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Archive for março, 2011

30
mar

A gênese da fotografia no Centro de Fotografia da ESPM-Sul

Há algumas perguntas comuns que geralmente fazemos quando pensamos nas ferramentas que utilizamos atualmente, sejam elas comunicacionais ou não: como tudo começou? Quem foi o inventor? Qual foi a idéia inicial? Em se tratando de fotografia, há um termo que pode responder a essas perguntas: Câmera Obscura.

Aos longo dos anos estudiosos e filósofos desenvolveram teorias e criaram conceitos sobre a luz e seu reflexo, mas os princípios óticos usados na Câmera Obscura foi descoberto por Aristóteles, anos antes de Cristo. Ao observar um eclipse que se projetava no solo através dos buracos de diferentes tamanhos nas folhas de uma árvore, como se fossem uma peneira, ele percebeu que quanto menor o buraco mais bem definidas eram as imagens. A partir disso, filósofos, matemáticos, cientistas e estudiosos seguiram acrescentando novas observações, como Al-Kindi que, no século 9, observou: “a luz que está ao lado direito da chama passará pela abertura e será projetada no lado esquerdo da tela, enquanto a luz  que está ao lado esquerdo da chama passará pela abertura e ao final será projetada no lado direito da tela.”

Com o tempo, a Câmera Obscura chamou a atenção de matemáticos como Leonardo da Vinci e foi cada vez mais estudada. No século XIV, ela já era utilizada como um auxílio ao desenho e à pintura. Na tentativa de melhorar a nitidez da imagem projetada, os estudiosos diminuíam o tamanho do orifício, mas notavam que com isso havia perda de luminosidade. Então, em 1550, o físico milanês Girolamo Cardano sugeriu o uso de uma lente biconvexa no orifício. Ele percebeu que devido à capacidade de refração do vidro, o buraco poderia ser aumentado sem que a imagem refletida perdesse a nitidez.

Em 1558, o cientista Giovanni Baptista Della Porta publicou uma descrição detalhada da câmara e em 1604 o termo “Camera Obscura” foi utilizado pela primeira vez pelo astrônomo alemão Johannes Kepler. De lá pra cá, Câmeras Obscuras dos mais variados tipos e tamanhos foram criadas, e ela despertou o interesse de inúmeros fotógrafos. Dentre eles está o fotógrafo cubano Abelardo Morell, que é conhecido por “criar” câmeras em diferentes lugares do mundo. Dentro de um quarto de hotel próximo ao Times Square por exemplo, ele isola todas as janelas e faz um pequeno orifício para que poder captar a imagem. O resultado é a projeção das inúmeras telas coloridas de um dos mais conhecidos pontos turísticos do mundo dentro de um quarto. Ou seja, Morell constrói uma câmera obscura gigante para conseguir captar tais imagens. Pois foi baseado nele que o professor Manuel da Costa ministrou uma aula da cadeira de projeto II do Curso de Fotografia da ESPM-Sul. O Estúdio do Centro de Fotografia foi transformado em uma câmera obscura gigante, onde os alunos foram retratados e puderam acompanhar, através de uma tela de projeção, o que estava sendo captado. Abaixo, algumas fotos deste projeto grandioso:

Crédito: Eduardo Biermann

Crédito: Juliano Araújo

Crédito: Eduardo Biermann

Crédito: Eduardo Biermann

Crédito: Eduardo Biermann

Crédito: Juliano Araújo

Crédito: Juliano Araújo

23
mar

Mestres da Fotografia: Henri Cartier-Bresson

Retrato de Henri Cartier-Bresson, Paris, 1967, foto Robert Delpire

Gênio. Herói do fotojornalismo. Inovador. Existem inúmeros adjetivos para tentar definir, descrever ou situar Henri Cartier-Bresson na história da fotografia. Nascido em 1908, na França, Cartier-Bresson desenvolveu cedo a aproximação com a arte. Logo aos cinco anos foi apresentado à pintura por um tio e aos 19, em 1927, estudou com o pintor cubista e escultor francês André Lheu. Inclusive, foi nesta época que ele entrou em contato com as obras de grandes artistas como os renascentistas Jan van Eyck, Paolo Uccello, Masaccio e os escritores como Dostoevsky, Schopenhauer, Rimbaud, Nietzsche e Proust. Foi um época de intenso aprendizado e que se refletiria em seus registros anos depois. Em 1931, em uma viagem à Costa do Marfim, ele fez suas  primeiras e quando retornou à Europa, passou a dedicar-se exclusivamente à fotografia. Isto aconteceu porque Cartier-Bresson viu uma foto de autoria do fotojornalista Húngaro Martin Munkacsi (que também influenciou Richard Avedon, como contamos aqui) que retratava três meninos negros correndo nús em direção ao mar. Cartier-Bresson define o momento:

Foto: Martin Munkacsi. Boys running into the surf at Lake Tanganyika, ca. 1930.jpg

“A única coisa que era uma surpresa completa pra mim e me levou à fotografia foi o registro de Munkacsi. Quando eu vi a fotografia dos meninos negros correndo em direção à onda, eu não pude acreditar que tal coisa poderia ser captada por uma câmera. Peguei a câmera e fui para as ruas.” (…) “Aquela fotografia me inspirou a parar de pintar e a levar a fotografia a sério.” (…) “De repente eu entendi que a fotografia poderia captar a eternidade instantaneamente.Henri Cartier-Bresson

A partir disso, Cartier-Bresson adquiriu a câmera que o acompanharia ao longo de muitos anos e que seria quase uma extensão dos olhos do fotógrafo: Uma Leica com lente de 50mm. Por ser pequena, ela permitia que Cartier-Bresson registrasse nas ruas momentos variados sem que as pessoas percebessem que estavam sendo fotografadas.

Foto: Henri Cartier-Bresson. Naples, Italia, 1960.jpg

Foto: Henri Cartier Bresson. Behind the Gare Saint-Lazare, Paris, França, 1932

Foto: Henri Cartier Bresson. Sénos, Grécia, 1961

Ele fotografou em diversas cidades européias e sua primeira  Exposição aconteceu em 1932, na Julien Levy Gallery, em Nova Iorque, e em seguida no Ateneo Club em Madrid. Em 1934 Cartier-Bresson conheceu David Szymin e Endré Friedmann, que mais tarde mudaria o nome para Robert Capa. Juntos, os três montaram um estúdio e Capa passou a ser uma espécie de mentor de Cartier-Bresson. Em visita a Nova Iorque, em 1935, ele conheceu o fotógrafo Paul Strand, que foi camera no documentário The Plow That Broke the Plains. Esse contato com o cinema fez com que, ao voltar para a França, ele se candidatasse a trabalhar com o diretor Jean Renoir, que incentivou Cartier-Bresson a atuar nos filmes Partie de campagne (1936) e La Règle du jeu (1939) para que ele pudesse entender como era estar do outro lado da câmera. Durante a Segunda Guerra Mundial, Cartier-Bresson serviu o Exército francês na unidade de filmagem e fotografia. Durante a Batalha da França, em 1940, ele foi capturado por soldados alemães e mantido como prisioneiro de guerra durante 35 meses. Tentou fugir sem sucesso por duas vezes até que, em fevereiro de 1943, na terceira e última tentativa, teve sorte. Fugiu e se escondeu em uma fazenda onde pode conseguir documentos falso que lhe permitiram voltar para a França. Lá, ele trabalhou secretamente contribuindo para que outros prisioneiros pudessem fugir, além de registrar com outros fotógrafos a Ocupação e Liberação da França. Ainda em 1943, voltou a Vosgues (departamento da França localizado na região Lorena),onde havia enterrado sua Leica.

Henri Cartier-Bresson e prisioneiros no campo alemão, 1943.

Retrato de Henri como prisioneiro de guerra,Junho 1940

Quando a guerra acabou, Cartier-Bresson foi convidado a realizar o documentário Le Retour, que fala sobre os prisioneiros de guerra franceses. Na primavera de 1947, ele e os amigos Robert Capa, David Seymour e George Rodger fundaram a Magnum Photos, uma das agências mais famosas do mundo e que funcionava de maneira cooperativa, com o o intuito de utilizar a fotografia a serviço da humanidade. Em 1948, a cobertura do funeral de Gandhi fez com que Cartier-Bresson atingisse reconhecimento internacional, o que ficou ainda mais forte quando, no ano seguinte, esteve presente no último estágio da Guerra Civil Chinesa. Em 1952, lançou seu primeiro livro: “Images a La Sauvette” mas foi a versão inglesa que trouxe como título a frase mais famosa de Cartier-Bresson e que foi usada por ele como um guia ao longo de sua carreira: “The Decisive Moment” (O Momento Decisivo):


“Há uma fração de segundo criativa quando você está fazendo uma foto. Seu olho deve enxergar uma composição ou uma expressão que a própria vida oferece a você, e você deve saber, através da intuição, quando clicar. Esse é o momento em que o fotógrafo é criativo ”
Henri Cartier-Bresson

 

Foto: Henri Cartier-Bresson. Kriss dancers in a trance, Batubulan, Bali, Indonesia

Foto: Henri Cartier-Bresson. Italia, 1933

Os anos seguintes foram de uma lenta deserção da fotografia e conseqüente aproximação com a pintura. Em torno de 1975, Cartier-Bresson já não fotografava mais, admitindo que, talvez, ele tivesse dito tudo o que podia através da fotografia. Segundo ele, a câmera agora ficava guardada em um cofre em sua casa e raramente era usada. E assim, após anos desenvolvendo sua visão artística com a fotografia, a pintura tomou conta de sua vida. Sua primeira exposição de pinturas aconteceu em na Carlton Gallery, em Nova York, em 1975.

“ Hoje em dia tudo o que eu quero é pintar – fotografia nunca foi mais do que uma maneira de pintar, um tipo de desenho instantâneo. “ Henri Cartier-Bresson

Foto Martine Francl, Magnum. Paris, 1992.

Henri Cartier-Bresson, Muséum d’Histoire Naturelle, Paris, 1976.

Em 2003, juntamente com sua esposa, Martine Frank, inaugurou a Fundação Henri Cartier-Bresson, para manter um local permanente com seus trabalhos. Ele veio a falecer em 2004, em Montjustin, na França.

Vale lembrar que, não por acaso, Cartier-Bresson é um dos três fotógrafos chave da fase inicial do Curso de Fotografia da ESPM-Sul, juntamente com Richard Avedon e Irving Penn, que em breve também ganhará um post especial aqui no blog.

Foto Bernard Baudin, D.R. Exhibition Hommage a Henri Cartier-Bresson. Palais de Tokyo, Paris, 1988.

 

21
mar

Aula inaugural do Curso de Fotografia da ESPM-Sul

Foto: Juliano Araujo

Henri Cartier-Bresson, Irving Penn,  Richard Avedon, Sebastião Salgado, Mario Cravo Neto. O que eles, e tantos outros, tinham de tão diferente em suas fotografias? O que fez com que eles conseguissem desenvolver um estilo tão singular que permitiu criar registros atemporais e que contribuíram para a construção da história da fotografia? Há, com certeza, um sem número de fatores que, em conjunto, fizeram com que eles conseguissem captar com suas lentes algo tão pessoal. Mas, se focarmos no princípio desta questão, nos perguntaremos:

O que é preciso para ser um fotógrafo?

Foi exatamente isso que o professor Manuel da Costa explorou durante a primeira aula do Curso de Fotografia da ESPM- Sul, que aconteceu na última terça-feira, dia 15 de março.  Com o diferencial de colocar o aluno frente a uma situação fotográfica diferente a cada aula, o curso constrói, acima de tudo, uma vivência em fotografia. Utilizando referenciais teóricos, históricos, técnicos e estéticos, o curso busca dar discernimento ao aluno. Na primeira aula, por exemplo, um dos trabalhos vistos trazia uma série de citações de grandes fotógrafos, com dicas de como se tornar um fotógrafo.  Philip Jones Griffiths (1936-2008), que esteve no Vietnã em 1966 pela agência Magnum, tem uma dica crucial:

“(…) faça um teste simples para ver se você é cego para composição ou não.(…) Passar nesse teste é de importância fundamental (…) Se você sempre parou para considerar a melhor posição do selo em relação ao endereço em uma carta, você já tem 90% do caminho andado”. Ou seja, nem só de técnica vivem os fotógrafos. É preciso também ter predisposição para obter tais resultados. Mas como? O próprio Griffiths completa:“sugiro que você passe pelo menos três anos estudando um assunto que expanda sua mente (como uma das ciências humanas) para adquirir insights sobre a vida e ter alguma razão para querer tirar fotos”.

Ernst Haas (1921–1986), que vê diversos interesses na vida como influências indiretas no seu trabalho, completa: “Mesmo sem ter consciência deles”, ele observa, “eles o transformam, modificam”. “Como a música, a poesia, a literatura, a pintura. Você vai selecionar instintivamente aquilo que é parte de você, que é bom para você.” Como isso funciona? Haas completa:

“Nunca se sabe, talvez uma imagem lembre você de uma melodia, de um verso que você leu num livro, de uma pintura, de uma concha. Tudo está conectado com tudo, especialmente a fotografia. Ela não é sempre um prolongamento dos seus interesses?”

Confira abaixo, algumas fotos deste primeiro encontro:

Foto: Juliano Araujo

Foto: Juliano Araujo

Foto: Juliano Araujo

Foto: Juliano Araujo