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21
jul

João Pina: o cotidiano das favelas cariocas

Retrato de João Pina

Nascido em Lisboa, o fotógrafo João Pina realiza coberturas na América Latina para a imprensa portuguesa desde 2002. As imagens que apresentamos neste post integram a série Gangland, que ganhou um desdobramento como matéria da revista The New Yorker, em 2009, assinada pelo fotógrafo e pelo jornalista Jon Lee Anderson. As fotos retratam o cotidiano das favelas cariocas, desde momentos de descontração até confrontos armados entre policiais e traficantes.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

“Decidi começar a documentar essa realidade guiado pela curiosidade sobre como a cidade chegou a esse extremo de violência. Tive a oportunidade de estar ao lado de diferentes unidades policiais que trabalham nas favelas. Pude também seguir e documentar o lado de jovens, com idade média de 18 anos, os quais se tornam chefes de comunidades por serem traficantes em um território onde o estado brasileiro não existe”, explica o fotógrafo.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

As fotografias de João ecoaram no jornalista da publicação novaiorquina, que viu nas imagens uma possível abordagem para um contexto tão complexo. “Queria encontrar uma maneira de escrever sobre a realidade do Rio – tão inquietante, tão irresistível – desde que visitei a cidade pela primeira vez há uns doze anos, mas apenas quando vi as imagens do João senti que tinha encontrado alguém com um olhar gêmeo. Em si mesmo, o João impressionou-me como bom companheiro e guia para um desbravar mais profundo do mundo que ele já começara a documentar”, conta Anderson.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

João Pina nasceu em 1980. A partir dos 18 anos começou a publicar suas imagens de forma regular na imprensa de Portugal. A partir de 2002, começa a focar o seu trabalho sobretudo em países como Argentina, Brasil, Bolívia e Cuba. De 2004 a 2005 frequentou o curso de fotojornalismo e fotografia documental do International Center of Photography, em Nova York. Em 2007 publicou seu primeiro livro, “Por teu livre pensamento”, com histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, em parceria com Rui Daniel Galiza, autor dos textos.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

Pina trabalha para publicações como The New York Times, Newsweek, Stern, GEO Magazine, El País, EPs, La Vanguardia Magazine, D Magazine, Io Donna, Expresso e Visão. Já realizou exposições em Nova York, Londres, Tóquio, Lisboa e no Porto. Desde 2007 tem Buenos Aires como base para suas coberturas. Na Argentina, segue seu trabalho sobre os desaparecimentos articulados pelos regimes militares do Cone Sul na Operação Condor. Desde 2003 é membro do coletivo Kameraphoto.

Foto: João Pina

Foto: João Pina

14
jul

Gaza Black Out, de Gianluca Panella

Retrato de Gianluca Panella

Comentamos em um post anterior a série Occupied Pleasures, de Tanya Habjouqa, na qual a fotógrafa jordaniana registra situações banais do cotidiano de palestinos, em uma região marcada por conflitos armados. Buscando uma forma de mostrar o Oriente Médio sem imagens associadas diretamente à guerra e à destruição, os instantes captados por Tanya revelam momentos corriqueiros da rotina das pessoas. As fotografias apresentam um contexto muito particular e, ao mesmo tempo, dão abertura para outras leituras. Encontramos algo semelhante na série Gaza Black Out, do fotógrafo italiano Gianluca Panella.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Sobre o contexto concreto da captura das imagens, temos algumas informações, disponibilizadas pelo World Press Photo 2014 (o concurso deu o terceiro prêmio da categoria “General News” para a série). Por anos, Israel proveu energia elétrica à Gaza, apesar dos cortes diários, ocasionados pela escassez de combustível. A situação agravou-se no final de 2013, quando a única estação elétrica de Gaza ficou sem óleo diesel. Para piorar, chuvas torrenciais e severas enchentes provocaram longos blecautes.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

A alternativa encontrada foi o contrabando de suprimentos alternativos de diesel, transportados por túneis subterrâneos desde o Egito. A maioria das passagens, no entanto, foi fechada pelo então recém-instaurado governo militar egípcio, que tirou do poder a Irmandade Muçulmana, simpática ao governo do Hamas, em Gaza. Embora o bloqueio tenha sido temporariamente suspenso, com a colaboração de Israel, o contexto geopolítico, as inundações e a infraestrutura precária seguiriam dificultando a distribuição de energia na região, em dezembro de 2013, quando Panella realizou a série.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Sem o texto de apoio, torna-se difícil identificar o local onde foram tomadas as imagens. Vemos construções precárias, ruas vazias, resquícios das enchentes e paredes com a pintura gasta – a um primeiro olhar, não fosse pelas inscrições em árabe de algumas paredes, poderíamos pensar que são fotografias de algum subúrbio de uma cidade latino-americana. Ganham evidência os postes de luz – e, principalmente, a pouca luz, salvo discretos pontos que surgem em meio à escuridão.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Dando atenção especial à matéria-prima da fotografia, vemos poucas e isoladas áreas com iluminação mais intensa. O resultado é um cenário com ares de mistério. O que acontece quando a escuridão toma conta? Em que medida o fotógrafo controla as luzes que vemos? Até que ponto a luz se ausenta? O que essa ausência nos comunica?

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

As sombras das fotografias de Panella abrem caminho para perguntas sobre o que vemos realmente em uma imagem e sobre o quanto nos esforçamos para tentar enxergar. O fotógrafo nos apresenta o cotidiano de Gaza justamente no momento em que a visibilidade parece mais dificultada. De modo um tanto paradoxal, no entanto, parece nos dizer que, para enxergar melhor – ou de uma forma diferente –, por vezes é necessário esperar que algumas luzes se apaguem.

Foto: Gianluca Panella

Foto: Gianluca Panella

Nascido em Florença (1976), Gianluca Panella já realizou reportagens nos Bálcãs e em diversos países, como Egito, Haiti, Líbano, Marrocos e Sudão. Dando sequência a estudos em ciências políticas, iniciou a carreira como fotógrafo autodidata. Estudou fotojornalismo em Milão e em seguida passou a trabalhar para jornais locais. Desenvolve projetos pessoais de cunho documental e colabora com agências de notícias.

30
jun

Retratos de insetos, por Johan Ingles-Le Nobel

Rertrato de Johan Ingles-Le Nobel

Desde os registros de corpos celestes que estão a milhares de anos-luz da Terra até os detalhes microscópicos da vida de uma célula, temos um espectro imenso de imagens proporcionado pelo uso da fotografia em diversas áreas. Uma infinidade de mundos aos quais, somente com os nossos olhos, não teríamos acesso, e que dependem de avanços tecnológicos e da dedicação de todos aqueles que trabalham para obter essas imagens. Johan Ingles-Le Nobel é um dos obstinados pela busca de novos horizontes para a fotografia. Pesquisador das possibilidades das lentes macro, ele desenvolveu um conhecimento aprofundado sobre a fotografia de insetos.

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

No seu site, Lenobel apresenta uma série de orientações para facilitar a obtenção das capturas. “As primeiras horas da manhã são um momento frutífero, pois os insetos se mantêm relativamente estáticos quando as temperaturas estão mais baixas”, explica. “Insetos precisam de vegetação, e vegetação depende de água. Portanto, lugares com bastante água favorecem o encontro com os insetos”.

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

“Em vez de ir até o inseto, você pode fazer o inseto ir até você, usando alimentos, odores, produtos químicos e outros chamarizes”, sugere o fotógrafo. No entanto, toda a relação com os insetos deve ser avaliada eticamente, especialmente se a espécie for rara. “Flagrar insetos pode molestá-los. Os incômodos podem, por exemplo, fazê-los parar de produzir óvulos”, explica. “Uma pessoa sensível a isso fotografa o mínimo necessário e encerra o seu trabalho”.

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

Lenobel também lembra que a fotografia de insetos não precisa necessariamente ser realizada à luz do dia. De noite, é possível fotografar uma gama de espécies totalmente diferente daquelas encontradas em outros horários. “Use uma boa lanterna ou um bom flash circular para obter a iluminação que você precisa”, recomenda. Dessa maneira, o fotógrafo pode ampliar ainda mais o seu campo de atuação e descobrir universos visuais surpreendentes.

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

Foto: Johan Ingles-Le Nobel

Johan Ingles-Le Nobel estudou fotografia na Academy of Art College, em São Francisco, Califórnia. Passou vinte anos desempenhando outras atividades profissionais, até retomar o interesse pela fotografia. Teve suas imagens publicadas em diversas revistas de fotografia e em veículos como BBC, La Republica e The Smithsonian Magazine. Mantém o site Extreme-macro.co.uk, um guia técnico para a fotografia com lentes macro.