Skip to content

Archive for julho, 2011

27
jul

Conheça Izan Petterle, professor do curso de Fotografia Editorial Exploratória

Izan Petterle, fotógrafo da National Geographic Brasil.

Em setembro deste ano, o Centro de Fotografia da ESPM-Sul disponibilizará uma raríssima oportunidade de aprendizado fotográfico: Izan Petterle, fotógrafo da National Geographic Brasil desde a entrada da publicação no país, há 11 anos, ministrará o curso Fotografia Editorial Exploratória, que será marcado por uma expedição fotográfica seguindo os mesmos preceitos que consagraram a National Geographic como a melhor revista do gênero no mundo. O objetivo é justamente capacitar os alunos aos procedimentos técnicos e práticos das saídas de campo vinculadas ao mercado editorial, em especial ao da publicação em que trabalha o professor. A pauta a ser coberta é a seguinte: Alegrete, a capital dos Farrapos.

Foto: Izan Petterle

No currículo de Izan estão quatro Prêmios Abril de Jornalismo e dois prêmios Best Edit, honraria concedida pelos editores norte-americanos da National Geographic para o melhor ensaio fotográfico produzido entre todas as edições internacionais – e suas duas mais recentes conquistas em ambos os prêmios são deste ano. Petterle promove workshops e cursos sempre marcados por saída de campo e sua paixão por ensinar parece quase tão forte quanto a por fotografia, o que se percebe em alguns dos “conselhos” publicados em seu blog. Izan acredita, por sua própria experiência, que a melhor maneira de construir uma carreira em fotografia documental é ter uma outra atividade econômica que permita custear a primeira fase da formação profissional. Nesse período de árduo trabalho e muito estudo, é atrás da câmera que a magia acontece: o que interessa é desenvolver um olhar apurado. Conversamos com o professor sobre como foi sua trajetória e sobre o que esperar do curso:

Foto: Izan Petterle

Como vai ser a rotina dos alunos em Alegrete? O curso tem um programa definido?
Em primeiro lugar, não se trata de um curso normal, regular. O que ele vai proporcionar para quem o fizer é uma verdadeira experiência em campo da National Geographic. A programação não será fixa em Alegrete. Vamos sair de Porto Alegre no dia 14, exatamente no começo da Semana Farroupilha, que se encerra no dia 21. A cidade fica com uma série de acampamentos crioulos em volta dos CTGs da cidade, vamos vistá-los, bem como os bailes e algumas fazendas (até existe a possibilidade de ficarmos em uma delas). Os piquetes, as carreiras, a chama crioula, é tudo muito legal de registrar. As madrugadas, o nascer dos dias, são oportunidades fotográficas imperdíveis. O gaúcho acorda muito cedo, vamos amanhecer com o pessoal, acompanhá-los fazendo o fogo, botando os cavalos na mangueira, tomando chimarrão. Para fotógrafos, é a Disney. Um playground maravilhoso. Em Manoel Viana, município vizinho, os desfiles não são no mesmo dia que em Alegrete, então temos grandes chances de fazer uma cobertura por lá também.

Foto: Izan Petterle

Vamos fazer algumas imagens bem emblemáticas da cidade. Durante a Revolução Farroupilha, Alegrete foi a terceira capital do Estado a ser decretada. Ainda hoje, é o maior município em extensão daqui, e os moradores locais tem aquela coisa de se sentirem na mais gaúcha das cidades. A viagem toda vai ser relacionada a isso. Por mais que a gente tente fazer uma programação prévia, é como a vida de um fotógrafo, muita coisa se descobre por lá, na hora, e temos que estar preparados para o imprevisto, teremos que contar com uma boa dose de improviso. Nas horas de folga, já vamos fazer um trabalho de pré-edição, fazer uma limpeza por lá mesmo, analisar à noite aquilo produzido durante o dia.

Foto: Izan Petterle

Tu és alegretense, certamente tens uma relação especial com a cidade, e com o ato de fotografá-la. Tuas primeiras fotos foram dela?
Nasci e fui criado lá, mas comecei a fotografar em Porto Alegre nos anos 1970, quando fui estudar na Capital. Cheguei aqui em 1972, estudei no Rosário e ingressei no curso de Veterinária da UFRGS em 1975. Quando passei no vestibular, meu avô me mandou dinheiro para comprar um Fusca, mas eu gostava tanto de fotografia que gastei quase toda a quantia com um equipamento Pentax Spotmatic. Com os 400 dólares que sobraram, fui para Machu Picchu fotografar. Casei em 1978, voltei a morar em Alegrete e depois fui para o Mato Grosso, vivendo 15 anos na Chapada dos Guimarães. Trabalhava como produtor rural, criava cavalos e fotografava apenas para mim, imagens da natureza e da minha família…

Foto: Izan Petterle

E quando a coisa começou a ficar mais séria?
Eu tive aquele grande estalo, aquela virada, só em 1994, quando uma amiga que é musicista estava vendo as minhas fotos e disse que gostaria de levá-las para uma apresentação multimídia em um de seus shows. A performance era nos Estados Unidos, no Planetário de San Francisco, que fica na California Academy of Science. Ela me convidou para ir junto e eu aceitei. Quando, depois do show, recebi uma penca de elogios do diretor do lugar, me caiu a ficha. Em San Francisco mesmo investi em um equipamento maravilhoso e depois de voltar para Mato Grosso passei a me dedicar à natureza, quilombolas e indígenas.
Em 1997, Water Firmo, famoso fotógrafo do Rio de Janeiro e curador da Funarte, estava vendo portfólios e, ao dar uma olhada no meu, motivou minha ida a São Paulo. Como nossos filhos já estavam adolescentes e a gente já pensava em dar uma mudada na vida, fomos em direção a São Paulo e ao Rio de Janeiro. Aproveitei para dar início ao meu projeto pessoal. De 1997 a 2000, viajei por conta própria pelo Brasil inteiro, só fotografando para mim. As imagens registradas nesses quatro anos focavam nos cavaleiros e amazonas do Brasil. Quando a National Geographic veio para cá, em 2000, foi este projeto que mostrei para eles. Acho que por isso meu principal objetivo é motivar os alunos a desenvolverem projetos pessoais. Quando mais tu te dedicares a eles, mais chance eles tem de dar certo.

Foto: Izan Petterle

Quando tu começaste a fotografar Alegrete? [O post de mais acessos no blog de Izan é um com fotos da cidade]
Passei a fotografar Alegrete depois, já trabalhando com a National. Tenho um projeto com meu amigo Élcio Vargas, poeta alegretense, como Mario Quintana. Queremos fazer um livro e uma exposição na Casa de Cultura Mario Quintana com imagens bem autorais da cidade, que é um pedaço de história. Alegrete tem bem mais do que tradição e folclore, tem aspectos míticos e culturais que não são óbvios e que estão sempre nos meus sonhos e nas minhas memórias de infância. É um lugar que eu conheço dentro de mim, como se nunca tivesse saído de lá, como se lá vivesse uma vida paralela. Tenho uma relação emocional e física com minha cidade natal.
Gosto muito de trabalhar com o subjetivo da realidade – a memória, o sonho, a poesia. A fotografia tem o poder de retratar esses aspectos, não é preciso estar sempre preso dentro do fotojornalismo factual. Também gosto muito de trabalhar com texto, minhas fotos sempre são acompanhadas deles. E a National Geographic preza muito isso.

Foto: Izan Petterle

“[...] são verdadeiros amadores, no sentido mais completo da palavra ‘amateur’, eles verdadeiramente amam fotografar”. Essa frase publicada no teu blog já mostra um pouco da tua expectativa em relação aos alunos, mas quais expectativas os alunos devem ter em relação ao curso?

Eu acredito muito nos cursos, no poder deles. Pode parecer pretensão minha dizer isso, mas é uma experiência transformadora em diversos aspectos. Muita gente chega nas saídas de campo querendo explorar o conceitual, porque já acredita que sabe tudo da técnica, mas quando chega lá, aprende muito. Quando a gente compara as fotos tiradas no início do curso com as do final, é sempre muito legal. Muitas vezes a gente tem uma ideia, um conceito, e não tem técnica para colocar ele em prática. Não podemos contar com a sorte.
É legal que quem procura esse tipo de curso tem uma bagagem cultural forte, são pessoas informadas, viajadas, interessadas. E as turmas são sempre pequenas, o que garante atenção. Na verdade, dá muito trabalho porque não sou um professor, sou um tutor. Nos trabalhos de campo, fotografo pouco, só na medida para mostrar e ajudar, às vezes algo na linha “criem a partir daqui”.
Vale a pena entrar no blog do Izan e conferir os comentários de quem já participou de alguma de suas expedições. Além da satisfação pela experiência ser explícita, no espaço, os alunos continuam mantendo contato com o professor. Depoimentos dos participantes de seus workshops, bem como seus trabalhos, também costumam render posts.
22
jul

ESPM-Sul lança novo curso de fotografia

Com o objetivo de capacitar os alunos para a atuação no mercado editorial em geral, e na revista National Geographic Brasil em particular, o Centro de Fotografia da ESPM-Sul anuncia aos amantes das lentes e da aventura o curso Fotografia Editorial Exploratória. As aulas equilibram teoria e prática e serão conduzidas por Izan Petterle, fotógrafo da National Geographic brasileira desde a entrada da publicação no país, há 11 anos.
O curso tem duração de 12 dias corridos e acontecerá em três etapas: a primeira delas é na sede da ESPM-Sul, em Porto Alegre, onde serão ministradas duas aulas teóricas sobre os desafios da fotografia exploratória, nos dias 12 e 13 de setembro. Na segunda etapa, o grupo será encaminhado pelas belas paisagens do interior gaúcho em uma expedição de cinco dias, com o objetivo de registrar Alegrete, a capital dos Farrapos. A cidade, que foi palco de importantes momentos da história do Rio Grande do Sul, é conhecida por preservar o estilo de vida tipicamente gaúcho. A expedição a Alegrete ocorre entre os dias 15 e 20 de setembro, durante as comemorações da tradicional Semana Farroupilha – o que promete render aos exploradores imagens ainda mais interessantes. A terceira e última etapa consiste no retorno aos estúdios da ESPM-Sul, em Porto Alegre, para edição, finalização, apresentação e análise de todo material registrado, marcando a conclusão do curso nos dias 22 e 23 de setembro.
Vale ressaltar que tanto a viagem entre Porto Alegre e Alegrete (com ida no dia 14 e retorno no dia 21 de setembro) quanto os deslocamentos na cidade e arredores serão feitos com uma van fornecida pela ESPM, que providenciará também hospedagem em quartos individuais para cada aluno em um hotel da cidade durante os cinco dias da expedição. Todos os custos de transporte e hospedagem estão cobertos pelo valor investido no curso, ficando o aluno responsável apenas pelas despesas de alimentação e outras atividades não relacionadas ao curso.

Fotos: Izan Petterle

Público alvo:
  • Fotógrafos que já fizeram outros cursos ou oficinas e procuram um treinamento mais avançado e específico.
  • Profissionais liberais e funcionários públicos que têm a fotografia como hobby avançado.
  • Estudantes universitários que desejam aprimorar seus conhecimentos fotográficos.
Pré-requisitos:
  • Câmera fotográfica DSLR (preferencialmente com lentes opcionais);
  • Notebook;
  • Conhecimentos básicos de fotografia.
Carga horária: 76 horas/aula
Duração:12 dias cheios e corridos, de 12 a 23 de setembro de 2011.
Investimento: Para valores e condições de pagamento, favor entrar em contato pelo telefone (51) 3218.1300, ou pelo e-mail centralinfo-rs@espm.br
Certificação: A ESPM-Sul fornecerá certificado em nível de extensão ao aluno que atender a todos os critérios de aproveitamento estabelecidos pelo programa do curso, vinculado à freqüência de 75% (setenta e cinco por cento de presença nas aulas) e à quitação de todas as mensalidades.

 

13
jul

Luiz Carlos Felizardo e o olhar que colore o cinza

Felizardo no cemitério do Collares. Foto: Fábio Del Re

“O olhar que colore o cinza”, título da matéria de Mônica Kanitz sobre o fotógrafo Luiz Carlos Felizardo, publicado na 111ª edição da revista Aplauso, foi provavelmente inspirado na declaração de Paula Ramos, jornalista e professora do Instituto de Artes da UFRGS, sobre sua obra: retrata “um preto e branco que chega a ser colorido, tamanha a variedade de nuances dos cinzas”.
Foi, de fato, distante da paleta de cores que o fotógrafo homenageado do FestFotoPoa deste ano desenhou sua carreira. Quando questionado sobre o porquê, afirma ter escolhido a liberdade. “O [filme] negativo em preto e branco é mais maleável, tu podes expor mais, revelar menos, enfim, trabalhar a cópia como quiser”, explica na reportagem. As análises de Felizardo sobre o mundo da fotografia resultaram em dois livros: Relógio de Ver (2000) e Imago (2010), este último uma compilação dos textos de sua coluna homônima na revista Aplauso, publicados a partir de 2001.

Os Mortos Permanecem Jovens, 1987. Foto: Luiz Carlos Felizardo

As duas obras fizeram sucesso na biblioteca do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre, bem como o livro A Fotografia de Luiz Carlos Felizardo (2011), lançado na abertura do evento, em abril deste ano, que segundo a matéria foi o primeiro totalmente em preto e branco impresso em Porto Alegre. Tanto na escolha das 200 fotos contempladas no livro quanto na montagem da mostra, na qual suas fotos ocuparam todo o grande hall do Santander Cultural, Felizardo não foi um mero espectador. Participou ativamente de todos os processos, o que lhe rendeu ainda mais elogios na abertura da exposição.

Foguete, o galgo, 2009. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem destaca a emoção de Felizardo na ocasião, e a avalanche de elogios que recebeu de velhos amigos e recentes admiradores. Nas palavras de Paula Ramos, parceira na organização do livro, “Felizardo é uma rara unanimidade no cenário da fotografia brasileira, um fotógrafo com F maiúsculo”. Para Sinara Sandri, que está entre os organizadores do evento, já era tempo dele ter o grande livro de sua obra.
Motivos para tamanho reconhecimento não faltam: além de ser referência na utilização de câmeras de médio e grande formatos, tem como protagonistas em sua vasta produção cenários urbanos e campeiros, do pampa gaúcho às ruas de Paris. Sempre interessado prioritariamente nos elementos em cena e na maneira como se relacionam, seu trabalho é marcado por uma composição estudada de forma milimétrica. O segredo, como define Paula, está no fato de que ele educou seu olhar a partir de uma apreciação questionadora de obras fundamentais da arte e da fotografia.

Casa Godoy, 1992. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem em questão também aponta o fato de que o discurso artístico de Felizardo tem como premissa a reflexão entre o que se vê e o que pode ser captado. Uma das peculiaridades de sua obra está na forma como trabalha com a melancolia. Suas imagens de rochas, ruínas, raízes, madeiras carcomidas e paredes rachadas fazem alusões à decadência e, como define a repórter, até mesmo à fantasmagoria. Felizardo afirma se sentir atraído por esses elementos por terem plasticidade e uma estrutura interessante. Foram eles que o levaram até as fotografias de cemitérios, um tema comum em sua produção.

Sierra Ancha, 1985. Foto: Luiz Carlos Felizardo

É de um cemitério uma das obras mais famosas do fotógrafo, registrada em 1974, na cidade de Santa Bárbara do Sul. A foto rodou o mundo entre exposições e coletâneas, incluindo o livro Photography Year’79, da Time-Life Books. “Os cemitérios carregam essa ideia de decadência, mas não é só isso que me interessa. Há também a questão do homem que morreu e se transformou em pó, da finitude da vida”, afirma, com sua subjetividade característica.

Cemitério em Santa Bárbara do Sul, 1974. Foto: Luiz Carlos Felizardo

O registro do cemitério de Santa Bárbara do Sul foi um dos tantos que fez com grandes equipamentos, como explica na matéria: “Se uma câmera exige tripé, como as grandes, tu vais pensar mais a fotografia, o foco será mais extenso e dá para decidir se a pedrinha vai entrar ou não”. Nas viagens pelo mundo, costumava utilizar uma Leica pequena, popularmente conhecida como 35mm. “Usava a Leica buscando o resultado de uma câmera de formato maior. A qualidade dela possibilita isso”, ensina.

Pátio, 2007. Foto: Luiz Carlos Felizardo

“Os processos de transformar uma visão em fotografia tomam tempo, dão trabalho e exigem respeito pelo assunto que transformamos. E é preciso que se entenda alguma coisa da estrutura que amarra os vários elementos que compõem nossa imagem, a mesma estrutura que ordena as frases musicais, ou da literatura, e limita e sustenta as criações da arquitetura. Mais importante ainda, a fotografia tem de ser vista e compreendida com um olhar amplo, que abrace também a história da arte.”
Luiz Carlos Felizardo

Moving, 1984. Foto: Luiz Carlos Felizardo

As viagens de Felizardo renderam inúmeros ensaios em países do mundo inteiro, mas nascido no centro de Porto Alegre, nunca quis viver em outro lugar. A menina dos olhos de sua memória afetiva também é gaúcha, Bagé. Da infância até os tempos de faculdade, passava as férias na fazenda Santa Clara, que pertencia ao seu tio, e o gosto pela Campanha também protagonizou e refletiu em muitos de seus trabalhos.

Pampa, ovelhas e tormenta, 1984. Foto: Luiz Carlos Felizardo

Além de apreciar a vida rural, Felizardo também era apaixonado por música. Nas décadas de 1950 e 1960, estudou violão e cantou em um coral, mas decidiu estudar Arquitetura, ingressando na UFRGS em 1968. Não concluiu o curso, saindo quatro anos depois, justamente porque a fotografia já começava a se tornar uma fonte de lucro. Depois de trabalhar em um escritório de programação visual e desenho industrial, realizou um editorial de moda considerado inovador, e logo foi chamado para auxiliar Assis Hoffmann em um estúdio de fotografia publicitária. Por ser, também, editor da Folha da Manhã, Hoffmann lhe deu um espaço no suplemento de cultura do jornal. Felizardo, que sempre gostou de escrever, começou a ser publicado, redigindo desde análises técnicas de equipamento até críticas de exposições.

Bistro e espelho, 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo

O fotógrafo se tornou seu próprio chefe em 1976, já com dois filhos. O objetivo foi buscar liberdade, pois trabalhando em agência produzia imagens que já tinham sido idealizadas. No mesmo ano, fez catálogos de exposições, livros biográficos e começou a trabalhar com Julio Curtis, com quem viajou por todo o interior do Rio Grande do Sul fotografando arquitetura histórica.
Na época, viveu um momento profissional que incluía uma parceria com o tradicional Theatro São Pedro, mas interrompeu os projetos por uma causa nobre: foi selecionado pelo programa Capes-Fullbright, mudando-se para Prescott, no Arizona, Estados Unidos. Lá, trabalhou com Frederick Sommer, que se tornou um amigo, uma influência e um futuro objeto de estudo.
“Se fotografar é conferir importância a algo que atrai nosso interesse, então o respeito pelo que fotografamos é compreensível – e indispensável. É preciso respeitar a nossa própria percepção para que se possa extrair dela alguma coisa. Então, se quisermos que o resultado seja visto com alguma benevolência, é preciso trabalhar nele com o respeito que também a visão do espectador merece.”
Luiz Carlos Felizardo

Bistro, 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo


No balanço de seus 40 anos de carreira, Felizardo destaca o fato de que sempre procurou se manter independente, trocando as amarras com empresas por clientes fiéis. Entre as tantas exposições de suas obras, destaca três delas na reportagem da Aplauso: Jogo do Olhar, que levou para o Masp, em São Paulo; a série O Sonho e a Ruína, que ocupou o paço Imperial no Rio de Janeiro, e Cidade Transfigurada, que abordou aspectos pouco requintados da arquitetura porto-alegrense.

Jogo do Olhar (num trem para Chartres), 1991. Foto: Luiz Carlos Felizardo

Nos seus próximos planos está o lançamento de outro livro, Querência, que vai abordar sua relação com Bagé. Graças a uma bolsa Funarte, a obra já está formatada, aguardando apenas um financiamento para ser impressa. Por apreciar trabalhar com a memória, como o próprio afirma, outro de seus projetos também é bastante pessoal: registrar objetos marcantes de sua infância, o que inclui brinquedos antigos e um peso de papel que pertenceu a seu pai.
Felizardo trabalha, hoje, em seu próprio apartamento. Vítima da doença de Machado-Joseph, que afeta as estruturas neurológicas responsáveis pelo equilíbrio e pela coordenação dos movimentos, rompeu recentemente os ligamentos do tornozelo esquerdo, mas nem por isso sossegou. Deixou para trás o laboratório e construiu um escritório equipado com uma impressora de alta definição e um Macintosh scanner de última geração, além de milhares de arquivos. “Eu ainda acredito no filme, mas acho que o digital faz maravilhas. Com ele, posso morrer amanhã e minha fotografia vai continuar existindo do jeito que eu queria. O negativo sempre dá margens para interpretações”, afirmou na reportagem. Sua câmera digital foi presente do filho, que herdou a afinidade artística do pai e hoje fotografa surfe na Austrália. A Panasonic, que tem lente Leica, é chamada por Felizardo de “pequena jóia”.

Querencias, 1982. Foto: Luiz Carlos Felizardo

A reportagem encerra com algumas das razões fundamentais que fazem de Felizardo um fotógrafo diferenciado, como sua experiência e seu domínio do equipamento e das técnicas de captura e revelação da imagem. Seu grande segredo também é revelado: “Assim como um bom médico ou um bom advogado, um bom fotógrafo precisa combinar a qualidade de seu trabalho com o prazer de viver. Precisa ler bons livros, ver bons filmes, tomar bons vinhos, namorar bastante… Enfim, cercar-se de tudo o que existe de melhor nesta vida”.

Dick's barn, 1985. Foto: Luiz Carlos Felizardo