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22
set

Tim Walker: moda, sonho e fantasia

Retrato de Tim Walker

Os editoriais de moda do fotógrafo inglês Tim Walker são mais do que meras construções visuais para apresentar peças de roupas e seus modelos. Com ensaios publicados mensalmente na revista Vogue há mais de uma década, Walker concebe imagens marcadas por uma forte carga onírica, que situam as fotografias muito além do contexto da “fashion industry”. Além do apuro estético presente nas composições, chama atenção a forma como ganham destaque os personagens das suas fotografias.

Foto: Tim Walker

Foto: Tim Walker

“Um retrato que não traz nenhuma verdade sobre o retratado é irrelevante. Quando me encomendam o retrato de algum modelo, eu faço uma pesquisa sobre essa pessoa – quem é, o que representa e o que nela me atrai. Ao fazer um retrato, você está jogando com a identidade dessa pessoa, não é como uma fantasia, e eu penso que isso é algo muito delicado e vulnerável. Por ser uma coisa tão frágil, é necessário colaborar com quem posa para a foto”, explica Walker em entrevista à publicação The White Review.

Foto: Tim Walker

Foto: Tim Walker

O cuidado na relação com cada modelo reflete o pensamento do fotógrafo a respeito do contexto em que atua. “Vejo a moda, de forma majoritária, perpetuando algo que já passou, particularmente no que diz respeito à forma como os seres humanos são retratados. Acho isso repetitivo. Acredito que sempre fui atraído por aquilo que é um pouco mais individual”, conta.

Foto: Tim Walker

Foto: Tim Walker

Com fotografias nas coleções permanentes de renomadas instituições inglesas, como o Victoria & Albert Museum e a National Portrait Gallery, Walker explica que a moda e as marcas, mais do que uma motivação para o seu trabalho, são as responsáveis por tornar possível a materialização da sua criatividade. “Penso que sempre usei a indústria da moda como um mecanismo para financiar e apoiar o meu trabalho. Se eles o fazem e estão contentes, então está tudo bem”, conta.

Foto: Tim Walker

Foto: Tim Walker

Para Walker, cada imagem é um universo de fantasia no qual se constrói uma conexão entre modelo, fotógrafo e leitor/espectador: “Acredito que o modelo é a janela para o observador – qualquer pessoa – fazer parte desse universo. Sou eu perguntando, convidando para entrar naquele clima, seja ele sinistro ou de conto de fadas”.

Foto: Tim Walker

Foto: Tim Walker

Nascido em 1970, Tim Walker teve seu interesse pela fotografia iniciado na biblioteca Condé Nast, trabalhando por um ano no arquivo Cecil Beaton, antes de entrar na faculdade. Depois de três anos estudando fotografia na Exeter College of Art, recebeu o terceiro prêmio no concurso The Independent Young Photographer Of The Year. Após graduar-se, em 1994, trabalhou como assistente freelance em Londres e depois trabalhou na assistência de Richard Avedon, em Nova York. Retornou à Inglaterra e aos 25 anos realizou para a Vogue seu primeiro editorial de moda. Desde então faz ensaios para as edições britânica, italiana e americana da publicação e para revistas como a W Magazine. Vivendo em Londres, além dos editoriais, realiza filmes, lança livros e participa de diversas exposições.

15
set

Muhammed Muheisen: a nova geração de refugiados afegãos

Retrato de Muhammed Muheisen

Já falamos aqui a respeito do fotógrafo Muhammed Muheisen e do seu olhar para o cotidiano de zonas de conflito. Neste post trazemos uma série de retratos de crianças afegãs que vivem na periferia da capital paquistanesa, Islamabad, onde se concentra uma parte significativa dos refugiados oriundos do Afeganistão.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Segundo informações da Associated Press, há aproximadamente 3,8 milhões de afegãos refugiados no Paquistão. Os números oficiais, no entanto, não incluem um milhão de pessoas que possivelmente vive de forma ilegal em território paquistanês.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

As comunidades de refugiados afegãos são consequência dos conflitos vividos pelo país nas últimas décadas, a começar pela invasão soviética do Afeganistão em 1979. Ao final da guerra, dez anos depois, conflitos civis ocasionaram uma nova fuga em massa de afegãos. Mais tarde, um novo capítulo: a tomada do poder pelo Talibã levava mais refugiados ao Paquistão.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Nesse contexto, gerações de refugiados se sucedem vivendo longe do seu país de origem. A vida em terras paquistanesas, no entanto, está longe de ser viável. Os afegãos enfrentam o estigma de sua identidade nacional relacionada ao terrorismo, condição que torna difícil a integração dos refugiados, que se encontram, portanto, entre dois caminhos igualmente complicados: voltar para um país extremamente pobre e instável ou então seguir enfrentando as adversidades para se adaptar.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

A situação de exclusão, contudo, não é exclusiva dos afegãos. Segundo o relatório Tendências Globais 2012, do Alto Comissariado das Nações Unidas, há cerca de 45,2 milhões de refugiados ao redor do mundo. Desse total, 28,8 milhões de pessoas foram forçadas a fugir internamente, sem cruzar as fronteiras de seus países, enquanto 15,4 milhões obtiveram status de refugiado em outros territórios. Um em cada quatro refugiados no mundo é afegão, tendo como destino, em sua maioria, países como Paquistão e Irã.

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

Nascido em Jerusalém (1981) e graduado em Jornalismo e Ciências Políticas, Muhammed Muheisen vive atualmente em Islamabad, trabalhando como fotógrafo-chefe da Associated Press. Desde 2001 atuando na agência, cobriu conflitos entre Israel e Palestina e em países como Iraque, Afeganistão, Iêmen, Egito e Síria. Recebeu diversas distinções como o Prêmio Pulitzer de Breaking News (2005) e o primeiro prêmio do National Headliner Awards (2012).

Foto: Muhammed Muheisen

Foto: Muhammed Muheisen

8
set

Numo Rama, a palo seco

Retrato de Numo Rama

A série Carnívoros, de Numo Rama, leva-nos a um espaço de crueza – da carne, da vida, da morte, da sobrevivência. Imagens em preto e branco de um matadouro, lugar onde não há concessões, da mesma forma que não são condescendentes as fotos de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A vida de peão não me permite ser um fotógrafo contínuo. Então, penso a fotografia enquanto conserto as cercas, ou preparo o arreio para domar cavalo. É de onde tiro tempo para longas reflexões e programo mentalmente tudo”, explica o fotógrafo ao jornal O Estado de São Paulo. Aos 45 anos, nascido em Araruna (Paraíba), Rama vive atualmente em um rancho, no município de Pedra da Boca (na divisa entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte), depois de ter rodado o mundo por 16 anos, fazendo diversos trabalhos temporários.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Dos embates das realidades desse chão que voltei a pisar em 2000 venho extraindo a energia necessária para fazer uma fotografia com o volume e a força pertinentes à vida de meus ancestrais e das pessoas que encontro por aqui”, conta o fotógrafo. Embate, energia, força: palavras que, de fato, são associadas facilmente ao universo criado pelas imagens de Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“A estética do sertão tem uma força muito própria. Tudo no presente por aqui teve muitos passados, e com uma câmera simples, analógica e muita pretensão tento juntar tudo numa única imagem”, explica Rama.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

“Vivi em muitos lugares, principalmente em grandes cidades, onde não há espaço nem tempo, onde formataram o tempo, onde o tempo está em extinção. Todo meu trabalho é pensado com o tempo, somos bons amigos”, conta o fotógrafo. De volta ao mundo rural, Rama aborda a passagem do tempo exibindo os rastros deixados pela atividade humana e pelos corpos dos animais.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama

Quando o fotógrafo diz ver o mundo “a partir desse Nordeste que pare retirantes e retornados”, não tarda muito até pensarmos em João Cabral de Melo Neto, em mortes e vidas severinas. Assim como o poeta, Rama é conciso, sem sentimentalismos – e parece seguir o conselho dos versos finais de A palo seco, de João Cabral: “não o de aceitar o seco por resignadamente, mas de empregar o seco porque é mais contundente”.

Foto: Numo Rama

Foto: Numo Rama