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16
mai

Galeria Lunara recebe TRAUM: Fotografias de Raul Krebs

Temos uma boa notícia para quem aprecia o eclético trabalho de Raul Krebs, professor do Centro de Fotografia da ESPM-Sul conhecido por atuar em diversas áreas e mercados, sempre com diferentes linguagens e estéticas fotográficas. Sábado, 19 de maio, será inaugurada sua exposição TRAUM, e em um dos lugares que Raul mais gosta de expôr: a Galeria Lunara, na Usina do Gasômetro. Por se tratar de um ambiente escuro, costuma receber bem certas imagens de Raul — e combinou de forma especial com as que fazem parte da mostra em questão.

Foto: Raul Krebs.

Foto: Raul Krebs.

TRAUM reúne 11 fotografias de diferentes séries do fotógrafo, em uma seleção a quatro mãos feita por ele e pelo curador, Bernardo de Souza. Chamado por Bernardo no ano passado para expôr no espaço, Raul retribuiu o convite oferecendo a ele a curadoria. Levou a Bernardo todos os seus projetos pessoais, mesmo os inacabados, impressos em cópias pequenas, 20 x 25cm. Depois de alguns dias, recebeu uma seleção que mesclava imagens de vários deles, em um raciocínio estético que Raul não tinha imaginado até então. “Primeiro estranhei e curti ao mesmo tempo. Depois de ver e rever as fotos por alguns dias, terminei gostando demais”, relembra. A atmosfera em TRAUM remete às narrativas de sonhos, não lineares e fragmentadas. Tratam-se de histórias escondidas, subjetivas e nem sempre perceptíveis à primeira vista.

Raul conta que seu objetivo era justamente ter um olhar de Bernardo sobre o seu trabalho, tanto pela admiração pela atuação do curador em Porto Alegre quanto pelo que poderia surgir dessa troca. “No nosso último encontro ele comentou que as fotografias tinham uma narrativa, na visão dele, de sonho – fragmentos, pequenas histórias. Achei um conceito bacana, fiquei entusiasmado”. O título surgiu de uma conversa de Raul com sua esposa, a designer e artista Tatiana Sperhacke, que assina o convite da exposição. “‘Traum’, em alemão, significa sonho e é parecido com trauma, uma palavra que conversa bem com várias das imagens que serão expostas”.

Retrato de Raul Krebs. Foto: Juliano Araujo

Entre as fotos estão três das 20 inéditas que compõem a série Máscaras, sobre a qual já falamos aqui. Entre os outros ensaios que tiveram imagens contempladas estão FOREPLAY, CINDY e POLAPIN. Alguns deles ainda não concluídos, como BLACK SERIES. Aos que se interessam pelas técnicas utilizadas, vale ressaltar que TRAUM possui imagens em polaroid pinhole, fotografia digital de pequeno e médio formato e fotografias em filme preto e branco (depois digitalizado).

Exposição Traum, por Raul Krebs.


14
mai

A liberdade em cores de Ernst Haas

Ernst Haas Portrait.

Ernst Haas (1921 – 1986) é aclamado como uma das mais importantes figuras da fotografia do século 20, além de, como William Eggleston e Joel Meyerowitz, ser considerado um artista pioneiro no uso de cores. Membro da célebre Magnum Photos, tem em seu acervo mais de 250 cópias coloridas e 100 mil negativos em preto e pranco, além de um extenso número de escritos e experimentos com luzes e formas abstratas.

Galloping Horses. Foto: Ernst Haas.

Motion Runners, 1958. Foto: Ernst Haas.

Como muitos dos fotógrafos precursores no uso de cores, Haas começou sua carreira artística como pintor. Nascido em Viena, na Áustria, estudou Medicina e largou o curso para trabalhar na revista Heute. Seu ensaio de prisioneiros de guerra que chegavam para se refugiar na cidade chamou a atenção de Robert Capa, que o convidou para integrar a recém fundada Magnum Photos. Ao lado de Werner Bischof, Haas foi um dos primeiros e únicos colaboradores a ser chamado diretamente pelos fundadores, Capa, David Seymour, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e Bill Vandivert.

Pool Reflections, 1977. Foto: Ernst Haas.

Third Avenue, New York, 1952. Foto: Ernst Haas.

Mudou-se para Nova Iorque e logo começou a fotografar e publicar as imagens coloridas que se tornariam sua assinatura, carregadas de cores saturadas e características pictóricas, mas sempre com leveza. Em 1953, publicou uma série de 24 páginas sobre a cidade para a revista Life. Por trazer um conceito de ensaio sem amarras com o jornalismo tradicional, “Images of a Magic City” foi considerado um marco na fotografia editorial — e gerou a produção de matérias nos mesmos moldes nas cidades de Paris e Veneza. Em 1958, Haas já era consiedrado um dos dez melhores fotógrafos do mundo de acordo com informações da revista Popular Photography.

Central Park, 1952. Foto: Ernst Haas.

New York in the Fog, 1980. Foto: Ernst Haas.

Uma bela forma de compreender seu trabalho é através de seus escritos, nos quais expunha com liberdade sua visão da fotografia como “uma nova filosofia do olhar”, em suas próprias palavras. Em muitos desses textos, Haas dizia que essa arte era uma ponte entre a ciência e a arte: era através das fotos que artistas e cientistas poderiam encontrar um denominador comum em sua busca pela síntese de uma visão moderna do tempo e do espaço. “Nós podemos escrever novos capitulos em uma língua visual, na qual a prosa e a poesia não necessitam mais de tradução”. Em um momento de crescente mecanização do homem, a fotografia se tornava, para ele, o exemplo perfeito de um problema paradoxal: “Como humanizar-se, como superar uma máquina da qual estamos totalmente dependentes… a câmera.”

Street Reflections, 1952. Foto: Ernst Haas.

Foto: Ernst Haas.

O trabalho do fotógrafo, para ele, era transcender a realidade sem a deformar, trazendo uma ordem subjetiva a um caos objetivo. Em sua primeira exposição individual, sediada no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque), em 1962, o curador John Szarkowski afirmava no release oficial: “Nenhum fotógrafo teve tanto sucesso ao expressar uma algria plena através do seu olhar”. Para Haas, as cores eram a alegria. E não pensamos na alegria, nos deixamos levar por ela.

City Railings, 1955. Foto: Ernst Haas.

Hot Frunkfurters, 1955. Foto: Ernst Haas.

Essa alegria que marca sua obra está relacionada com a liberdade com a que construía as imagens, muitas delas deliberadamente fora de foco, com fortes efeitos visuais. O uso do processo dye transfer ajudava a criar as cores vivas e brilhantes que também atrairiam a publicidade. Entre as campanhas que clicou, vale citar uma série para a marca de cigarros Marlboro, em 1980. Entre outros de seus trabalhos marcantes fora do fotojornalismo estão os célebres registros das filmagens de Os Desajustados (1961), com Marilyn Monroe.

Malrboro Man, Morning Her. Foto: Ernst Haas.

Marilyn Monroe em "Os Desajustados". Foto: Ernst Haas.

No mesmo ano em que faleceu, 1986, Haas recebeu o prêmio Hasselblad, em Nova Iorque.

“Estilo não tem fórmula, mas tem uma chave secreta: é a extensão de sua personalidade. [...] Não estacione. Estradas vão te levar lá, mas eu aviso, nunca tente chegar. A chegada é a morte da inspiração.”
Ernst Haas

11
mai

Gustave Le Gray e a fotografia como arte inovadora

Gustave Le Gray Self Portrait, 1850-52.

Figura central da fotografia francesa do século 19, Gustave Le Gray nasceu em 1820, em Paris, e estudou para se tornar pintor. Migrou para a fotografia em 1847 e, antes mesmo de criar as imagens marinhas que o tornariam eterna referência, consagrou-se como um dos mais renomados pioneiros do novo ofício. Além de artista de primeira ordem, lecionou e escreveu uma série de manuais de instrução fotográficos amplamente distribuídos.

Lighthouse and Jetty, Le Havre, 1856-57. Foto: Gustave Le Gray.

Seascape with Sailing Ship and Tugboat, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

The Great Wave, Sète 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Le Gray estudou pintura no estúdio de Paul Delaroche e construiu seu primeiro daguerreótipo em 1947. Entretanto, suas maiores contribuições artísticas e técnicas foram realizadas no campo da fotografia em papel, por ele experimentada no ano seguinte. Em um de seus tratados, publicado em 1950, previa sem erros, se desconsiderado o meio digital, que o “futuro inteiro da fotografia era em papel”. No mesmo documento, esboçava uma variação do processo cunhado por William Henry Fox Talbot, afirmando que se os negativos de papel fossem encerados antes da sensibilização, gerariam uma imagem mais nítida, o que rapidamente comprovou.

The Road to Chailly, Fontainebleau, 1856. Foto: Gustave Le Gray.

Study of Trees and Pathways, 1849. Foto: Gustave Le Gray.

Ao lado de nomes como Édouard-Denis Baldus e Hippolyte Bayard, tornou-se um dos cinco fotógrafos responsáveis por documentar as missions héliographiques. O objetivo dessas missões patrocinadas pelo governo francês era reparar importantes monumentos do país. Em 1950, passou a ensinar fotografia, motivado pelo desejo de que ela fosse incluída no meio das artes ao invés de cair no domínio da indústria e do comércio. No ano seguinte, tornou-se membro fundador da Societé Héliographique, a primeira instituição fotográfica do mundo, e, mais tarde, da Societé Française de Photographie.

Camp de Châlons Setting the Emperor's Table, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Camp de Châlons: Zouaves, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Zouave Storyteller, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Em 1855, estabeleceu o “Gustave Le Gray et Cie”, seu opulente estúdio de fotografia. Apesar do fluxo constante de clientes ricos, a construção luxuosa acumulou enormes dívidas. Talvez para amenizar esses problemas, talvez por gostar mais de desafios artísticos do que da rotina de retratos, Le Gray produziu, no mesmo período, algumas de suas obras mais populares e memoráveis, como a poética série de paisagens marítmas que o tornou famoso internacionalmente.

The Brig, 1856. Foto: Gustave Le Gray.

Cavalry Maneuvers, Camp at Châlons, 1857. Foto: Gustave Le Gray.

Na época do ensaio, intitulado “Sète”, a fotografia do estático já dava lugar a cenas do cotidiano. Ou seja, o tempo de exposição necessário para a captação da imagem fotográfica já não era mais tão longo para demandar um assunto imóvel. Muitas das imagens anunciam, como “La Grande Vague” (1857) (ou “a grande onda”), essa transformação da fotografia na arte do instantâneo. Sua maior inovação, entretanto, foi outra. Para resolver o problema da adequação de diferentes tempos de exposição para o céu e para o mar, Le Gray encontrou uma solução que remete a técnica da fotografia HDR popular nos dias de hoje, na qual duas imagens são sobrepostas para a criação de uma só. A fim de que ambos, céu e mar, tivessem a mesma qualidade, usou duas placas de vidro diferentes e as imprimiu no mesmo suporte, um procedimento imperceptível na imagem final.

Pius IX's Railroad Car, 1859. Foto: Gustave Le Gray.

Pavilion Mollien, the Louvre, 1859. Foto: Gustave Le Gray.

Hypostyle Hall, Temple of Amon, Karnak, 1867. Foto: Gustave Le Gray.

Mesmo com o sucesso das imagens (mais de 50 mil francos em encomendas), ele fechou o estúdio, abandonou a esposa e os filhos e fugiu para escapar dos credores. Juntou-se a Alexandre Dumas para velejar pelas antigas civilizações como a Grécia, famosa na história e nos mitos. Desentenderam-se após dois meses de viagem e Le Gray desembarcou em Malta. Seguiu para o Líbano e, finalmente, para o Egito, onde fotografou e lecionou pintura até o final de sua vida, em 1884.

Gnarled Oak Tree near the l'Épine Crossroads, 1852. Foto: Gustave Le Gray.

The Beech Tree, 1855-57. Foto: Gustave Le Gray.