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Artigos Recentes

27
ago

Jesse Marlow: a cidade em fragmentos

 

 

Obtidas entre 2005 e 2012, as imagens da série Don’t Just Tell Them, Show Them [Não conte apenas, mostre a eles] revelam o olhar muito particular de Jesse Marlow. As fotos apresentam ruas de cidades australianas – Marlow vive em Melbourne – e de lugares visitados pelo fotógrafo em suas viagens. Mistério, surpresas, poesia. Tudo isso em situações banais do cotidiano.

 

 

 

 

A interação entre personagens e paisagens é um dos principais aspectos que observamos nas fotografias. Marlow busca enquadramentos que ressaltem elementos arquitetônicos, criando cenários inusitados no plano da imagem. Mais do que momentos corriqueiros, vemos composições cuidadosas que abordam a forma como habitamos esses espaços.

 

 

 

 

É praticamente impossível identificar onde o fotógrafo está. Mais do que imagens de cidades, Marlow compartilha uma certa sensibilidade em relação ao contexto urbano, um olhar que procura encontros – entre pessoas e espaços, objetos e espaços – exibidos de forma fragmentada. Ele nos retira os contextos, trazendo à tona instantes de um observador que se abre para o acaso ao seu redor.

 

 

 

 

Australiano, nascido em 1978, Jesse Marlow vive e trabalha em Melbourne. Desde 2003, publica livros e realiza exposições coletivas e individuais na Austrália e na Europa. Participou do coletivo fotográfico Oculi entre 2003 e 2012 e é integrante do grupo de fotografia urbana In-Public desde 2001.

 

 

 

23
ago

Christian Houge: o homem, o lobo e a sombra

 

 

Os limites entre natureza e cultura são abordados pelo norueguês Christian Houge na série Shadow Within [Sombra interior]. “Busco explorar profundamente na psique do espectador o que ele pode aprender de seus lados sombrios e seu instinto animal – medo, agressividade, hierarquia, sexualidade e solidão, para citar alguns aspectos”, reflete o fotógrafo.

 

 

 

 

Houge conta que, no convívio com os lobos, descobriu indivíduos de distintas personalidades, as quais, na sua visão, guardam muita semelhança em relação aos seres humanos. “Como os lobos, nós temos estruturas sociais robustas e baseamos muito de nossas vidas no medo. Além disso, a linguagem corporal tende a se sobrepor em relação a falada”, exemplifica.

 

 

 

 

Para realizar a série, Houge precisou conquistar a confiança dos lobos – apenas uma parte da imersão do fotógrafo no contexto de vida dos animais. Ele também realizou cursos de linguística para entender melhor a comunicação entre e com os animais. “Tive que buscar dentro de mim e de minhas sombras para que essa série pudesse acontecer”, completa o fotógrafo.

 

 

 

 

Nascido em 1972, em Oslo, Noruega, Christian Houge explora as relações entre natureza e cultura de diversas formas. Desde 1997, apresenta seus trabalhos em exposições coletivas e individuais pela Europa.

19
ago

O retorno do site foto.art, de Sérgio Sakakibara (Japa)

 

 

Lançado originalmente em 1997 pelo fotógrafo Sérgio Sakakibara, o site foto.art está de volta com sua abordagem didática e iconoclasta. Para celebrar esse retorno e o Dia Mundial da Fotografia, conversamos com o Japa – como Sérgio é mais conhecido – a respeito do início do foto.art, no final dos anos 1990, um precursor entre os sites brasileiros dedicados ao universo fotográfico.

 

 

Como foi o começo do site? O que havia de conteúdo online relacionado à fotografia naquela época?
Tinha um site do Clício Barroso e outro do Rio de Janeiro, o Photosynthesis. Mais tarde, veio o Fotosite, do Marcelo Soubhia. A maior parte do trabalho era – e continua sendo – pesquisar, estudar, garimpar, analisar, filtrar informação e traduzir para o português. Tive colaboradores estudantes, o Fernando Schwedersky, da área de publicidade e internet, e a Paula Biazus e a Maisa Del Frari, do jornalismo.

Como você define a linha editorial do site? Como foi a recepção dos fotógrafos?
O site tratava de assuntos diversos, de forma alegre, às vezes de forma debochada. A linha editorial era de opiniões bem marcadas, numa linha inspirada pelo Pasquim. Criticava duramente políticas públicas para o setor. Alguns gostavam, outros reclamavam da linha, alguns odiavam. Arranjei algumas inimizades. Eu ria muito quando fazia, era divertido, um hobby caro. Exigia alto envolvimento, não tinha fim de semana, mas também aprendi muito.

De que forma eram abordadas questões mais técnicas da fotografia? 
Pegamos a entrada do digital, naquela época de muitas dúvidas técnicas e muito preconceito, resistência – às vezes meio burra – ao digital. A entrada do digital já foi com informação via internet, não havia tempo para publicação em livro, e mesmo revistas mensais não conseguiam acompanhar a velocidade. Um dos focos do site era o furo jornalístico na informação de lançamentos da indústria de fotografia digital e a previsão de tendências.

 

 

Você pode nos falar um pouco sobre a imagem acima?
É um exemplo da linha editorial debochada e de sua representação gráfica – cores berrantes, uso de gif animado… Também usava sons de fundo na página, que irritavam e assustavam muita gente. Tirava sarro de muitos puristas, fotógrafos e professores, que diziam que o digital nunca ia superar o filme e poluíam o Guaíba… (a fotografia analógica não existia ainda, é uma invenção nova deste mesmo povo). Hoje, os ecochatos analfabetos dizem que não se pode jogar fixador no ralo por causa dos metais pesados. Nunca estudaram química e desconhecem a tabela periódica. Não sabem que prata não é metal pesado. É um metal caro, e é burrice jogar fora.

Resgatamos também este material sobre as câmeras de 6 megapixel, publicado no início dos anos 2000. Pode nos falar um pouco a respeito?
Estudo e conhecimento técnico permitiram o entendimento de que 6 megapixel, que tínhamos no lançamento de câmeras digitais profissionais da época, bastariam para quase todo uso de fotografia editorial e publicitária. Até hoje, profissionais de publicidade ainda falam besteiras a respeito de resolução, por vezes por interesses comerciais, quando falam em imagens para outdoor, quando desconhecem sua forma de produção.

Pode nos explicar o conceito de “fotografia artesanal” mencionado no site?
O nome do site foi decidido logo que foi lançada a terminação .art. Ocorreu-me usar um nome bem sintético e menmômnico. Lembrava fotografia e arte. Posteriormente comecei a questionar essa questão de fotografia e arte, um território bastante pantanoso – todo fotógrafo quer ser artista. A fotografia jornalística e documental se esvazia politicamente quando vai para a parede de um museu, é num deslocamento que provoca uma descontextualização da informação. Uma das características da fotografia é o recorte espacial e temporal, e se a imagem é apresentada sem a apresentação da informação dessa trajetória, tende a se transformar em um ficção, plausível, e até arte. Na retomada do site, que coincidiu com um interesse geral pela fotografia suja, química, aproveitei para requalificar a desinência, fugindo de arte para artesanal, do fotografia feita à mão, fotografia alternativa ao “mainstream”. O digital é muito clean, limpinho, bonitinho, insípido, inodoro, não suja o Guaíba…

Por fim, o que motivou a retomada do site? O que podemos esperar desse retorno?
Um ponto de informação sobre fotografia como um hobby, como artesanato, como passatempo, sem a preocupação com arte, ou deslocando a estese para o brincar com fotografia.