1997 a 2000, viajei por conta própria pelo Brasil inteiro, só fotografando para mim. As imagens registradas nesses quatro anos focavam nos cavaleiros e amazonas do Brasil. Quando a National Geographic veio para cá, em 2000, foi este projeto que mostrei para eles. Acho que por isso meu principal objetivo é motivar os alunos a desenvolverem projetos pessoais. Quando mais tu te dedicares a eles, mais chance eles tem de dar certo.

Foto: Izan Petterle

Quando tu começaste a fotografar Alegrete? [O post de mais acessos no blog de Izan é um com fotos da cidade]
Passei a fotografar Alegrete depois, já trabalhando com a National. Tenho um projeto com meu amigo Élcio Vargas, poeta alegretense, como Mario Quintana. Queremos fazer um livro e uma exposição na Casa de Cultura Mario Quintana com imagens bem autorais da cidade, que é um pedaço de história. Alegrete tem bem mais do que tradição e folclore, tem aspectos míticos e culturais que não são óbvios e que estão sempre nos meus sonhos e nas minhas memórias de infância. É um lugar que eu conheço dentro de mim, como se nunca tivesse saído de lá, como se lá vivesse uma vida paralela. Tenho uma relação emocional e física com minha cidade natal.
Gosto muito de trabalhar com o subjetivo da realidade – a memória, o sonho, a poesia. A fotografia tem o poder de retratar esses aspectos, não é preciso estar sempre preso dentro do fotojornalismo factual. Também gosto muito de trabalhar com texto, minhas fotos sempre são acompanhadas deles. E a National Geographic preza muito isso.

Foto: Izan Petterle

“[...] são verdadeiros amadores, no sentido mais completo da palavra ‘amateur’, eles verdadeiramente amam fotografar”. Essa frase publicada no teu blog já mostra um pouco da tua expectativa em relação aos alunos, mas quais expectativas os alunos devem ter em relação ao curso?

Eu acredito muito nos cursos, no poder deles. Pode parecer pretensão minha dizer isso, mas é uma experiência transformadora em diversos aspectos. Muita gente chega nas saídas de campo querendo explorar o conceitual, porque já acredita que sabe tudo da técnica, mas quando chega lá, aprende muito. Quando a gente compara as fotos tiradas no início do curso com as do final, é sempre muito legal. Muitas vezes a gente tem uma ideia, um conceito, e não tem técnica para colocar ele em prática. Não podemos contar com a sorte.
É legal que quem procura esse tipo de curso tem uma bagagem cultural forte, são pessoas informadas, viajadas, interessadas. E as turmas são sempre pequenas, o que garante atenção. Na verdade, dá muito trabalho porque não sou um professor, sou um tutor. Nos trabalhos de campo, fotografo pouco, só na medida para mostrar e ajudar, às vezes algo na linha “criem a partir daqui”.
Vale a pena entrar no blog do Izan e conferir os comentários de quem já participou de alguma de suas expedições. Além da satisfação pela experiência ser explícita, no espaço, os alunos continuam mantendo contato com o professor. Depoimentos dos participantes de seus workshops, bem como seus trabalhos, também costumam render posts.
22
jul

ESPM-Sul lança novo curso de fotografia

Com o objetivo de capacitar os alunos para a atuação no mercado editorial em geral, e na revista National Geographic Brasil em particular, o Centro de Fotografia da ESPM-Sul anuncia aos amantes das lentes e da aventura o curso Fotografia Editorial Exploratória. As aulas equilibram teoria e prática e serão conduzidas por Izan Petterle, fotógrafo da National Geographic brasileira desde a entrada da publicação no país, há 11 anos.
O curso tem duração de 12 dias corridos e acontecerá em três etapas: a primeira delas é na sede da ESPM-Sul, em Porto Alegre, onde serão ministradas duas aulas teóricas sobre os desafios da fotografia exploratória, nos dias 12 e 13 de setembro. Na segunda etapa, o grupo será encaminhado pelas belas paisagens do interior gaúcho em uma expedição de cinco dias, com o objetivo de registrar Alegrete, a capital dos Farrapos. A cidade, que foi palco de importantes momentos da história do Rio Grande do Sul, é conhecida por preservar o estilo de vida tipicamente gaúcho. A expedição a Alegrete ocorre entre os dias 15 e 20 de setembro, durante as comemorações da tradicional Semana Farroupilha – o que promete render aos exploradores imagens ainda mais interessantes. A terceira e última etapa consiste no retorno aos estúdios da ESPM-Sul, em Porto Alegre, para edição, finalização, apresentação e análise de todo material registrado, marcando a conclusão do curso nos dias 22 e 23 de setembro.
Vale ressaltar que tanto a viagem entre Porto Alegre e Alegrete (com ida no dia 14 e retorno no dia 21 de setembro) quanto os deslocamentos na cidade e arredores serão feitos com uma van fornecida pela ESPM, que providenciará também hospedagem em quartos individuais para cada aluno em um hotel da cidade durante os cinco dias da expedição. Todos os custos de transporte e hospedagem estão cobertos pelo valor investido no curso, ficando o aluno responsável apenas pelas despesas de alimentação e outras atividades não relacionadas ao curso.

Fotos: Izan Petterle

Público alvo:
  • Fotógrafos que já fizeram outros cursos ou oficinas e procuram um treinamento mais avançado e específico.
  • Profissionais liberais e funcionários públicos que têm a fotografia como hobby avançado.
  • Estudantes universitários que desejam aprimorar seus conhecimentos fotográficos.
Pré-requisitos:
  • Câmera fotográfica DSLR (preferencialmente com lentes opcionais);
  • Notebook;
  • Conhecimentos básicos de fotografia.
Carga horária: 76 horas/aula
Duração:12 dias cheios e corridos, de 12 a 23 de setembro de 2011.
Investimento: Para valores e condições de pagamento, favor entrar em contato pelo telefone (51) 3218.1300, ou pelo e-mail centralinfo-rs@espm.br
Certificação: A ESPM-Sul fornecerá certificado em nível de extensão ao aluno que atender a todos os critérios de aproveitamento estabelecidos pelo programa do curso, vinculado à freqüência de 75% (setenta e cinco por cento de presença nas aulas) e à quitação de todas as mensalidades.

 

13
jul

Luiz Carlos Felizardo e o olhar que colore o cinza

Felizardo no cemitério do Collares. Foto: Fábio Del Re

“O olhar que colore o cinza”, título da matéria de Mônica Kanitz sobre o fotógrafo Luiz Carlos Felizardo, publicado na 111ª edição da revista Aplauso, foi provavelmente inspirado na declaração de Paula Ramos, jornalista e professora do Instituto de Artes da UFRGS, sobre sua obra: retrata “um preto e branco que chega a ser colorido, tamanha a variedade de nuances dos cinzas”.
Foi, de fato, distante da paleta de cores que o fotógrafo homenageado do FestFotoPoa deste ano desenhou sua carreira. Quando questionado sobre o porquê, afirma ter escolhido a liberdade. “O [filme] negativo em preto e branco é mais maleável, tu podes expor mais, revelar menos, enfim, trabalhar a cópia como quiser”, explica na reportagem. As análises de Felizardo sobre o mundo da fotografia resultaram em dois livros: Relógio de Ver (2000) e Imago (2010), este último uma compilação dos textos de sua coluna homônima na revista Aplauso, publicados a partir de 2001.

Os Mortos Permanecem Jovens, 1987. Foto: Luiz Carlos Felizardo

As duas obras fizeram sucesso na biblioteca do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, bem como o livro A Fotografia de Luiz Carlos Felizardo (2011), lançado na abertura do evento, em abril deste ano, que segundo a matéria foi o primeiro totalmente em preto e branco impresso em Porto Alegre. Tanto na escolha das 200 fotos contempladas no livro quanto na montagem da mostra, na qual suas fotos ocuparam todo o grande hall do Santander Cultural, Felizardo não foi um mero espectador. Participou ativamente de todos os processos, o que lhe rendeu ainda mais elogios na abertura da exposição.

Foguete, o galgo, 2009. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem destaca a emoção de Felizardo na ocasião, e a avalanche de elogios que recebeu de velhos amigos e recentes admiradores. Nas palavras de Paula Ramos, parceira na organização do livro, “Felizardo é uma rara unanimidade no cenário da fotografia brasileira, um fotógrafo com F maiúsculo”. Para Sinara Sandri, que está entre os organizadores do evento, já era tempo dele ter o grande livro de sua obra.
Motivos para tamanho reconhecimento não faltam: além de ser referência na utilização de câmeras de médio e grande formatos, tem como protagonistas em sua vasta produção cenários urbanos e campeiros, do pampa gaúcho às ruas de Paris. Sempre interessado prioritariamente nos elementos em cena e na maneira como se relacionam, seu trabalho é marcado por uma composição estudada de forma milimétrica. O segredo, como define Paula, está no fato de que ele educou seu olhar a partir de uma apreciação questionadora de obras fundamentais da arte e da fotografia.

Casa Godoy, 1992. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem em questão também aponta o fato de que o discurso artístico de Felizardo tem como premissa a reflexão entre o que se vê e o que pode ser captado. Uma das peculiaridades de sua obra está na forma como trabalha com a melancolia. Suas imagens de rochas, ruínas, raízes, madeiras carcomidas e paredes rachadas fazem alusões à decadência e, como define a repórter, até mesmo à fantasmagoria. Felizardo afirma se sentir atraído por esses elementos por terem plasticidade e uma estrutura interessante. Foram eles que o levaram até as fotografias de cemitérios, um tema comum em sua produção.

Sierra Ancha, 1985. Foto: Luiz Carlos Felizardo

É de um cemitério uma das obras mais famosas do fotógrafo, registrada em 1974, na cidade de Santa Bárbara do Sul. A foto rodou o mundo entre exposições e coletâneas, incluindo o livro Photography Year’79, da Time-Life Books. “Os cemitérios carregam essa ideia de decadência, mas não é só isso que me interessa. Há também a questão do homem que morreu e se transformou em pó, da finitude da vida”, afirma, com sua subjetividade característica.

Cemitério em Santa Bárbara do Sul, 1974. Foto: Luiz Carlos Felizardo

O registro do cemitério de Santa Bárbara do Sul foi um dos tantos que fez com grandes equipamentos, como explica na matéria: “Se uma câmera exige tripé, como as grandes, tu vais pensar mais a fotografia, o foco será mais extenso e dá para decidir se a pedrinha vai entrar ou não”. Nas viagens pelo mundo, costumava utilizar uma Leica pequena, popularmente conhecida como 35mm. “Usava a Leica buscando o resultado de uma câmera de formato maior. A qualidade dela possibilita isso”, ensina.

Pátio, 2007. Foto: Luiz Carlos Felizardo

“Os processos de transformar uma visão em fotografia tomam tempo, dão trabalho e exigem respeito pelo assunto que transformamos. E é preciso que se entenda alguma coisa da estrutura que amarra os vários elementos que compõem nossa imagem, a mesma estrutura que ordena as frases musicais, ou da literatura, e limita e sustenta as criações da arquitetura. Mais importante ainda, a fotografia tem de ser vista e compreendida com um olhar amplo, que abrace também a história da arte.”
Luiz Carlos Felizardo

Moving, 1984. Foto: Luiz Carlos Felizardo

As viagens de Felizardo renderam inúmeros ensaios em países do mundo inteiro, mas nascido no centro de Porto Alegre, nunca quis viver em outro lugar. A menina dos olhos de sua memória afetiva também é gaúcha, Bagé. Da infância até os tempos de faculdade, passava as férias na fazenda Santa Clara, que pertencia ao seu tio, e o gosto pela Campanha também protagonizou e refletiu em muitos de seus trabalhos.

Pampa, ovelhas e tormenta, 1984. Foto: Luiz Carlos Felizardo

Além de apreciar a vida rural, Felizardo também era apaixonado por música. Nas décadas de 1950 e 1960, estudou violão e cantou em um coral, mas decidiu estudar Arquitetura, ingressando na UFRGS em 1968. Não concluiu o curso, saindo quatro anos depois, justamente porque a fotografia já começava a se tornar uma fonte de lucro. Depois de trabalhar em um escritório de programação visual e desenho industrial, realizou um editorial de moda considerado inovador, e logo foi chamado para auxiliar Assis Hoffmann em um estúdio de fotografia publicitária. Por ser, também, editor da Folha da Manhã, Hoffmann lhe deu um espaço no suplemento de cultura do jornal. Felizardo, que sempre gostou de escrever, começou a ser publicado, redigindo desde análises técnicas de equipamento até críticas de exposições.

Bistro e espelho, 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo

O fotógrafo se tornou seu próprio chefe em 1976, já com dois filhos. O objetivo foi buscar liberdade, pois trabalhando em agência produzia imagens que já tinham sido idealizadas. No mesmo ano, fez catálogos de exposições, livros biográficos e começou a trabalhar com Julio Curtis, com quem viajou por todo o interior do Rio Grande do Sul fotografando arquitetura histórica.
Na época, viveu um momento profissional que incluía uma parceria com o tradicional Theatro São Pedro, mas interrompeu os projetos por uma causa nobre: foi selecionado pelo programa Capes-Fullbright, mudando-se para Prescott, no Arizona, Estados Unidos. Lá, trabalhou com Frederick Sommer, que se tornou um amigo, uma influência e um futuro objeto de estudo.
“Se fotografar é conferir importância a algo que atrai nosso interesse, então o respeito pelo que fotografamos é compreensível – e indispensável. É preciso respeitar a nossa própria percepção para que se possa extrair dela alguma coisa. Então, se quisermos que o resultado seja visto com alguma benevolência, é preciso trabalhar nele com o respeito que também a visão do espectador merece.”
Luiz Carlos Felizardo

Bistro, 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo


No balanço de seus 40 anos de carreira, Felizardo destaca o fato de que sempre procurou se manter independente, trocando as amarras com empresas por clientes fiéis. Entre as tantas exposições de suas obras, destaca três delas na reportagem da Aplauso: Jogo do Olhar, que levou para o Masp, em São Paulo; a série O Sonho e a Ruína, que ocupou o paço Imperial no Rio de Janeiro, e Cidade Transfigurada, que abordou aspectos pouco requintados da arquitetura porto-alegrense.

Jogo do Olhar (num trem para Chartres), 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo

Nos seus próximos planos está o lançamento de outro livro, Querência, que vai abordar sua relação com Bagé. Graças a uma bolsa Funarte, a obra já está formatada, aguardando apenas um financiamento para ser impressa. Por apreciar trabalhar com a memória, como o próprio afirma, outro de seus projetos também é bastante pessoal: registrar objetos marcantes de sua infância, o que inclui brinquedos antigos e um peso de papel que pertenceu a seu pai.
Felizardo trabalha, hoje, em seu próprio apartamento. Vítima da doença de Machado-Joseph, que afeta as estruturas neurológicas responsáveis pelo equilíbrio e pela coordenação dos movimentos, rompeu recentemente os ligamentos do tornozelo esquerdo, mas nem por isso sossegou. Deixou para trás o laboratório e construiu um escritório equipado com uma impressora de alta definição e um Macintosh scanner de última geração, além de milhares de arquivos. “Eu ainda acredito no filme, mas acho que o digital faz maravilhas. Com ele, posso morrer amanhã e minha fotografia vai continuar existindo do jeito que eu queria. O negativo sempre dá margens para interpretações”, afirmou na reportagem. Sua câmera digital foi presente do filho, que herdou a afinidade artística do pai e hoje fotografa surfe na Austrália. A Panasonic, que tem lente Leica, é chamada por Felizardo de “pequena jóia”.

Querencias, 1982. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem encerra com algumas das razões fundamentais que fazem de Felizardo um fotógrafo diferenciado, como sua experiência e seu domínio do equipamento e das técnicas de captura e revelação da imagem. Seu grande segredo também é revelado: “Assim como um bom médico ou um bom advogado, um bom fotógrafo precisa combinar a qualidade de seu trabalho com o prazer de viver. Precisa ler bons livros, ver bons filmes, tomar bons vinhos, namorar bastante… Enfim, cercar-se de tudo o que existe de melhor nesta vida”.

Dick's barn, 1985. Foto: Luiz Carlos Felizardo

13
jul

National Geographic: 123 anos de dedicação ao planeta e ao fotojornalismo

Famosa como a "menina afegã", a jovem refugiada de olhar intrigante tornou-se um ícone fotográfico. Quando Steve McCurry fez seu retrato em um campo de refugiados no Paquistão, ela jamais havia sido fotografada. Foto: Steve McCurry

Os olhos verdes da jovem refugiada afegã, flagrada em um momento em que não usava burca, atravessa a característica moldura amarela da capa em que foi publicada, em 1985, para encontrar e prender o olhar de quem quer que os observa. A imagem, captada por Steve McCurry, além de uma das mais icônicas do século 20, está entre as tantas que fizeram história na vitrine da National Geographic, revista referência em Fotojornalismo que surgiu com o objetivo declarado de aumentar nossa compreensão acerca do mundo em que vivemos.

Hoje, admiradores das belezas e curiosidades do planeta e da geografia, em especial aqueles que apreciam as imagens geradas por sua cuidadosa e milimétrica exploração, podem ter acesso a National Geographic em múltiplas plataformas, que incluem livros, sites e canais de televisão, mas não foi sempre assim. A revista é fruto da criação de uma sociedade, em 1888, cujo o lema é, ainda hoje, “Inspirar as pessoas a cuidar do planeta”. Formada por apaixonados por geografia de diferentes áreas, todos tinham em comum o desejo de promover o estudo científico e disponibilizar os resultados para o público. Nove meses depois, nasceu a The National Geographic Magazine, que prospera até hoje em edições mensais traduzidas em 32 idiomas.

Foto: Steve McCurry

Os fundadores da National Geographic Society personificavam o espírito de aventura e descoberta que é associado até hoje à organização. Além de encantar por reunir artigos e notícias referentes a todos os cantos do planeta, a revista é prestigiada pela qualidade editorial de suas fotografias. Desde os primórdios, consolidou-se como uma das melhores publicações gráficas do mundo. Foi pioneira ao ter fotos coloridas no começo do século 20, quando esta tecnologia ainda era incipiente, e é, desde então, o lar de muitos dos melhores fotojornalistas do planeta.

A consciência de sua importância na área motivou a criação do livro Mestres da Fotografia, que reúne os trabalhos de quatro dos melhores fotógrafos da revista, responsáveis, como definido na obra, por testar os limites da fotografia sem comprometer a compreensão do público.

Steve McCurry é um deles. Não por acaso, trata-se do responsável pelo imponente registro de Sharbat Gula, a refugiada afegã que fez história na publicação. Sua especialidade são fotos de gente, costuma captar nelas mais do que corpos e faces, dignidade, sentimento e até senso de humor, ainda que nas mais mais delicadas condições. McCurry cobriu diversas áreas em conflito internacional, como Beirute, Camboja, Filipinas, Golfo, ex-Iugoslávia, Afeganistão e Tibete, concentrando-se nas consequências humanas da guerra: não em seu impacto na paisagem, mas em seu reflexo nos rostos.

Foto: Steve McCurry

Foto: Steve McCurry

Suas imagens enchem o espectador de esperança, como as de Michael “Nick” Nichols, também contemplado no livro. O americano é autor de muitas das famosas fotos de animais da savana africana estampadas na National Geographic. Suas aventuras no continente incluem uma caminhada de mais de 3000km a pé, da floresta do Congo até a costa atlântica do Gabão, sempre estudando cada pedaço pelo qual passava. Na obra, diz-se que ele consegue captar delicadeza em um mundo selvagem. Além das mais de 20 reportagens especiais publicadas, Nick também é conhecido pelas boas histórias que carrega ao retornar de cada aventura.

Foto: Michael "Nick"Nichols

Foto: Michael Nichols

Ao combinar a paixão pela fotografia com a de viajar, o asiatico-americano Michael Yamashita tornou-se célebre, principalmente, pela maneira como retratou a Ásia. Suas imagens, que vão de samurais a mercados de peixe, são comparadas no livro a entregas de segredos velados. Seu olhar dá ao público informações privilegiadas, que são restritas a quem faz parte das sociedades retratadas, tão diferentes das que conhecemos na civilização ocidental.

Foto: Michael Yamashita

Foto: Michael Yamashita

O último, mas não menos importante, é David Doubilet, responsável por nada menos do que introduzir no mar o mesmo tipo de iluminação utilizado em estúdio. Não por acaso, animais marinhos exóticos aparecem em suas fotos como se fossem exibidos modelos em um desfile. Suas imagens por vezes assustadoras de predadores como o tubarão branco, a orca e outros animais subterrâneos o tornaram o mais respeitado fotojornalista subaquático de todos os tempos, como definido na publicação.

Foto: David Doubilet

Foto: David Doubilet

Entre os célebres fotógrafos brasileiros que trabalham com a National Geographic Brasil está o gaúcho Izan Petterle, um dos mais regulares colaboradores da publicação. Mas Petterle é assunto para um próximo post, e o que isso tudo tem a ver com o Centro de Fotografia da ESPM-Sul você descobrirá em breve.

Foto: Izan Petterle

8
jul

Luiz Barth avalia exercícios de composição dos alunos

Foto: Juliano Araujo

Em uma das aulas do Curso de Fotografia da ESPM-Sul, o professor Luiz Barth passa adiante seus conhecimentos em Artes Plásticas por um nobre motivo: aumentar a compreensão dos alunos acerca das regras de composição. Em uma aula cheia de exemplos, ele explica que nosso cérebro tem princípios organizacionais próprios, e tende a arranjar os elementos por ele percebidos de forma que façam sentido. Isso determina porque entre imagens tão parecidas, algumas tendem a se destacar. Assim, são explicados em aula os princípios da psicologia da Gestalt, estudo sobre a percepção humana realizado no século XIX amplamente utilizado ainda nos dias de hoje.
Depois da teoria, chega a hora dos alunos, com a câmera em mãos, botarem em prática todo o aprendizado. Ainda em aula, ficaram livres para organizar e fotografar elementos diversos disponíveis nas cores preto, cinza e branco. Barth avaliou alguns destes trabalhos realizados pelos alunos do Curso de Foto, como é possível ver a seguir:

“Boa distribuição dos elementos claros e escuros. O enquadramento melhoraria se todo o conjunto fosse deslocado mais para a esquerda, o que centralizaria o peso e balancearia com o volume. O uso de um rebatedor para iluminar a sombra própria do retângulo superior o destacaria da sombra projetada, deixando os elementos mais definidos. Deve-se estar atento para as sombras, que sempre fazem parte da composição, assim como os objetos.” Foto: Fernanda Steffen

“A fotometragem deveria ter sido feita para que a imagem ficasse mais escura, o que destacaria o bule da garrafa, definindo sua sombra própria eliminando a luz ‘estourada’ nos brancos.”

“A imagem deveria ser deslocada para cima e para a esquerda. Mudar um pouco a posição da luz marcaria e definiria a forma da xícara.” Foto: Priscila Maboni e Roberto Rakin

“Se possível, acrescentaria um degradê à esquerda para balancear.” Foto: Roberto Raskin

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“Apenas subiria a imagem um pouco para revelar o ‘colo’ da garrafa central”

“A composição está correta. Apenas aumentaria um pouco a iluminação frontal para revelar a rica textura da concha.”

“Seria melhor centralizar e destacar os objetos de suas sombras projetadas.”
“Seria melhor centralizar e destacar os objetos de suas sombras projetadas.”
4
jul

Vídeo mostra momento em que foi tirada a fotografia símbolo da Guerra do Vietnã

Kim Phuc, menina com 9 anos de idade fugindo de sua vila à procura de abrigo. Sul do Vietnam, 1972 Foto: Huynh Cong Ut / AP Photo

Phan Thi Kim Phúc é um símbolo da guerra. Sua imagem correndo dos bombardeios da Guerra do Vietnã, nua, ardendo das queimaduras por Napalm, foi tirada no dia 8 de junho de 1972 no vilarejo de Trang Band e aumentou o índice de rejeição mundial à barbaire daquele conflito. A cena foi imortalizada pelo fotógrafo vietnamita Huynh Cong Ut, conhecido como Nick Ut, que logo depois de registrar seu desespero, levou-a a um hospital. Após 14 meses de tratamento, ao contrário do que todos pensavam devido à gravidade de seus ferimentos, ela sobreviveu. O fotógrafo, que trabalha para a agência de notícias Associated Press (AP) até hoje, ganhou um prêmio Pulitzer. Décadas após a comoção causada por sua divulgação, a fotografia permanece entre as mais importantes da história. A recente descoberta de um vídeo gravado no momento em que ela foi tirada resgata, também com força atemporal, o terror vivido pela população vietnamita:

Nick Ut recordou, em entrevista à BBC, o momento em que a foto foi realizada: “Eu comecei a ver muita fumaça e gente correndo. Eu vi uma mulher pedindo ajuda com um bebê morto em seus braços. Entre a fumaça preta, vi Kim Phúc, correndo e gritando “nam nam ua ua” (muito quente), e tirei muitas fotografias”, recorda. Depois disso, deixou sua câmera de lado e concentrou-se apenas em impedir a morte da menina. Deu a ela um pouco de água, cobriu-a com um cobertor e seguiu rumo ao hospital em seu carro.
Quando chegou em seu escritório, deu início à revelação do material. Quando apareceu, nítida, a imagem de Kim Phúc,sentiu que ali estava uma grande foto. Na época, imagens com nudez frontal não eram permitidas, mas a reação do editor da AP em Nova Iorque, Hal Buell, foi um prenúncio de como ela repercutiria: “Envie essa fotografia imediatamente, eu não me importo com nada que possam dizer”. Nick sabe do impacto que seu registro teve. Mora em Nova Iorque, mas volta ao Vietnã anualmente onde, de acordo com o próprio, sempre escuta do povo: “Sua fotografia mudou a guerra”.

Retrado de Huynh Cong. Foto: Tim Mantoain

Já a garota da foto, Kim Phúc, vive em Toronto, no Canadá. Na época, foi forçada a abandonar a escola e retornar para sua província, onde viveu sob supervisão diária por ser um “símbolo nacional da guerra”. Hoje, além de ser embaixadora da Unesco, preside a “Fundação Kim Phúc”, dedicada a ajudar crianças vítimas de guerra em todo o mundo. São dela as seguintes palavras: “Qualquer um que vê essa foto pode sentir a profundidade do desespero, do sofrimento humano da guerra, especialmente para crianças. Quando vejo aquela imagem de novo e de novo, eu agradeço a Deus que o tio Nick congelou esse momento da história com sua fotografia, permitindo que as gerações futuras vejam o que pode ser o horror da guerra”.

Retratada Phan Thi Kim Phúc e fotógrafo Huynh Cong Ut.