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Archive for junho, 2011

30
jun

World Press Photo: uma reverência ao Fotojornalismo

Homem e garoto caminhando em enchente no Paquistão. Foto Daniel Berehulak / Getty Images

Além de promover um dos prêmios de fotografia mais importantes do mundo, o World Press Photo é uma organização independente e sem fins lucrativos criada em 1955, na Holanda, com o objetivo de apoiar, reverenciar e divulgar internacionalmente o trabalho de fotógrafos profissionais da imprensa. Anualmente, fotojornalistas do mundo inteiro enviam seus melhores ensaios ou suas melhores imagens, sempre acompanhadas de suas respectivas histórias, para concorrer ao prêmio.

Garota e os destroços seis dias depois de um tremor no Haiti. Foto Riccardo Venturi.

Este ano, a grande vencedora da 54ª edição foi a fotógrafa sul-africana Jodi Bieber. Seu retrato de Bibi Aisha, uma mulher afegã de 18 anos que teve as orelhas e o nariz arrancados como castigo por guerrilheiros do Talibã, foi capa da revista Time e ganhou o título de Photo of the Year 2010. A mutilação de Bibi foi ordenada depois de sua fuga dos maus tratos sofridos pela família do marido, um dos líderes dos guerrilheiros.

Capa da revista TIME, agosto de 2010. Foto: Jodi Bieber

Ao lado dessa história também são mostradas imagens do terremoto no Haiti, das erupções vulcânicas da Indonésia, dos mineiros soterrados no Chile, de uma prisão na Serra Leoa, da violência mexicana e de muitas outras. Nem todas elas são trágicas. Imagens vencedoras enquadradas em categorias como as de arte e entretenimento podem até mesmo ser engraçadas.

Vulcão Mount Bromo, Indonésia. Foto: Christophe Archambault / France-Presse.

Retrato do soldado da Polisario Front. A foto foi tirada em Tifariti, oeste do deserto do Sahara. Foto: Andrew MacConnell Panos Pictures

As nove categorias de premiação de fotos simples ou de ensaios são as seguintes: retratos, pessoas no noticiário, notícias em foco, notícias em geral, assuntos contemporâneos, cotidiano, esportes, natureza, artes e entretenimento. Na edição deste ano, mais de 5.691 fotógrafos de 125 países participaram, somando um total de 108059 imagens. No catálogo estão 171 fotografias premiadas ou ganhadoras de menção honrosa.

Ilha Margas, oeste da África do Sul. Foto: Tomas P. Peschak

Sempre em fevereiro, os vencedores são anunciados em uma coletiva de imprensa na segunda semana. Os escolhidos são convidados a receber seus prêmios no anual Award Days em Amsterdã, na Holanda, no fim de abril, quando começa a temporada de exposição das imagens. Como em anos anteriores, a premiére da exposição ocorreu, em 2011, na Holanda, no interior da Oude Kerk (que pode ser traduzido como “igreja velha”), a mais antiga igreja de Amsterdã. Depois, elas são expostas em uma centena de locais entre 45 países ao redor do mundo. No Brasil, as imagens permaneceram na Caixa Cultural do Rio de Janeiro até o dia 19 de junho.

Competidor britânico Thomas Daley durante o Youth Olympic Games. Foto Adam Pretty

É carioca o único brasileiro premiado pela WPP este ano. Alexandre Vieira, fotógrafo do Jornal O Dia, do Rio de Janeiro, registrou em sete fotografias um tiroteio entre polícia e assaltante na Avenida Brasil, que se encerrou apenas quando o criminoso foi morto.

Fotógrafo flagrou momentos de tensão entre polícia e ladrão. Fotos: Alexandre Vieira

O concurso anual da World Press Photo é a principal das atividades organizadas pela entidade homônima. De acordo com os organizadores, através dela tem-se um panorama de como fotógrafos do mundo inteiro lidam com a fotografia e de como a imprensa, através de imagens de diferentes partes do globo, reflete tendências, situações mundiais e específicas do fotojornalismo.

Foto: Amit Sha'al, Israel

Aos fotojornalistas que desejam participar, as inscrições tem início em dezembro de cada ano, sem taxa de inscrição. Não apenas fotógrafos que trabalham na imprensa, mas agências de fotos, jornais e revistas do mundo inteiro são convidadas a enviar suas melhores imagens do ano que passou. O júri toma forma com 19 membros em fevereiro (sem contar com integrantes da World Press Photo, que não têm influência na decisão). Mais informações sobre as inscrições e as edições anteriores em www.worldpressphoto.org.

27
jun

Fotojornalismo impressionista: Alejandro Chaskielberg é o vencedor do prêmio mundial de fotografia da Sony

Retrato de Alejandro Chaskielberg.

Por encarar o desafio de encontrar uma forma particular, criativa e artística de fazer fotojornalismo, o fotógrafo argentino Alejandro Chaskielberg, 34 anos, desenvolveu uma série de trabalhos que remetem tanto a cenas de cinema quanto a quadros impressionistas, mas sem deixar de retratar a realidade.

Foto da série "La Creciente". Foto: Alejandro Chaskielberg

“La Cresciente”, registro sobre os moradores das ilhas do Delta do Rio Paraná, na Argentina, rendeu a ele o prêmio L’Iris D’Or Sony World Photography Awards, no qual concorreu com cerca de 105 mil imagens enviadas por fotógrafos de 162 países. Além de conquistar os doze jurados, ele também foi premiado na categoria “Pessoas” dentro do segmento “Fotojornalismo e Documentário”. Com a distinção, ele embolsou 25 mil dólares, ganhou uma câmera Sony Digital SLR e passou a integrar a Academia Fotográfica Mundial junto com os vencedores das edições anteriores, a britânica Vanessa Winship (2008), o norte-americano David Zimmerman (2009) e o italiano Tommaso Ausili (2010).

Foto da série "La Creciente". Foto: Alejandro Chaskielberg

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Chaskielberg contou que é um amante da pintura e, principalmente, do impressionismo. “Comecei no fotojornalismo e a primeira vez que consegui desabrochar uma forma visual de representar a realidade foi com a série ‘High Tide’ [tradução de 'La Creciente' no inglês]“, conta. Para produzir a série, realizada entre 2007 e 2009, ele conviveu com a população que vive às margens da parte argentina do rio Paraná.

Foto da série "La Creciente". Foto: Alejandro Chaskielberg

Ter convivido com as famílias da comunidade durante dois anos e conquistado sua confiança antes de fotografar foi fundamental, também, para que sua técnica funcionasse na prática. Alejandro afirma não intervir digitalmente nas imagens, manipulando-as apenas com a câmera e a luz. Por se utilizar de longos tempos de exposição, os fotografados devem permanecer imóveis enquanto são clicados: “Gosto de fotografar à noite, com a lua cheia, e de usar longos tempos de exposição, de cinco a dez minutos. A perspectiva é diferente”.

Foto da série "La Creciente". Foto: Alejandro Chaskielberg

Outro de seus trabalhos dialoga com “La Cresciente”. “Borders”, em que Chaskielberg une homem a água, registrou banhistas de uma área próxima à fábrica de celulose instalada na divisa entra a Argentina e o Uruguai, que gera atrito entre os dois países. Enquanto em “La Cresciente” ele se valeu da luz do luar, em “Borders”, utilizou um flash potente, mesmo fotografando sob a luz do dia.

Fotos da série "Borders". Foto: Alejandro Chaskielberg

O presidente do júri do prêmio L’Iris D’Or afirmou que, este ano, não houve dificuldade alguma na escolha do vencedor. Nas palavras dele, “as fotografias premiadas contam verdades sólidas, sobre o trabalho pesado, o espírito de comunidade e a sobrevivência econômica marginal”.

Foto da série "La Creciente". Foto: Alejandro Chaskielberg

Formado pelo Instituto Nacional de Cine y Artes Audivisuales, Chaskielberg começou a trabalhar aos 18 anos como repórter fotográfico para jornais de Buenos Aires, ganhando reconhecimento com a série “Argentina Crisis”, que retratou a crise enfrentada pelo país latino-americano em 2001. Em 2008 foi convidado para participar do projeto “All Roads” da National Geographic e em 2009 foi apontado pela revista Photo District News como um dos 30 fotojornalistas emergentes mais importantes do mundo. No ano passado, esteve no Brasil como palestrante convidado do festival Paraty em Foco.

Foto da série "La Creciente". Foto: Alejandro Chaskielberg

Confira seu portfólio completo no site oficial

E encontre todos os ganhadores do prêmio Sony de Fotografia aqui

22
jun

A Sombra da Luz: os trabalhos dos alunos e a importância da experimentação

Foto: Amália Machado Goncalves

Depois da proposta do desafio “A Sombra da Luz”, os professores do Curso de Fotografia Raul Krebs e Leopoldo Plentz ministraram aulas relacionadas ao assunto, dando aos alunos referências e exercícios. Mas, para conferir o resultado final, foram convidados os professores Guilherme Lund e Eduardo Veras, que não acompanharam a evolução dos estudantes em aula e, por isso, teriam um olhar mais fresco, sem influências, no momento de avaliar os trabalhos.

Foto: Alexandre Raupp

Durante a aula, a expressão “desenhar com a fotografia” foi utilizada diversas vezes pelo professor Eduardo Veras que, a nosso convite, explicou o significado que ela tem para ele: “Em geral, quando eu penso em desenho, penso em linhas, em grafismos, na utilização deles para construir alguma coisa. Pode ser uma linha solta, pode ser uma linha que faz curvas, podem ser linhas geométricas, que se cortam, ou ainda uma linha reta, o menor caminho entre dois pontos. Quando olho para uma fotografia e o que puxa o meu olhar são linhas, eu interpreto que a pessoa está desenhando. Ela está usando a fotografia para fazer desenhos. E isso não é um problema, pelo contrário. É possível desenhar em telas, papéis, fazendo esculturas, fazendo prédios, fotografando…”, opinou Veras.

Foto: Eliane Heuser

“No trabalho em questão, como a proposta era utilizar sombra e luz, é muito tentador para os alunos desenhar com a sombra. As vezes é à revelia da gente que a sombra desenha. Ela define contornos, o que nada mais é do que desenhar”. Veras ainda afirmou que o mais interessante ao conferir os trabalhos é o fato de que cada olhar é um olhar, então, para a mesma proposta, existem respostas bem diferentes.

Foto: Priscila Maboni

Como os alunos abusaram de grafismos, Veras alertou que, nesses casos, deve-se dar uma atenção extra à composição para que elementos externos não interfiram negativamente no resultado final. Guilherme completou: “Quando a composição envolve pessoas, aquele ‘momento decisivo’ de Henri Cartier-Bresson é importante. É necessário prestar atenção nos pequenos gestos para não perder o momento do clic”. O professor também relembrou a importância de não apenas estar atento aos detalhes, mas de se afastar, tentar planos mais vazios.

“Existem frustações e limitações. Você pretende fazer uma coisa, mas aí entram as tuas limitações, a coisa fica um pouco menor. Há o que você quis fazer e o que conseguiu fazer”


Quando questionado se existem armadilhas para o fotógrafo quando se trabalha com sombra como um elemento de composição, Veras afirmou que por mais que elas existam, ele não as considera ruins. “As armadilhas podem ser boas, podemos até mesmo nos aproveitar delas em certos casos. Um problema comum é que, às vezes, ficamos fascinados por algum efeito, fica uma coisa meio ‘efeito pelo efeito’ que deve ser evitada. Mas o importante mesmo é fazer, arriscar, e depois pensar no que fez”, sugere, “é fazendo e experimentando que se aprende, não existe outra forma. Prevenções, pensar ‘isso é uma armadilha’, é que é o mais perigoso”.

Foto: Ana Letícia Sabi

Os dois professores ressaltaram a importância de procurar referências, prestar atenção em como outros artistas já pensaram a sombra. “Quando se trabalha com diagonais, por exemplo, é necessário saber onde ela desce e onde ela morre. Muitas vezes as diagonais quebram verticais, fica interessante”, apontou Veras.

“As coisas que você pretende nem sempre são as que o outro vai sentir”


Eduardo também aprovou o olhar pouco pretensioso de alguns alunos, em especial nos trabalhos que exploraram o espaço doméstico. “Esse tipo de fotografia me remete à fascinação das pessoas com as pequenas coisas, que é comum na infância e tende a sumir ou diminuir significativamente na idade adulta”, afirmou. O olhar positivo também prevaleceu nos usos de luz em feixes discretos, sem ser dramáticos, nas palavras do professor. “Implico um pouco com o uso daquela luz divina, marcada, celestial, muito utilizada no período barroco”, contou.

Foto: Marcia Maria de Antoni Goncalves

Os professores destacaram o trabalho de Márcia Maria Gonçalves, que realizou várias fotografias do mesmo prédio em diversos ângulos e fez uma colagem, brincando com a sombra. A experiência foi uma direta referência ao trabalho de David Hockney. Veras destacou que se tratava de uma exploração não apenas da sombra natural da  imagem, mas da sombra fruto de sobreposições criadas pelo fotógrafo com as reproduções. “Márcia fez o que Hockney faz, mas conseguiu dar uma resposta inteligente ao trabalho dele”, elogiou Veras.

Foto: Arthur Weinmann Tietze

Detalhes do corpo, poros e pelos, foram o assunto do aluno Arthur Tietze em outro trabalho elogiado. Para captar em macro, ele optou por usar uma câmera cybershot, amadora, e, de acordo com os professores, obteve um ótimo resultado: “A sombra interessou menos, não foi tanto o assunto quanto no trabalho dos colegas. Ao vermos fotos de corpo humano, no detalhe, imediatamente tentamos identificar de que parte do corpo se trata. As que são desvendadas logo de cara, no caso de Arthur, acabaram ficando as mais interessantes, fascinam pela composição abstrata”, apontou Eduardo. Guilherme elogiou a edição: “Sempre gosto de ressaltar a importância do conjunto. Nas fotos de Arthur, o conjunto se sustenta”.

“Aprender com os erros é importante. Mas é preciso ter humildade para ver os erros. O importante é trabalhar, olhar”

Foto: Paulo Corradi Pretz


No encerramento, Guilherme elogiou o resultado obtido pelos alunos: “Muitos dos trabalhos foram muito legais justamente pela questão da experimentação. É importante experimentar, testar, começar a ver a sombra de outra maneira. Não queremos rotular o trabalho, dizer ‘isso funciona, isso não’, o importante é exercitar, conversar sobre as fotos”. O professor ainda ressaltou a importancia do estudo em tempos de fotografias tão imediatistas, já que os artistas consagrados do passado eram incansáveis, pesquisavam e praticavam muito. Nesse clima, a aula foi finalizada com a leitura de motivantes frases do artista Xico Stockinger, trechos de uma entrevista concedida a Eduardo Veras em 2007, que ilustram esse post em conjunto com as fotografias dos estudantes.

“É preciso ter talento ou gosto. Gosto e talento, não sei se são a mesma coisa. É preciso trabalhar muito. É preciso ter amor ao que está na cabeça da gente. Entre você ver a coisa e fazer a coisa, há um caminho meio difícil. É preciso praticar bastante”